# Software Livre não morreu: dos grupos de usuário às comunidades periféricas
Conectiva Linux, Kurumin, Revista do Linux, Portal do Software Público, FISL, FLISOL. Se alguma dessas coisas lhe é familiar, isso significa duas coisas: Uma você está ficando velho amigo ou amiga, a outra, parabéns, você faz parte da geração que viveu os anos dourados do movimento de Software Livre. Lembro com muita saudade e nostalgia de um tempo em que quando queríamos experimentar uma nova distribuição, corríamos para a banca de jornal para comprar a última edição da Revista do Linux, PC Master ou Geek, já que a conexão discada não ajudava muito na hora de baixar uma ISO inteira. Nada de Whatsapp ou Telegram, o point da galera eram os canais de IRC e as listas de e-mail, onde novatos eram sempre bem vindos, e evangelizar o seu projeto de Software Livre preferido era quase como um "sacerdócio".
Eram outros tempos, no início do século 21, a revista Kingstone chegou a intitular o Brasil como “o maior e melhor amigo do software livre”, e tivemos como ministro da cultura Gilberto Gil, que se auto intitulava "ministro hacker", por defender políticas públicas que fomentam o software livre, não só como estratégico para a soberania nacional e desenvolvimento tecnológico, mas também como catalisador de inovação e inclusão social através da produção cultural. Parecia inevitável, o mundo se rendia a cultura hacker, e o Brasil era destaque por ter apostado no software livre como política pública.
Sou programador e apaixonado por tecnologia, por isso não posso negar entusiasmo frente ao lançamento de novas ferramentas que podem tornar meu trabalho mais eficiente ou até mesmo mais divertido. Acredito que todo trabalho pode ser encarado também como arte, pois nem tudo que realizamos no dia a dia precisa servir a um pragmatismo de solucionar um problema de forma mais eficiente, muitas vezes buscamos caminhos mais divertidos e inspiradores que nem sempre são os mais simples, mas que são a livre expressão de sentimentos e emoções não traduzidos em palavras. Se isso não é arte, não sei mais o que pode ser. Estou falando de quando, por exemplo, um hacker trabalha por dias para fazer seu jogo favorito rodar em uma calculadora, ou quando um programador cria uma automação em arduino para fazer carinho no seu gato. Mas mesmo assim, não acredito que o uso e debate da tecnologia deve ficar reduzido a ela própria. Tecnologia e o processo de desenvolvimento é meio, e não fim, e a pergunta que devemos nos fazer no final das contas é, qual o impacto positivo determinada tecnologia está causando para a sociedade? Em outras palavras: A tecnologia está servindo apenas para o aprimoramento delas mesmas, ou ao bem estar da sociedade?
## A apropriação do livre
O software livre possui em sua natureza toda uma forte reflexão política e filosófica, tendo em vista que antes de tudo, trata-se de um movimento social de resgate aos valores da cultura hacker em sua essência, as mesmas que permitiram a "era de ouro" da computação, antes da famigerada "carta aberta aos hobbistas", escrita em 1976 por Bill Gates. Por outro lado, co-existia o movimento open source, que apesar das semelhanças técnicas, sempre divergiu quanto às questões políticas e filosóficas. Aliás, as questões políticas e filosóficas são justamente os pontos que criam uma linha de divisão entre o software livre e o open source. Em termos práticos, podemos dizer que o open source possui um maior apelo ao mercado, já que seu pragmatismo técnico neutraliza a maior parte do debate político e filosófico, que nem sempre está alinhado com os interesses das grandes corporações de tecnologia.
Com a apropriação do discurso de colaboração, compartilhamento e "aberto", proporcionada pelas novas tecnologias emergentes da web 2.0, uma nova economia digital surgiu. Se por um lado contribuiu para massificação do acesso e uso de novas plataformas da web 2.0 através de processo de desenvolvimento mais eficiente, ajudando a movimentar bilhões de dólares nas últimas duas décadas, no outro lado, o open source se tornou conveniente para o desenvolvimento de novos produtos, mas na grande parte das vezes, centralizando os serviços da rede em torno de plataformas proprietárias e fechadas, justamente na contra mão da proposta inicial da web, que tinha como objetivo ser um ambiente descentralizado, neutro e livre. Apesar da comunidade de desenvolvedores estar entusiasmada com a inovação proporcionada pelo mercado que abraçou o open source, não mais como uma alternativa, mas sim como algo essencial para o dinamismo do setor de tecnologia, os impactos sociais dessa apropriação são gritantes. Os modelos de negócio ditos como "colaborativos", acabaram contribuindo para a precarização do trabalho da mão de obra mais básica, no que ficou conhecido como uberização do trabalho. Nem todo mundo irá concordar que há de fato uma relação direta entre a apropriação dos valores da cultura hacker pelo mercado, na adoção do open source e esvaziamento do movimento do software livre, mas algo que é difícil de discordarmos é que, o debate crítico a esse modelo se esvaziou, assim como o movimento de software livre perdeu apelo ao longo dos últimos, pois a inovação tecnológica se tornou prioridade frente discussão sobre os possíveis impactos negativos na sociedade.
## Redes Comunitárias, movimento de resistência
Mas nem tudo está perdido, há um movimento global de resistência que vem crescendo nos últimos anos, com os mesmos valores reais de colaboração e compartilhamento do conhecimento da cultura hacker, na qual sem o software livre não seria possível. Considerando que o acesso a internet se tornou um direito humano assegurado pela Organização das Nações Unidas desde 2011, e que este direito na era da informação é primordial para ajudar a alcançar outros direitos humanos essenciais, as Redes Comunitárias é um movimento que coloca o software livre como ferramenta estratégica para combater as desigualdades de conectividade e até mesmo sociais, frente ao contexto atual de centralização e concentração econômica. As Redes Comunitárias são ilhas de autonomia tecnológica onde comunidades se unem na criação de um infraestrutura local comum, onde internet e diversos serviços digitais baseados em software livre são mantidos através de auto gestão horizontal e democrático. Podemos dizer que cada rede comunitária, seja ela em um quilombo no interior do Maranhão, em uma aldeia indígena na Amazônia, ou em uma comunidade urbana periférica de São Paulo, são pedacinhos livres e descentralizados da internet na qual como ela foi idealizada, cumprindo a função social de garantir liberdade de expressão, acesso a serviços governamentais essenciais e gerando renda. E não apenas de software livre são feitas essas redes, mas de hardware livre também. Podemos destacar como um grande feito da comunidade o projeto LibreRouter da Altermundi, que se materializa em um roteador wifi de redes mesh de hardware livre, que permite conectar dezenas de residências de uma comunidade em uma grande rede sem fio em malha e de baixo custo.
## Web 3.0: O futuro é baseado em software livre e descentralizado
A tecnologia de blockchain nasceu em 2011 junto com as criptomoedas, e mesmo que todo esse mercado altamente especulativo ainda gera muita desconfiança, ele abre as portas para web 3.0, e é aí que o jogo todo se inverte a favor novamente do software livre das tecnologias descentralizadas.
Apesar de projetos descentralizados como Diaspora e Mastodon se mantiverem durante todo o crescimento da web 2.0, não conseguiram cativar o grande público frente aos seus concorrentes centralizados e fechados de grandes corporações como Fecebook, Twitter, Google e Amazon. Apesar do que se acredita, isso se deve muito menos por questão de usabilidade, mas sim, porque essas plataformas livres não geram uma economia própria e sustentável, ficando dependentes de alguns poucos ativistas que mantém os projetos e os servidores em funcionamento. A partir do momento que surge uma tecnologia descentralizada, livre e confiável como a blockchain, que permite a manutenção economicamente sustentável destes projetos, e proporcione um ambiente onde novos negócios de trocas de produtos e serviços possam ocorrer, podemos vislumbrar um reposicionamento do software livre para os próximos anos.
Com a tecnologia de blockchain evoluindo rapidamente, e a cada dia nascendo um novo projeto com sua criptomoeda atrelada, já temos projetos bastante inovadores que darão o tom da Web 3.0. Podemos citar como exemplo projetos como a Aragon, plataforma que permite criar organizações/empresas descentralizadas, conhecidas como DAO - Decentralized Autonomous Organization, que já passam a ser reconhecidas legalmente por alguns governos, uu a PlasmaPay, que promete ser gateway de pagamento descentralizado sem nenhuma empresa controladora, conhecido como mercados DeFi - Decentralized Finance. Um dos projetos mais emblemáticos que promete ser um concorrente para o YouTube, da gigante Google, é o D.Tube, onde os vídeos não ficam armazenados em servidores centralizados, mas sim acessíveis via uma rede P2P e os produtores de conteúdo são remunerados através de uma criptomoeda própria.
## Conclusão
Por isso acredito que o software livre, ao contrário do que muita gente pensa, não morreu, mas sim evoluiu. Talvez atualmente não tenha mais o mesmo apelo nos mercado de tecnologia e nos grandes congressos, mas segue presente nas comunidades periféricas através das redes comunitárias, mantendo essa chama acessa quase como um movimento de resistência, esperando que o próximo estágio permita seu florescer completo. E esse próximo estágio está próximo. Com a via pavimentada para uma nova internet, mais descentralizada e economicamente desconcentrada na mão de alguns poucos, a retomada forte do movimento de software livre, junto com as redes comunitárias, deve ser promissora. Resta saber quais serão os próximos passos dados pelas gigantes da tecnologia para adaptar e sobreviver nessa nova era da web 3.0, e esperar que dessa vez a consolidação da tendência se torne tão forte, que nenhuma tentativa de apropriação tenha mais sucesso.