# Maratona da Música Litúrgica
## Aula 1: Os cantos litúrgicos na Missa
A realidade litúrgica que vivemos no Brasil sofre de alguns problemas generalizados, independente do lugar e da paróquia. Alguns exemplos são:
- Muita gente serve à liturgia **mas não conhece nada de liturgia.** Para piorar, muitas vezes não buscam estudar. E por fim, muitas pessoas assim estão à frente de grupos. A longo prazo, isso afetou também as assembleias, **as pessoas "aprendem" errado de quem serve sem saber o correto.** Pessoas servem há décadas sem ter o conhecimento e a formação necessários, e o Papa Francisco nos chama à isso na sua carta apostólica recente [Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/) (29/06/2022).
- Pouquíssimas pessoas têm o conhecimento da escolha de cantos pra missa.
- Em muitos lugares, ainda hoje, cantam músicas que não são litúrgicas, **especialmente nas partes fixas.**
- Falta formação para aqueles que servem. Às vezes tem-se uma formação por ano. **A formação litúrgica deve ser contínua.**
- Muita gente escolhe música porque tem algum apego ou sentimento com relação a ela.
A formação litúrgica não chega na ponta da linha, não chega até o povo, fica fechada em círculos teóricos, como disse o Papa Francisco. A maratona tem por objetivo trazer essa formação.
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### A estrutura da missa é a mesma desde sempre, porque Deus a quis assim desde o começo
#### Catecismo da Igreja Católica - [A missa de todos os séculos](https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1210-1419_po.html)
> (*1345*) Desde o século II, temos o testemunho de São Justino, mártir, sobre as grandes linhas do desenrolar da celebração eucarística. Permaneceram as mesmas até aos nossos dias, em todas as grandes famílias litúrgicas. Eis o que ele escreve, cerca do ano 155, para explicar ao imperador pagão Antonino Pio (138-161) o que fazem os cristãos:
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> **Liturgia da palavra**
>> No dia que chamam Dia do Sol, realiza-se a reunião num mesmo lugar de todos os que habitam a cidade ou o campo.
Lêem-se as memórias dos Apóstolos e os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo o permite.
Quando o leitor acabou, aquele que preside toma a palavra para incitar e exortar à imitação dessas belas coisas.
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> **Oração universal**
>> Em seguida, levantamo-nos todos juntamente e fazemos oraçõespor nós mesmos [...] e por todos os outros, [...] onde quer que estejam, para que sejamos encontrados justos por nossa vida e acções, e fiéis aos mandamentos, e assim obtenhamos a salvação eterna.
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> **O ósculo da paz**
>> Terminadas as orações, damo-nos um ósculo uns aos outros.
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> **Oração eucarística**
>> Depois, apresenta-se àquele que preside aos irmãos pão e uma taça de água e vinho misturados.
Ele toma-os e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças (em grego: eucharistian) longamente, por termos sido julgados dignos destes dons.
Quando ele termina as orações e acções de graças, todo o povo presente aclama: Ámen.
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> **Comunhão dos fiéis**
>> [...] Depois de aquele que preside ter feito a acção de graças e de o povo ter respondido, aqueles a que entre nós chamamos diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água "eucaristizados" e também os levam aos ausentes
Na passagem dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 27. 44-46), vemos como Jesus ressuscitado explica este desejo divino usando as próprias escrituras:
> E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras.
> Depois lhes disse: "Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos." Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo: Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia."
**Desde o Gênesis, Deus preparou a humanidade para a Santa Missa**. Desde a criação do mundo, Deus sonhou com este momento. Todo o antigo testamento aponta para Jesus.
Nós temos diante de nossos olhos a realização deste sonho divino. *A missa não é uma diversão, não é o lugar para eu fazer o que eu quero ou o que me agrada*.
### A centralidade da Santa Missa
> O conteúdo do pão partido é a cruz de Jesus, seu sacrifício de obediência por amor ao Pai. Se não tivéssemos a Última Ceia, isto é, se não tivéssemos a antecipação ritual de sua morte, jamais teríamos podido compreender como a realização de sua condenação à morte poderia ter sido de fato a ato de adoração perfeita, agradável ao Pai, o único ato verdadeiro de adoração, a única verdadeira liturgia. Apenas algumas horas depois da Ceia, os apóstolos poderiam ter visto na cruz de Jesus, se pudessem suportar o peso dela, o que significava para Jesus dizer “corpo oferecido”, “sangue derramado”. É disto que fazemos memória em cada Eucaristia. Quando o Ressuscitado volta dos mortos [...] aquele gesto de partir o pão abre os olhos. Cura-os da cegueira infligida pelo horror da cruz e torna-os capazes de “ver” o Ressuscitado, de crer na Ressurreição. ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 7)
A centralidade da Santa Missa é o sacrifício de Jesus oferecido para o Pai. A realidade do Cristo crucificado e do Cristo ressuscitado são **indissociáveis**.
> "O nosso Salvador, na última Ceia, instituiu o sacrifício eucarístico do seu Corpo e Sangue, com o fim de perpetuar através dos séculos, até à sua vinda, o sacrifício da cruz e, deste modo, confiar à Igreja, sua amada Esposa, o memorial da sua Morte e Ressurreição" ([Instrução Geral do Missal Romano](http://sagradocoracaopaulinia.org.br/uploads/publicacoes/IGMR.pdf), 2)
Quem diz que a missa não é só o sacrifício para justificar as suas escolhas alegres e bagunças na missa comete uma falácia:
> Nós, na Missa, estamos com Jesus, morto e ressuscitado e Ele nos leva para frente, para a vida eterna. ([A Missa é o Memorial do Mistério Pascal de Cristo](https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/catequese-papa-missa-e-o-memorial-misterio-pascal-de-cristo/), Papa Francisco)
Antes de qualquer coisa, precisamos entender o que estamos fazendo dentro da liturgia. Precisamos compreender que **indo para a missa, estamos indo para o Calvário.**
### A música litúrgica é ritual, e tem um papel a cumprir
> A música sacra, como parte integrante da Liturgia solene, participa do seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis. A música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias; e, assim como o seu ofício principal é **revestir de adequadas melodias o texto litúrgico proposto à consideração dos fiéis, assim o seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto**, a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios." (São Pio X, [Tra le Sollicitudini](https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini.html), 22/11/1903, pt 1).
Se a música dificulta a compreensão do povo do texto que está sendo cantado, estamos fazendo um desserviço. **Além de usarmos os textos corretos, a música precisa ser bem executada e ser agradável.**
> [...] todos os aspectos da celebração devem ser cuidadosamente cuidados (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestimentas, canto, música...) e todas as rubricas devem ser observadas. **Tal atenção bastaria para evitar que se roube da assembléia o que lhe é devido; ou seja, o mistério pascal celebrado de acordo com o ritual que a Igreja estabelece**.([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 23)
A Santa Missa não é alterável à vontade de músicos, leitores ou mesmo do padre. **Isto afeta a formação do povo, que perde a noção ritual.** A formação para a liturgia leva à formação *pela* liturgia.
> É isso que a Liturgia torna possível. Para isso devemos ser formados. Guardini não hesita em declarar que sem formação litúrgica “então as reformas rituais e textuais não ajudarão muito” ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 34)
## Aula 2: Como deve ser a música litúrgica na celebração
#### Recapitulando a aula anterior...
> Antes de nossa resposta ao seu convite – bem antes! — há o desejo dele por nós. Podemos até não estar cientes disso, mas toda vez que vamos à Missa, a primeira razão é que somos atraídos por seu desejo por nós. De nossa parte, a resposta possível — que é também a ascese mais exigente — é, como sempre, entregar-se a esse amor, deixar-se atrair por ele. De fato, toda recepção da comunhão do Corpo e Sangue de Cristo já era desejada por ele na Última Ceia. ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 6)
Conforme Lc 22, 15, "Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa" (daí que vem o nome da carta). **Cada vez que vamos à missa e recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo, este momento já foi desejado por Ele.** Tal deve ser a nossa atitude: "Jesus desejou que eu estivesse aqui, devo me deixar levar pela vontade dele". *Devemos fazer aquilo que Ele quer que façamos.* Antes de servirmos, devemos entender esta nossa participação nesse mistério, que tem seu cumprimento na Comunhão de cada Santa Missa.
> O nosso bem-amado Salvador chega à comunhão da Sua Missa quando, do íntimo do Sagrado Coração, parte este grito: "Tenho sede". Não se trata, certamente, de sede de água, pois a Terra, e tudo quanto ela encerra, Lhe pertenciam [...] Era outra, era diferente a sede que atormentava Jesus - **era a sede das almas e dos corações humanos.** [...] A humanidade pode sentir-se faminta de Deus, mas Deus sente-Se sequioso da humanidade. (Ven. Fulton Sheen, *O Calvário e a Missa*, parte 5)
Fome era muito pouco. Uma pessoa consegue ficar dias sem comer, mas não consegue passar muito tempo sem água. Por isso "Tenho sede", é muito mais sério. **Deus tem sede da humanidade.**
> A Comunhão não é apenas uma incorporação na vida de Cristo, mas também uma incorporação na Sua Morte, fim do capítulo (Ven. Fulton Sheen, *O Calvário e a Missa*, parte 5)
Dizemos isso na resposta ao Mysterium Fidei: *Anunciamos, Senhor, a Vossa morte* **e** *proclamamos a Vossa ressurreição*. **As duas realidades estão intimamente unidas,** não estamos com Jesus crucificado em um momento e com Jesus ressuscitado em outro. Jesus aparece a São Tomé ressuscitado, mas com as suas chagas, para lembrarmos de seu sacrifício.
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### As normas litúrgicas aliadas ao sentido da Santa Missa
> Ao ressaltar a importância da arte da celebração, consequentemente põe-se em evidência o valor das normas litúrgicas. Aquela deve favorecer o sentido do sagrado e a utilização das formas exteriores que educam para tal sentido, como, por exemplo, a harmonia do rito, das vestes litúrgicas, da decoração e do lugar sagrado. **A celebração eucarística é frutuosa quando os sacerdotes e os** ***responsáveis da pastoral litúrgica*** **se esforçam por dar a conhecer os livros litúrgicos em vigor e as respectivas normas, pondo em destaque as riquezas estupendas da Instrução Geral do Missal Romano e da Instrução das Leituras da Missa.** (Papa Bento XVI,[Sacramentum Caritatis](https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20070222_sacramentum-caritatis.html), 40, 22/02/2007)
A IGMR é o livro de cabeceira do músico católico! E **todas** as suas normas devem ser seguidas.
> A ação da celebração é o lugar em que, por meio do memorial, o mistério pascal se torna presente para que os batizados, por meio de sua participação, possam experimentá-lo em sua própria vida. Sem esta compreensão, a celebração facilmente cai numa preocupação com o exterior (mais ou menos refinada) ou numa preocupação apenas com rubricas (mais ou menos rígidas).([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 49)
Se não entendermos o sentido real da Santa Missa, corremos o risco de estar apenas seguindo regras. *A norma não tem um fim em si mesma, ela existe para alcançar um resultado superior.*
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### Princípios gerais da música litúrgica
> Nada, pois, deve suceder no templo que perturbe ou, sequer, diminua a piedade e a devoção das fiéis, nada que dê justificado motivo de desgosto ou de escândalo, nada, sobretudo, que diretamente ofenda o decoro e a santidade das sacras funções e seja por isso indigno da Casa de Oração e da majestade de Deus. (São Pio X, [Tra le Sollicitudini](https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini.html), 22/11/1903, introdução)
A música está mais próxima do culto divino do que as outras artes:
> Essas leis da arte religiosa vinculam com ligame ainda mais estreito e mais santo a música sacra, visto estar esta mais próxima do culto divino do que as outras belas-artes, como a arquitetura, a pintura e a escritura; estas procuram preparar uma digna sede para os ritos divinos, **ao passo que aquela ocupa lugar de primeira importância no próprio desenvolvimento das cerimônias e dos ritos sagrados.** Por isso, **deve a Igreja**, com toda diligência; **providenciar para remover da música sacra**, justamente por ser esta a serva da sagrada liturgia, **tudo o que destoa do culto divino ou impede os féis de elevarem sua mente a Deus.** (Pio XII, [Musicae Sacrae Disciplina](https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_25121955_musicae-sacrae.html), 25/12/1955, pt 13.)
Às vezes cuidamos das outras artes e deixamos a música de lado, mesmo ela sendo a arte mais importante. **A música é ritual**, a arquitetura, a escultura, as outras artes não são.
> O texto litúrgico tem de ser cantado como se encontra nos livros aprovados, sem posposição ou alteração das palavras, sem repetições indevidas, sem deslocar as silabas, sempre de modo inteligível. (São Pio X, [Tra le Sollicitudini](https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini.html), 22/11/1903, 9)
**O texto tem primazia, e a música deve brotar do texto.** Ela deve ser cantada de acordo como está escrito, a palavra que ali está escrita é sagrada e não se altera. ***Aquilo*** **que cantamos é mais importante do que** ***como*** **estamos cantando.**
> Os compositores possuídos do espírito cristão compreendam que são chamados a cultivar a música sacra e a aumentar-lhe o património.
>
> Que as suas composições se apresentem com as características da verdadeira música sacra, possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas se adaptem também aos pequenos e favoreçam uma activa participação de toda a assembleia dos fiéis.
>
> Os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas. ([Sacrosanctum Concilium](https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html), pt 121)
Muitas pessoas usam esse ponto acima para justificar as suas escolhas e composições, mas isto é esclarecido por um documento seguinte ao Sacrosantum Concilium:
> O costume legitimamente em uso em certos lugares e amplamente confirmado por indultos, de substituir outras canções pelas canções dadas no Graduale para a Entrada, Ofertório e Comunhão, pode ser mantido de acordo com o julgamento da autoridade territorial competente, desde que pois canções desse tipo estão de acordo com as partes da missa, com a festa ou com a estação litúrgica. **Cabe à mesma autoridade territorial aprovar os textos dessas músicas.** (São Paulo VI, _Musicam Sacram_ ([pt-pt](https://www.diocese-braga.pt/emlsf/noticia/19916/)) ([pt-br](https://cdn.dj.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Musicam-Sacram.pdf)), 05/03/1967, pt 32)
A música litúrgica deve estar intimamente unida ao mistério que é celebrado:
> De fato, através desta forma, a oração é expressa de uma maneira mais atraente, o mistério da liturgia, com sua natureza hierárquica e comunitária, é mostrado mais abertamente, a unidade dos corações é alcançada mais profundamente pela união de vozes, as mentes são mais facilmente elevado às coisas celestiais pela beleza dos ritos sagrados, e toda a celebração prefigura mais claramente a liturgia celestial que é encenada na cidade santa de Jerusalém.(São Paulo VI, _Musicam Sacram_ ([pt-pt](https://www.diocese-braga.pt/emlsf/noticia/19916/)) ([pt-br](https://cdn.dj.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Musicam-Sacram.pdf)), 05/03/1967, pt 5)
A música deve ser suave, deve levar à eternidade. E o papa Bento XVI complementa:
> Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; [...] Enquanto elemento litúrgico, o canto deve integrar-se na forma própria da celebração; (128) consequentemente, tudo — no texto, na melodia, na execução — deve corresponder ao sentido do mistério celebrado, às várias partes do rito e aos diferentes tempos litúrgicos. ([Sacramentum Caritatis](https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20070222_sacramentum-caritatis.html), Papa Bento XVI, 22/02/2007, pt 42)
São João Paulo II nos exortava à beleza da música, citando São Pio X:
> Outro princípio enunciado por São Pio X no Motu proprio Tra le sollecitudini, princípio este intimamente ligado ao precedente, é o da singeleza das formas. Não pode existir uma música destinada à celebração dos sagrados ritos que não seja, antes, **"verdadeira arte", capaz de ter a eficácia "que a Igreja deseja obter, acolhendo na sua liturgia a arte dos sons.**" (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 5)
Outro aspecto é a universalidade. **A música deve ser bela em qualquer país que seja celebrada**:
> É evidente, porém, que cada inovação nesta delicada matéria deve respeitar os critérios peculiares, como a investigação de expressões musicais, que correspondam à participação necessária de toda a assembleia na celebração e que evitem, ao mesmo tempo, qualquer concessão à leviandade e à superficialidade. **É necessário, portanto, evitar, em última análise, aquelas formas de "inculturação", em sentido elitário, que introduzem na Liturgia composições antigas ou contemporâneas que possuem talvez um valor artístico, mas que induzem a uma linguagem realmente incompreensível.** (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 6)
Imaginemos se alguém no Japão gostaria de um samba na missa. Ou se alguém na Itália gostaria de um Cordeiro de Deus ao som de Asa Branca.
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### Partes fixas da missa
- Ato Penitencial
- Glória
- Santo
- Cordeiro de Deus
***Estas partes não podem ter seus textos alterados, mesmo quando são cantadas.*** Só quem tem autoridade de mudar um texto das partes fixas da missa é a Santa Sé, o próprio papa, mesmo os bispos ou a conferência regional não podem.
### Partes móveis da missa
- Entrada (introito)
- Salmo Responsorial
- Aclamação ao Evangelho
- Ofertório
- Comunhão
Partes "móveis" significam que são o *próprio da missa*. Cada missa tem a sua. Estes textos estão nos livros (missal e graduais, e o hinário aprovado pela conferência regional).
## Aula 3: A verdadeira música da Missa
### O comportamento do padre
> Se é verdade que a *ars celebrandi* é exigida de toda assembléia que celebra, também é verdade que os ministros ordenados devem ter uma solicitude muito particular por ela. [...] Eis uma possível lista de abordagens que, embora opostas entre si, caracterizam um modo de presidir certamente inadequado: austeridade rígida ou uma criatividade exasperante, um misticismo espiritualizante ou um funcionalismo prático, uma vivacidade apressada ou uma lentidão exagerada, uma um descuido desleixado ou um capricho excessivo, uma amizade superabundante ou uma impassibilidade sacerdotal. ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 54)
**Não sejamos clericalistas.** Não esperemos o padre nos corrigir para nos corrigirmos! *É responsabilidade nossa saber fazer corretamente a nossa parte na liturgia.* Não adianta pensar que o padre sabe tudo e que tudo depende do padre. Se quisermos mudar o mundo, comecemos mudando a nossa realidade.
### A questão das missas transmitidas
> Muitas vezes isso fica mais evidente quando nossas celebrações são transmitidas pelo ar ou online, algo nem sempre oportuno e que precisa de mais reflexão. ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 54)
O alcance das tecnologias faz com que as pessoas enxerguem as missas transmitidas como exemplos, *e exemplos errados podem ser prejudiciais até mesmo para quem não é católico.* Quantas gafes viraram memes durante a pandemia?
> As transmissões por rádio e TV das funções sagradas, particularmente tratando-se da Santa Missa, façam-se com discrição e decoro. Sucessivos documentos da Igreja retomaram o assunto, e reafirmaram a necessidade de que estes meios não perturbem a oração e a participação dos fiéis e de que a celebração se realize com tal prudência e decoro que constitua um modelo de celebração do Sagrado Mistério segundo as leis da restauração litúrgica. (CNBB, Estudo 111, pt. 7)
A própria CNBB reconhece que missas que são transmitidas precisam seguir as normas litúrgicas e as orientações da Igreja. E não só a Santa Missa, qualquer celebração dos sacramentos também.
> A Santa Missa transmitida ganha inevitavelmente um caráter de exemplaridade, daí o dever de prestar atenção que a celebração respeite as normas litúrgicas. Tanta insistência por parte da Igreja manifesta a preocupação dela em tornar dignas e exemplares estas celebrações litúrgicas, veiculadas por meios cuja ressonância ultrapassa os limites de uma diocese. (CNBB, Estudo 111, pt. 7)
### A questão da "cultura do povo dentro da missa"
"E aquelas músicas do Hinário litúrgico da CNBB que têm melodias e ritmos que não condizem com a Santa Missa? E a cultura musical do povo, **onde fica?**"
> Compreende-se como o brasileiro gosta dos sinais exteriores da fé. **Ele quer ver as igrejas com as suas características religiosas, com as expressões autênticas da arte sacra,** que despertam a piedade, que levam à oração, ao recolhimento e à contemplação do mistério de Deus. [...] O povo brasileiro quer sentir nas músicas de vossas igrejas o apelo ao louvor de Deus, à ação de graças, à prece humilde e confiante, *e se sente desconfortável quando esses cantos em sua letra envolvem uma mensagem política ou puramente terrena, e em sua expressão musical* ***não apresentam a característica de música religiosa, mas são marcadamente profanas no ritmo, na linha melódica e nos instrumentos musicais de acompanhamento.*** (São João Paulo II, para os bispos do Nordeste do Brasil durante visita **em 1995**)
Já compreendemos que a Santa Missa é o sacrifício de Jesus. Portanto, devemos tomar todo o cuidado para que os ritmos, melodias e a forma de servir sejam condizentes com aquilo que estamos celebrando:
> O vosso povo se sente feliz com a beleza, com a dignidade do culto litúrgico sem pompa, sem ostentação, mas digno, piedoso, que esteja realmente unido à ação litúrgica. Em sintonia com quanto definiu o Concílio Vaticano II, **a música deve ser expressão delicada de oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas.** (São João Paulo II, para os bispos do Nordeste do Brasil durante visita em 1995)
De lá pra cá, desde 1995, muito pouco foi feito! Porém, nos últimos anos, temos visto que esta situação tem sido trabalhada por parte da CNBB. Reconheçamos a evolução por exemplo da Campanha da Fraternidade de 2022, cujas músicas litúrgicas saíram do molde antigo de serem temáticas da CF e seguem a estrutura correta da música litúrgica para os domingos da Quaresma. A única música temática é o hino, que a CNBB *afirma e recomenda que não é litúrgico.* Outro exemplo é a grande melhoria do novo Hinário Litúrgico do Tempo Comum. Ainda há o que melhorar, mas estamos caminhando.
> A arte de celebrar deve estar em harmonia com a ação do Espírito. Só assim estará livre dos subjetivismos que são fruto dos gostos individuais dominantes. Só assim estará livre da invasão de elementos culturais que são assumidos sem discernimento e que nada têm a ver com uma correta compreensão da inculturação. ([Desiderio Desideravi](https://ofm.org.br/integra-desiderio-desideravi/), 49)
Essa invasão de elementos culturais deliberadamente sem senso crítico pode ser chamada de **culturalismo, e não corresponde a um verdadeiro processo de inculturação.** Em linhas gerais, inculturação é *quando se pega um elemento da cultura de um povo que significa exatamente aquilo que a Igreja quer que signifique dentro do culto.* Não podemos sair pegando ritmos de danças que escutamos em momentos de lazer, *pois a Igreja não quer que as pessoas se sintam num momento de lazer.* Portanto, a inculturação não é um processo que nós fazemos, e sim que a Igreja faz. **Lembremos sempre que a música na missa deve levar à oração, não a sentimentos ou sensações.** Isso inclui a escolha e a execução dos instrumentos.
Um bom exemplo de inculturação é a própria tradução do rito, do latim para o vernáculo. Outro exemplo é, no Brasil, o uso do violão, um instrumento que não nasceu para a liturgia, mas quando bem executado leva à oração.
> No que diz respeito às composições musicais litúrgicas, faço minha a "regra geral" que são Pio X formulava com estes termos: "**Uma composição para a Igreja é tanto sacra e litúrgica quanto mais se aproximar**, no andamento, na inspiração e no sabor, da **melodia gregoriana**, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo". Não se trata, evidentemente, de copiar o canto gregoriano, mas muito mais de considerar que as novas composições sejam absorvidas pelo mesmo espírito que suscitou e, pouco a pouco, modelou aquele canto. Somente um artista profundamente mergulhado no *sensus Ecclesiae* pode procurar compreender e traduzir em melodia a verdade do Mistério que se celebra na Liturgia. (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 12)
A inculturação **não é justificativa** para cantar rock, forró ou baião dentro da Santa Missa.