# Semana da Música Litúrgica ## Dia 1 - Introdução: A Santa Missa > _"Creio na Santa Igreja Católica": a vontade da Igreja é a vontade de Deus, ela nos orienta à vontade de Deus._ > Quem toca ou canta na Missa está participando do acontecimento dela, e por isso pode _ajudar_ ou _atrapalhar_. Um músico que não compreende o que está acontecendo nem a importância do seu serviço e está lá só pra tocar não está ajudando. ### A humanidade foi preparada por Deus para a Santa Missa, desde a sua criação. - Os discípulos de Emaús: no Antigo Testamento estava escrito sobre o sofrimento de Jesus, desde sempre Deus preparou a humanidade para este momento, conforme Jesus mostra para os discípulos tristes. - O caminho da Ressureição passa pela Cruz. Na entrada de Jesus em Jerusalém, Ele fala "Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim". - Desde a Criação, Deus sonha com o retorno do homem à santidade. A morte de Jesus foi o ápice da Sua vida, e "era por sua morte que Ele queria ser lembrado" (Fulton Sheen, _"O Calvário e a Missa"_). A única coisa que Jesus pediu que fosse feito em sua memória foi a Santa Missa. - Mas não foi só o partir do pão: **"Isto é o meu corpo, que será entregue por vós", "o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos"**. A memória é da entrega que Jesus voluntariamente fez de Sua vida, a qual o homem não poderia tirar. Aquilo que Jesus fez na última ceia foi exatamente o que foi feito no sacrifício da Cruz: corpo e sangue separados e entregues. - IGMR 2: "O nosso Salvador, na última ceia, instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue para perpetuar o sacrifício da cruz através dos séculos até a sua volta, e para confiar à Igreja, sua esposa muito amada, o memorial de sua morte e ressurreição." _(Concílio Vaticano II)_ - "Deus, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas, quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, para evangelizar os pobres, curar os contritos de coração, como médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os homens. A Sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação. Por isso, em Cristo, se realizou plenamente a nossa reconciliação, e se nos deu a plenitude do culto divino". A antiga aliança era uma figura, uma preparação para o que seria o novo culto, e o culto antigo não era pleno. Em Jesus, com sua morte, podemos ser santos. "Esta obra **da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus**, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida. Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja". ([_Sacrosanctum Concilium_](https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html), pt 5) - A missa **não é celebrar a ressurreição de Cristo, e sim sua morte**. Segundo Fulton Sheen (_O Calvário e a Missa_), a hóstia grande que o padre eleva é o próprio Cristo na cruz, e as hóstias pequenas somos nós, "ladrões ao redor da Cruz", carregando as nossas próprias cruzes e participando do sacrifício da Cruz, tal qual o bom ladrão, compreendendo que Jesus era seu salvador, pediu pela sua própria salvação. Jesus pediu para que celebrássemos a sua morte, sacramentalmente, e a ressurreição é uma consequência dela. - Nas suas catequeses sobre a missa em 2017 (disponível [aqui](https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2017/documents/papa-francesco_20171108_udienza-generale.html) e compiladas em _A Santa Missa_, da Paulus), diz o Papa Francisco: "O Concílio Vaticano II foi fortemente animado pelo desejo de levar os cristãos a compreender a grandeza da fé e a beleza do encontro com Cristo. Por este motivo era necessário antes de mais realizar, com a ajuda do Espírito Santo, uma adequada renovação da Liturgia, porque a Igreja vive continuamente dela e renova-se graças a ela. Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação.". - A Santa Missa é intimamente ligada à eternidade. O próprio prefácio da Oração Eucarística diz **unindo-nos às vozes dos anjos e dos santos**. "Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo" ([_Sacrosanctum Concilium_](https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html), pt 8) - O livro do Apocalipse demonstra a realidade da Jerusalém Celeste, e podemos ver como a missa está descrita em seus versículos. "Num Domingo fui arrebatado em êxtase e ouvi por trás de mim uma voz forte como a de uma trombeta que dizia: 'O que vês, escreva num livro'" (Ap 1, 10-11a, **sinal do dia do Senhor**). "Voltei-me para saber que voz falava comigo. Tendo me voltado, vi sete candelabros de ouro e no meio dos candelabros alguém semelhante ao Filho do Homem, vestindo uma longa túnica até os pés, cingido o peito por um cinto de ouro" (Ap 10, 12-13, **sinal do Sumo Sacerdote, do presidente da celebração**). "Ao redor havia 24 tronos e neles sentados 24 anciãos, vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça" (Ap 4, 4, **sinal dos concelebrantes**)."Adiantou-se outro anjo, e se colocou junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está diante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus" (Ap 8, 3-4, **sinal do turíbulo**). "Ouviram uma forte voz do céu que dizia: “Subi aqui!”. Subiram então para o céu em uma nuvem, enquanto os seus inimigos os olhavam." (Ap 11, 12, **"corações ao alto"**). "Os 24 anciãos, que se assentam nos seus tronos diante de Deus, prostraram-se de rosto em terra e adoraram a Deus dizendo: 'Graças te damos, Deus Dominador, que és e que eras, porque assumiste a plenitude de teu poder real. Irritaram-se os pagãos, mais eis que sobreveio a tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar a recompensa aos teus servos, aos profetas, aos santos, aos que temem o teu nome, pequenos e grandes, e de exterminar os que corromperam a terra'" (Ap 11, 16-18, **sinal da ação de graças e da oração eucarística**). > Participar da Missa não é uma brincadeirinha, é uma coisa séria. E quem ajuda na celebração tem uma responsabilidade ainda maior. > Os anjos e santos são aqueles que cantam na eternidade, imagina a responsabilidade daqueles que executam a música litúrgica. > A missa acontece com ou sem a música. Porém, tendo música, ela tem que ser a _melhor possível_. A liturgia terrena é um caminho para a liturgia celeste, a música não pode ser uma pedra nesse caminho. --- ## Dia 2: A verdadeira música litúrgica > Se nós precisamos participar bem da Santa Missa, a música deve ser uma colaboradora, e não uma barreira, para esta participação. > Devemos ler os documentos da igreja com sentido de continuidade, e não de ruptura. Cristo prometeu que o Espírito Santo conduziria a Igreja, e assim acontece. > "A Santa Missa é o sacrifício de Cristo em forma de banquete escatológico" - Dom Henrique Soares - O serviço do músico age diretamente na compreensão do povo a respeito do mistério que acontece. A música que é tocada deve deixar claro o que está sendo celebrado, e não obscurecer o mistério. - **_A música é a arte mais importante da celebração, mais do que os artefatos, imagens e arquitetura da Igreja_** - A música está mais próxima do culto divino do que as outras artes: _"Essas leis da arte religiosa vinculam com ligame ainda mais estreito e mais santo a música sacra, visto estar esta mais próxima do culto divino do que as outras belas-artes, como a arquitetura, a pintura e a escritura;"_. (Pio XII, [Musicae Sacrae Disciplina](https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_25121955_musicae-sacrae.html), 25/12/1955, pt 13.) - A música ocupa lugar de primeira importância porque a música é o rito cantado. Quando ela não é o próprio rito, ela o acompanha. E sem a música, a parte que seria cantada é rezada. - O zelo com a música deve ser maior do que o zelo com qualquer outro aspecto artístico, e os músicos devem ser os primeiros a darem essa importância. ### Princípios gerais para a música litúrgica: - **O texto** - São Pio X diz o seguinte sobre o texto da música: "A música sacra, como parte integrante da Liturgia solene, participa do seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis. A música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias; e, assim como o seu ofício principal é **revestir de adequadas melodias o texto litúrgico proposto à consideração dos fiéis, assim o seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto**, a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios." (São Pio X, [Tra le Sollicitudini](https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini.html), 22/11/1903, pt 1). **O texto vem antes.** - 100 anos depois, São João Paulo II reafirma: "A especial atenção que é necessário reservar à música sacra recorda o Santo Pontífice, deriva do facto de que, 'como parte integrante da solene liturgia, dela faz parte a finalidade geral que é a glória de Deus e a santificação e a edificação dos fiéis". Interpretando e expressando o sentido profundo do sagrado texto ao qual está intimamente unida, ela é capaz de "acrescentar maior eficácia ao mesmo texto, para que os fiéis [...] se disponham melhor para acolher em si os frutos da graça, que são próprios da celebração dos sacrossantos mistérios'" (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 1) - Papa Francisco em outubro de 2021, em um decreto para a Sagrada Congregação para o Culto Divino: "A música adequada para a liturgia da missa é aquela que está nos livros litúrgicos ou aquelas que a conferência dos bispos aprovou o seu texto". **A Igreja diz se o texto é bom ou não**, a liturgia da missa vai muito além do que a nossa compreensão acredita ser correto ou não. - **Intimidade com o mistério** - "Por aqui, facilmente se pode compreender como **a dignidade e a importância da música sacra, seja tanto maior quanto mais de perto a sua ação se relaciona com o ato supremo do culto cristão, isto é, com o sacrifício eucarístico do altar.** Não pode ela, pois, realizar nada de mais alto e de mais sublime do que o oficio de acompanhar com a suavidade dos sons a voz do sacerdote que oferece a vítima divina, do que responder alegremente às suas perguntas juntamente com o povo que assiste ao sacrifício, e do que tornar mais esplêndido com a sua arte todo o desenvolvimento do rito sagrado. Da dignidade desse excelso serviço aproximam-se, pois, os ofícios que a mesma música sacra exerce quando acompanha e embeleza as outras cerimônias litúrgicas, e em primeiro lugar a recitação do breviário no coro. Por isso, essa musica "litúrgica" merece suma honra e louvor." (Pio XII, [Musicae Sacrae Disciplina](https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_25121955_musicae-sacrae.html), 25/12/1955, pt 15) A música precisa ser íntima ao mistério celebrado, senão o povo nunca vai entendê-lo. - "Mais profundamente se atinge a unidade do coração pela unidade da voz. A oração se exprime com maior suavidade e mais claramente se manifesta o mistério da liturgia. Mais facilmente se elevam as almas pelo esplendor das coisas santas até as realidades supraterrenas. Enfim, **toda a celebração mais claramente prefigura aquela celebração efetuada na celestial Jerusalém**." (São Paulo VI, _Musicam Sacram_ ([pt-pt](https://www.diocese-braga.pt/emlsf/noticia/19916/)) ([pt-br](https://cdn.dj.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Musicam-Sacram.pdf)), 05/03/1967, pt 5). Este documento foi emitido pouco tempo depois do Concílio Vaticano II, com uma série de outros, para esclarecer pontos do concílio ~~(e foi ignorado por muita gente no Brasil...)~~ - "Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; a propósito, é necessário evitar a improvisação genérica ou a introdução de géneros musicais que não respeitem o sentido da liturgia. Enquanto elemento litúrgico, o canto deve integrar-se na forma própria da celebração; consequentemente, **tudo** — no texto, na melodia, na execução — **deve corresponder ao sentido do mistério celebrado**, às várias partes do rito e aos diferentes tempos litúrgicos. Enfim, embora tendo em conta as distintas orientações e as diferentes e amplamente louváveis tradições, desejo — como foi pedido pelos padres sinodais — que se valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto próprio da liturgia romana." (Papa Bento XVI, [Sacramentum Caritatis](https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20070222_sacramentum-caritatis.html), pt 42) - **Santidade e beleza** - "Por isso a música sacra deve possuir, em grau eminente, as qualidades próprias da liturgia, e nomeadamente a _santidade_ e a _delicadeza das formas_, donde resulta espontaneamente outra característica, a _universalidade_." (São Pio X, [Tra le Sollicitudini](https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini.html), 22/11/1903, pt 2) - "Em conformidade com os ensinamentos de São Pio X e do Concílio Vaticano II, é preciso sublinhar acima de tudo que a música destinada aos sagrados ritos deve ter como ponto de referência a _santidade_.[...] Por este exacto motivo, **'não é indistintamente tudo aquilo que está fora do templo (profanum) que é apto a ultrapassar-lhe os umbrais',**[...] **'se não se possui ao mesmo tempo o sentido da oração, da dignidade e da beleza, a música instrumental e vocal impede por si o ingresso na esfera do sagrado e do religioso'**" (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 4). **Não é todo instrumento ou ritmo que pode entrar na liturgia**, a música precisa ter nascido santa, _não pode ser uma adaptação daquilo que não é santo_. - "As Sagradas Escrituras nos falam muito sobre a beleza do universo e tudo que ele contém, e nos leva, por analogia, à beleza do Criador. Elas também nos lembram que cada um de nós é chamado por natureza a ser **artesão e guardião dessa beleza**. De certa forma, o trabalho artístico complementa a beleza da criação e, quando inspirado pela fé, revela mais claramente às pessoas o amor divino que está na sua origem. **A beleza é capaz de criar comunhão**, porque une Deus, o homem e a criação numa única sinfonia; porque une o passado, o presente e o futuro; porque atrai diferentes povos e nações distantes ao mesmo lugar e os envolve no mesmo olhar"(Papa Francisco, [discurso aos membros da Diaconia da Beleza](https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-02/papa-francisco-artistas-diaconia-beleza-deus-artista-alegria.html), 17/02/2022, dia da live). **O Belo para Deus não muda**. - **Universalidade** - "Os cantos e as músicas exigidos pela reforma litúrgica [...] devem corresponder também às legítimas exigências de adaptação e de inculturação. É evidente, porém, que cada inovação nesta delicada matéria **deve respeitar os critérios peculiares, como a investigação de expressões musicais, que correspondam à participação necessária de toda a assembleia na celebração e que evitem, ao mesmo tempo, qualquer concessão à leviandade e à superficialidade.** É necessário, portanto, evitar, em última análise, aquelas formas de _'inculturação'_, em sentido elitário, que introduzem na Liturgia composições antigas ou contemporâneas que **possuem talvez um valor artístico, mas que induzem a uma linguagem realmente incompreensível**." (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 6). **Inculturação** é fazer com que o povo participe bem da liturgia, pegando algo da Igreja e inserir na cultura daquele povo para que a cultura se transforme, se santifique. **NÃO É PEGAR O QUE TEM LÁ FORA E COLOCAR DENTRO DO RITO.**, tal qual o próprio São João Paulo II denuncia. - "São Pio X indicava usando o termo universalidade um ulterior requisito da música destinada ao culto: '...mesmo concedendo a cada nação ele considerava de **admitir nas composições religiosas formas particulares** que constituem de certo modo o carácter específico da música que lhes é própria, elas não devem estar de tal modo **subordinadas ao carácter geral da música sacra, que ninguém de outra nação, ao ouvi-la, tenha uma impressão negativa'**." (São João Paulo II, [Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio «Tra le Sollicitudini»](https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2003/documents/hf_jp-ii_let_20031203_musica-sacra.html), 03/12/2003, pt 6) ### Prévia da próxima aula: Participação ativa - "Os fiéis cumprem a sua acção litúrgica mediante a participação plena, consciente e activa que a própria natureza da liturgia requer; esta participação **é um direito e um dever para o povo cristão**, em virtude do seu Baptismo. Esta participação: a) Deve ser **antes de tudo interior**; quer dizer que, por meio dela, os fiéis se unem em espírito ao que **_pronunciam ou escutam_** e cooperam com a graça divina. b) Mas a participação deve ser também exterior; quer dizer que a participação interior deve expressar-se por meio de gestos e atitudes corporais, pelas respostas e _pelo canto_. Eduquem-se também os fiéis no sentido de **se unirem interiormente ao que cantam os ministros ou o coro, de modo que elevem os seus espíritos para Deus, enquanto os escutam**." (São Paulo VI, _Musicam Sacram_ ([pt-pt](https://www.diocese-braga.pt/emlsf/noticia/19916/)) ([pt-br](https://cdn.dj.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Musicam-Sacram.pdf)), 05/03/1967, pt 15). **O silêncio também faz parte da participação do povo, não é necessário cantar tudo.** - "Observar-se-á também, na altura própria, um silêncio sagrado. Por meio deste silêncio, os fiéis não se vêem reduzidos a assistir à acção litúrgica como espectadores mudos e estranhos, mas são associados intimamente ao Mistério que se celebra, graças àquela disposição interior que nasce da Palavra de Deus escutada, dos cânticos e das orações que se pronunciam e da união espiritual com o celebrante nas partes por ele ditas." (ibidem, pt 17) **O silêncio favorece a oração.** --- ## Dia 3: Servindo à liturgia como pede a Igreja > Compreendemos a seriedade, a santidade e a sacralidade da Santa Missa. A Missa santifica o povo e glorifica a Deus. A música, sendo parte integrante do rito, precisa corresponder a esses critérios. > Compreendemos que a música está a serviço da liturgia, não estando acima dela. Ou seja, ela precisa obedecer normas para que corresponda aos critérios que a Igreja deseja, por exemplo, o texto vem antes da melodia ou do "tema". - "Regular a sagrada Liturgia compete **unicamente à autoridade da Igreja**, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia. Por isso, **ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.**" ([Sacrosanctum Concilium](https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html), pt 22) - "Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, exercendo o seu ofício, a fazer tudo e só o que é de sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas." (ibidem, pt 28) - O nosso trabalho como músicos é _cantar a liturgia na missa_. ### A arte de celebrar (_ars celebrandi_) - "Eis aqui os motivos pelos quais o Magistério nas últimas quatro décadas recordou várias vezes aos sacerdotes a importância do _ars celebrandi_, o qual — se bem não consiste apenas na perfeita execução dos ritos de acordo com os livros, mas também e sobretudo no espírito de fé e adoração com os que estes se celebram — **não se pode no entanto realizar se se afasta das normas fixadas para a celebração.**" (Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, [Observância das normas litúrgicas e "ars celebrandi"](https://www.vatican.va/news_services/liturgy/details/ns_lit_doc_20100729_osservanza_po.html), ano sacerdotal 2009-2010) - Com tristeza, diz São João Paulo II: "compreende-se a grande responsabilidade que têm sobretudo os sacerdotes na celebração eucarística, à qual presidem in persona Christi, assegurando um testemunho e um serviço de comunhão não só à comunidade que participa directamente na celebração, mas também à Igreja universal, sempre mencionada na Eucaristia. Temos a lamentar, infelizmente, que sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica pós-conciliar, por um ambíguo sentido de criatividade e adaptação, _não faltaram abusos_, que foram motivo de sofrimento para muitos. [...] **Por isso, sinto o dever de fazer um veemente apelo para que as normas litúrgicas sejam observadas, com grande fidelidade, na celebração eucarística.** Constituem uma expressão concreta da autêntica eclesialidade da Eucaristia; tal é o seu sentido mais profundo. **A liturgia nunca é propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade** onde são celebrados os santos mistérios. [...] **O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja.**" ([Ecclesia de Eucharistia](https://www.vatican.va/holy_father/special_features/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_20030417_ecclesia_eucharistia_po.html), 17/04/2003, pt 52) ### Regras para os cantos da missa - **Partes fixas** - Estas partes **não podem** ter seu texto alterado. - "Não é permitido substituir os cantos do Ordinário da Missa por outros cantos" (IGMR 366). Isto inclui **o sinal da cruz e a oração eucarística**, por exemplo, não só as músicas que são mais comumente cantadas (ato penitencial, glória). - Versões da CNBB para o Ordinário da Missa: "Qualquer adaptação que uma conferência faça do Ordinário da Missa **precisa ser aprovada pela Santa Sé para que se inclua no Missal**". Isto também é afirmado na IGMR 390. - No caso específico do Glória, o texto que foi feito antigamente serviu para facilitar aos compositores escrever melodias para o texto, **o que não é mais um problema atualmente**, visto a grande quantidade de melodias compostas para o texto do missal. - Ainda na IGMR 390: "O que a conferência episcopal pode adaptar: os gestos e as posições do corpo dos fiéis (alguns lugares o Evangelho se escuta sentado), gestos de veneração ao altar e ao Evangeliário, **os textos dos cantos de entrada, das oferendas e da comunhão**, a escolha das leituras das Sagradas Escrituras a serem usadas em circunstâncias particulares, a forma de dar a paz, o modo de receber a comunhão, o material para a confecção do altar e as sagradas alfaias". Novamente, as partes fixas não são listadas, como foi colocado no ponto anterior. - "Os versículos do aleluia são tomados do Lecionário." (IGMR 62) - No Apocalipse, é mostrado que o Aleluia é cantado na Jerusalém Celeste, é um canto do céu que repetimos aqui na terra. - **Partes que variam** - Entrada ofertório e comunhão: são cantos processionais que acompanham o rito, e portanto acabam junto com a procissão. - IGMR 48, 74, 87 são alinhados com relação a isso. O único que se permite a extensão é o do ofertório, porque o canto foi feito para a entrada dos dons e pode se estender até o final do rito (a purificação das mãos por parte do presidente da celebração). - **Texto**: antífona com o salmo do Gradual Romano, do Simples ou outro canto condizente com a ação sagrada, com o dia ou com o tempo, que tenha sido aprovado pela conferência episcopal (IGMR). O povo não é obrigado a acompanhar o canto, o que importa é ouvir e entender o texto. - Mesmo os cantos do Hinário Litúrgico são baseados nesses salmos. - Se a missa é viver novamente aquilo que Jesus viveu, as músicas devem ser íntimas aos seus sentimentos e sua vida, e nada melhor do que os salmos para isso. Seria loucura afirmar que uma composição autoral seja melhor do que a palavra de Deus. - O livro _Documentos sobre a Música Litúrgica_, da Paulus, tem traduções inclusive de documentos que não há em português no arquivo do Vaticano, como a _Musicam Sacram_.