# **I - OS REIS NÚMENÓREANOS** --- # (i) NÚMENOR Fëanor foi o maior dos Eldar em artes e saber, mas também o mais altivo e voluntarioso. Lavrou as Três Joias, as Silmarilli, e preencheu-as com a radiância das Duas Árvores, Telperion e Laurelin,[<sup>2</sup>]que davam luz à terra dos Valar. As Joias foram cobiçadas por Morgoth, o Inimigo, que as roubou e, depois de destruir as Árvores, as levou à Terra-média e as guardou em sua grande fortaleza de Thangorodrim.[<sup>3</sup>] Contra a vontade dos Valar, Fëanor renunciou ao Reino Abençoado e exilou-se na Terra-média, levando consigo grande parte do seu povo; pois em seu orgulho tinha o propósito de recuperar as Joias de Morgoth à força. Depois disso seguiu-se a desesperançada guerra dos Eldar e Edain contra Thangorodrim, em que por fim foram completamente derrotados. Os Edain (Atani) eram três povos de Homens que, chegando primeiro ao Oeste da Terra-média e às praias do Grande Mar, se tornaram aliados dos Eldar contra o Inimigo. Houve três uniões entre Eldar e Edain: Lúthien e Beren; Idril e Tuor; Arwen e Aragorn. Por esta última, os ramos há muito separados dos Meio-Elfos foram reunidos e restaurou-se sua linhagem. Lúthien Tinúviel era filha do Rei Thingol Capa-gris de Doriath na Primeira Era, mas sua mãe era Melian, do povo dos Valar. Beren era filho de Barahir da Primeira Casa dos Edain. Juntos, eles arrancaram uma silmaril da Coroa de Ferro de Morgoth.[<sup>4</sup>] Lúthien tornou-se mortal e se perdeu para a Gente-élfica. Dior foi seu filho. Elwing foi filha dele e tinha a silmaril em sua posse. Idril Celebrindal era filha de Turgon, rei da cidade oculta de Gondolin.[<sup>5</sup>] Tuor era filho de Huor da Casa de Hador, a Terceira Casa dos Edain e a mais renomada nas guerras contra Morgoth. Eärendil, o Marinheiro, era filho deles. Eärendil casou-se com Elwing e, com o poder da silmaril, passou pelas Sombras[<sup>6</sup>] e chegou ao Extremo Oeste; falando como embaixador tanto dos Elfos como dos Homens, obteve o auxílio pelo qual Morgoth foi derrotado. Não foi permitido a Eärendil retornar às terras mortais, e seu navio, portando a silmaril, foi posto a navegar no firmamento como estrela e sinal de esperança para os habitantes da Terra-média oprimidos pelo Grande Inimigo ou por seus serviçais.[<sup>7</sup>] Somente as silmarils conservavam a antiga luz das Duas Árvores de Valinor antes que Morgoth as envenenasse; mas as duas outras se perderam ao final da Primeira Era. Destas coisas o relato completo, e muito mais a respeito dos Elfos e dos Homens, é contado em O Silmarillion. Os filhos de Eärendil eram Elros e Elrond, os Peredhil ou Meio-Elfos. Somente neles foi preservada a linhagem dos heroicos chefes dos Edain na Primeira Era; e após a queda de Gil-galad,[<sup>8</sup>] a linhagem dos Reis alto-élficos era representada, também na Terra-média, somente pelos descendentes deles. No fim da Primeira Era os Valar deram aos Meio-Elfos uma escolha irrevogável sobre a gente à qual iriam pertencer. Elrond escolheu ser da gente dos Elfos e tornou-se mestre da sabedoria. A ele, portanto, foi concedida a mesma graça que àqueles Altos Elfos que ainda permaneciam na Terra-média: que, quando estivessem finalmente fatigados das terras mortais, poderiam tomar uma nau nos Portos Cinzentos e passar ao Extremo Oeste; e esta graça continuou após a mudança do mundo. Mas aos filhos de Elrond também foi designada uma escolha: passarem com ele para além dos círculos do mundo; ou, se permanecessem, tornarem-se mortais e morrerem na Terra-média. Para Elrond, portanto, todas as sortes da Guerra do Anel estavam repletas de pesar.[<sup>9</sup>] Elros escolheu ser da gente dos Homens e permanecer com os Edain; mas foi-lhe concedida uma grande duração de vida, muitas vezes a dos homens menores. Como recompensa por seus sofrimentos na causa contra Morgoth, os Valar, os Guardiões do Mundo, concederam aos Edain uma terra que pudessem habitar, removida dos perigos da Terra-média. Portanto, a maior parte deles zarpou por sobre o Mar e, guiados pela Estrela de Eärendil, chegaram à grande Ilha de Elenna, a mais ocidental de todas as terras Mortais. Ali fundaram o reino de Númenor. Havia uma alta montanha no meio da terra, o Meneltarma, e do seu cume, aqueles cuja visão alcançasse ao longe podiam avistar a torre branca do Porto dos Eldar em Eressëa. Dali os Eldar vinham ter com os Edain e os enriqueciam com sabedoria e muitas dádivas; mas um comando havia sido imposto aos Númenóreanos, a “Interdição dos Valar”: estavam proibidos de navegarem rumo ao oeste, fora de vista de suas próprias costas, ou de tentarem pôr os pés nas Terras Imortais. Pois, apesar de ter sido concedida a eles uma longa duração de vida, no começo o triplo da dos Homens menores, eles tinham de permanecer mortais, visto que aos Valar não era permitido tirar deles a Dádiva dos Homens (ou Sina dos Homens, como foi chamada depois). Elros foi o primeiro Rei de Númenor e mais tarde ficou conhecido pelo nome alto-élfico de Tar-Minyatur. Seus descendentes foram longevos, mas mortais. Mais tarde, quando se tornaram poderosos, sentiram rancor da escolha de seu antepassado, desejando a imortalidade dentro da vida do mundo que era destino dos Eldar e murmurando contra a Interdição. Deste modo começou sua rebelião que, sob os ensinamentos malignos de Sauron, provocou a Queda de Númenor e a ruína do mundo antigo, como está contado no “Akallabêth”. Estes são os nomes dos Reis e Rainhas de Númenor: Elros Tar-Minyatur, Vardamir, Tar-Amandil, Tar-Elendil, Tar-Meneldur, Tar-Aldarion, Tar-Ancalimë (a primeira Rainha Governante), Tar-Anárion, Tar-Súrion, Tar-Telperiën (a segunda Rainha), Tar--Minastir, Tar-Ciryatan, Tar-Atanamir – o Grande, Tar-Anca-limon, Tar-Telemmaitë, Tar-Vanimeldë (a terceira Rainha), Tar-Alcarin, Tar-Calmacil, Tar-Ardamin. Depois de Ardamin, os Reis assumiram o cetro em nomes na língua númenóreana (ou adûnaico): Ar-Adûnakhôr, Ar-Zimrathôn, Ar-Sakalthôr, Ar-Gimilzôr, Ar-Inziladûn. Inziladûn arrependeu-se dos costumes dos Reis e mudou seu nome para Tar-Palantir, “O de Visão Longínqua”. Sua filha deveria ter sido a quarta Rainha, Tar-Míriel, mas o sobrinho do Rei usurpou o cetro e se tornou Ar-Pharazôn, o Dourado, último Rei dos Númenóreanos. Nos dias de Tar-Elendil, as primeiras naus dos Númenóreanos retornaram à Terra-média. Seu primeiro descendente foi uma filha, Silmariën. O filho dela foi Valandil, primeiro dos Senhores de Andúnië no oeste da terra, renomados por sua amizade com os Eldar. Dele descenderam Amandil, o último senhor, e seu filho Elendil, o Alto. O sexto Rei deixou apenas uma descendente, uma filha. Ela se tornou a primeira Rainha; pois foi feita então uma lei da casa real de que o descendente mais velho do Rei, fosse homem ou mulher, receberia o cetro. O reino de Númenor perdurou até o fim da Segunda Era e cresceu sempre em poderio e esplendor; e até se passar metade da Era, os Númenóreanos também cresceram em sabedoria e júbilo. O primeiro sinal da sombra que se abateria sobre eles apareceu nos dias de Tar-Minastir, o décimo primeiro Rei. Foi ele quem enviou uma grande tropa em auxílio de Gil-galad. Amava os Eldar, mas invejava-os. Os Númenóreanos, àquela altura, haviam se tornado grandes navegantes, explorando todos os mares rumo ao leste, e começavam a ansiar pelo Oeste e pelas águas proibidas; e quanto mais jubilosa era sua vida, tanto mais começavam a desejar a imortalidade dos Eldar. Ademais, depois de Minastir, os Reis tornaram-se cobiçosos de riqueza e poder. Inicialmente os Númenóreanos haviam chegado à Terra-média como instrutores e amigos de Homens menores afligidos por Sauron; mas agora seus portos se transformaram em fortalezas, mantendo em sujeição amplas terras costeiras. Atanamir e seus sucessores cobravam pesados tributos, e as naus dos Númenóreanos voltavam carregadas de pilhagem. Foi Tar-Atanamir quem primeiro falou abertamente contra a Interdição e declarou que a vida dos Eldar era dele por direito. Assim a sombra se intensificou e a ideia da morte obscureceu os corações do povo. Então os Númenóreanos se dividiram: de um lado estavam os Reis e aqueles que os seguiam, e estavam apartados dos Eldar e dos Valar; do outro estavam os poucos que se denominavam Fiéis. Estes viviam mormente no oeste da terra. Pouco a pouco os Reis e seus seguidores abandonaram o uso das línguas eldarin; e por fim o vigésimo Rei assumiu seu nome régio em forma númenóreana, denominando-se Ar-Adûnakhôr, “Senhor do Oeste”. Isso pareceu aos Fiéis ser de mau agouro, pois até então haviam dado aquele título apenas a algum dos Valar, ou ao próprio Rei Antigo.[<sup>10</sup>] E de fato, Ar-Adûnakhôr começou a perseguir os Fiéis e a punir os que usavam abertamente as línguas dos Elfos; e os Eldar não vieram mais a Númenor. Não obstante, o poder e a riqueza dos Númenóreanos continuava a aumentar; mas seus anos minguavam à medida que crescia seu medo da morte, e seu júbilo partiu. Tar-Palantir tentou emendar o mal; mas era tarde demais, e houve rebelião e contenda em Númenor. Quando ele morreu, seu sobrinho, líder da rebelião, assumiu o cetro e se tornou o Rei Ar-Pharazôn. Ar-Pharazôn, o Dourado, foi o mais altivo e mais poderoso de todos os Reis e seu desejo era nada menos que a realeza do mundo. Resolveu desafiar Sauron, o Grande, pela supremacia na Terra-média, e por fim ele próprio zarpou com grande esquadra e atracou em Umbar. Eram tão grandes o poderio e o esplendor dos Númenóreanos que os próprios serviçais de Sauron o desertaram; e Sauron humilhou-se, fazendo homenagem e implorando perdão. Então Ar-Pharazôn, na loucura de seu orgulho, levou-o de volta aprisionado para Númenor. Não demorou muito tempo para Sauron enfeitiçar o Rei e dominar seu conselho; e logo havia revertido os corações de todos os Númenóreanos, exceto pelos Fiéis restantes, de volta à escuridão. E Sauron mentiu ao Rei, declarando que a vida eterna seria daquele que possuísse as Terras Imortais e que a Interdição fora imposta somente para evitar que os Reis dos Homens ultrapassassem os Valar. “Mas grandes Reis tomam o que é seu direito”, disse ele. Por fim Ar-Pharazôn escutou este conselho, pois sentia que minguavam seus dias e estava assombrado pelo medo da Morte. Então preparou o maior armamento que o mundo já vira e, quando estava tudo pronto, soou suas trombetas e zarpou; e rompeu a Interdição dos Valar, chegando com guerra para arrancar a vida eterna dos Senhores do Oeste. Mas, quando Ar-Pharazôn pôs os pés nas praias de Aman, a Abençoada, os Valar depuseram sua condição de Guardiões e invocaram o Uno, e o mundo foi mudado. Númenor foi derrubada e tragada no Mar, e as Terras Imortais foram removidas para sempre dos círculos do mundo. Assim terminou a glória de Númenor. Os últimos líderes dos Fiéis, Elendil e seus filhos, escaparam da Queda com nove naus, levando um rebento de Nimloth e as Sete Pedras-Videntes (dádivas dos Eldar à sua Casa);[<sup>11</sup>] e foram carregados no vento de grande tempestade e lançados nas praias da Terra-média. Ali estabeleceram, no Noroeste, os reinos númenóreanos no exílio, Arnor e Gondor.[<sup>12</sup>] Elendil foi o Alto Rei e habitava no Norte em Annúminas; e o governo no Sul foi entregue a seus filhos, Isildur e Anárion. Ali fundaram Osgiliath, entre Minas Ithil e Minas Anor,[<sup>13</sup>] não longe dos confins de Mordor. Pois criam que ao menos proviera da ruína este bem: que Sauron também perecera. Mas não era assim. Sauron foi deveras apanhado na destruição de Númenor, de modo que a forma corpórea em que por longo tempo caminhara pereceu; mas fugiu de volta à Terra-média, um espírito de ódio carregado por um vento escuro. Nunca mais foi capaz de assumir uma forma que parecesse bela aos homens, mas tornou-se sombrio e hediondo, e daí em diante seu poder foi somente pelo terror. Entrou outra vez em Mordor e ali, durante certo tempo, ocultou-se em silêncio. Mas foi grande sua ira quando soube que Elendil, a quem mais odiava, lhe escapara e agora organizava um reino em suas fronteiras. Portanto, algum tempo depois moveu guerra contra os Exilados, antes que se enraizassem. Orodruin mais uma vez irrompeu em chamas e foi renomeada em Gondor como Amon Amarth, Monte da Perdição. Mas Sauron desferiu seu golpe cedo demais, antes que seu próprio poderio estivesse reconstruído, enquanto que o poderio de Gil-galad crescera em sua ausência; e na Última Aliança que se formou contra ele, Sauron foi derrotado e o Um Anel lhe foi tirado.[<sup>14</sup>] Assim terminou a Segunda Era. # (ii) OS REINOS NO EXÍLIO ## *A Linhagem do Norte - Herdeiros de Isildur* Arnor. Elendil †S.E. 3441, Isildur †2, Valandil 249,[<sup>15</sup>] Eldacar 339, Arantar 435, Tarcil 515, Tarondor 602, Valandur †652, Elendur 777, Eärendur 861. Arthedain. Amlaith de Fornost[<sup>16</sup>] (filho mais velho de Eärendur) 946, Beleg 1029, Mallor 1110, Celepharn 1191, Celebrindor 1272, Malvegil 1349,[<sup>17</sup>] Argeleb I †1356, Arveleg I 1409, Araphor 1589, Argeleb II 1670, Arvegil 1743, Arveleg II 1813, Araval 1891, Araphant 1964, Arvedui Último-rei †1975. Fim do Reino-do-Norte. Chefes. Aranarth (filho mais velho de Arvedui) 2106, Arahael 2177, Aranuir 2247, Aravir 2319, Aragorn I †2327, Araglas 2455, Arahad I 2523, Aragost 2588, Aravorn 2654, Arahad II 2719, Arassuil 2784, Arathorn I †2848, Argonui 2912, Arador †2930, Arathorn II †2933, Aragorn II Q.E. 120. ## *A Linhagem do Sul - Herdeiros de Anárion* Reis de Gondor. Elendil, (Isildur e) Anárion †S.E. 3440, Meneldil, filho de Anárion, 158, Cemendur 238, Eärendil 324, Anardil 411, Ostoher 492, Rómendacil I (Tarostar) †541, Turambar 667, Atanatar I 748, Siriondil 830. Seguiram-se aqui os quatro “Reis-Navegantes”: Tarannon Falastur 913. Foi o primeiro rei sem filhos e foi sucedido pelo filho de seu irmão Tarciryan. Eärnil I †936, Ciryandil †1015, Hyarmendacil I (Ciryaher) 1149. Agora Gondor alcançava o píncaro de seu poderio. Atanatar II Alcarin, “o Glorioso”, 1226, Narmacil I 1294. Foi o segundo rei sem filhos e foi sucedido por seu irmão mais novo. Calmacil 1304, Minalcar (regente 1240–1304), coroado como Rómendacil II 1304, morreu em 1366, Valacar 1432. Em seu tempo começou o primeiro desastre de Gondor, a Contenda-das-Famílias. Eldacar, filho de Valacar (inicialmente chamado Vinitharya), deposto em 1437. Castamir, o Usurpador, †1447. Após restaurar seu posto, Eldacar morreu em 1490. Aldamir (segundo filho de Eldacar) †1540, Hyarmendacil II (Vinyarion) 1621, Minardil †1634, Telemnar †1636. Telemnar e todos os seus filhos pereceram na peste; ele foi sucedido por seu sobrinho, o filho de Minastan, segundo filho de Minardil. Tarondor 1798, Telumehtar Umbardacil 1850, Narmacil II †1856, Calimehtar 1936, Ondoher †1944. Ondoher e seus dois filhos foram mortos em batalha. Um ano depois, em 1945, a coroa foi dada ao general vitorioso Eärnil, descendente de Telumehtar Umbardacil. Eärnil II 2043, Eärnur †2050. Aqui a linhagem dos Reis chegou ao fim, até ser restaurada por Elessar Telcontar em 3019. O reino foi então governado pelos Regentes. ## Regentes de Gondor. A Casa de Húrin: Pelendur 1998. Governou por um ano após a queda de Ondoher e aconselhou Gondor a rejeitar a reivindicação da coroa por Arvedui. Vorondil, o Caçador, 2029.[<sup>18</sup>] Mardil Voronwë, “o Resoluto”, primeiro dos Regentes Governantes. Seus sucessores deixaram de usar nomes alto-élficos. Regentes Governantes. Mardil 2080, Eradan 2116, Herion 2148, Belegorn 2204, Húrin I 2244, Túrin I 2278, Hador 2395, Barahir 2412, Dior 2435, Denethor I 2477, Boromir 2489, Cirion 2567. Em sua época os Rohirrim chegaram a Calenardhon. Hallas 2605, Húrin II 2628, Belecthor I 2655, Orodreth 2685, Ecthelion I 2698, Egalmoth 2743, Beren 2763, Beregond 2811, Belecthor II 2872, Thorondir 2882, Túrin II 2914, Turgon 2953, Ecthelion II 2984, Denethor II. Foi o último dos Regentes Governantes e foi sucedido por seu segundo filho, Faramir, Senhor de Emyn Arnen, Regente do Rei Elessar, Q.E. 82. # (iii) ERIADOR, ARNOR E OS HERDEIROS DE ISILDUR “Eriador foi outrora o nome de todas as terras entre as Montanhas Nevoentas e as Azuis; no Sul era limitada pelo Griságua e pelo Glanduin, que conflui com ele acima de Tharbad. “Em sua maior extensão, Arnor incluía toda Eriador, exceto pelas regiões além do Lûn e as terras a leste do Griságua e do Ruidoságua, onde ficavam Valfenda e Azevim. Além do Lûn estava a terra élfica, verde e tranquila, aonde não ia Homem nenhum; mas os Anãos habitavam, e ainda habitam, do lado leste das Montanhas Azuis, em especial nas partes ao sul do Golfo de Lûn, onde têm minas que ainda estão em uso. Por esse motivo costumavam passar rumo ao leste ao longo da Grande Estrada, como haviam feito durante longos anos antes que nós chegássemos ao Condado. Nos Portos Cinzentos morava Círdan, o Armador, e alguns dizem que ainda mora ali, até que a Última Nau zarpe para o Oeste. Nos dias dos Reis, a maioria dos Altos Elfos que ainda se demoravam na Terra-média moravam com Círdan ou nas terras de Lindon junto ao mar. Se ainda restam alguns, são poucos.” ## *O Reino-do-Norte e os Dúnedain* Depois de Elendil e Isildur houve oito Altos Reis de Arnor. Após Eärendur, devido a disputas entre seus filhos, o reino foi dividido em três: Arthedain, Rhudaur e Cardolan. Arthedain ficava no Noroeste e incluía as terras entre o Brandevin e o Lûn e também as ao norte da Grande Estrada até as Colinas do Vento. Rhudaur ficava no Nordeste e se estendia entre a Charneca Etten, as Colinas do Vento e as Montanhas Nevoentas, mas também incluía o Ângulo entre o Fontegris e o Ruidoságua. Cardolan ficava no Sul, e suas fronteiras eram o Brandevin, o Griságua e a Grande Estrada. Em Arthedain a linhagem de Isildur foi mantida e perdurou, mas a linhagem logo pereceu em Cardolan e Rhudaur. Houve frequentes contendas entre os reinos, o que apressou a redução dos Dúnedain. O principal tema de debate era a posse das Colinas do Vento e das terras a oeste rumo a Bri. Tanto Rhudaur quanto Cardolan desejavam possuir Amon Sûl (Topo-do-Vento), que ficava nas divisas de seus reinos; pois a Torre de Amon Sûl continha a principal Palantír do Norte e as outras duas estavam ambas em posse de Arthedain. “Foi no começo do reino de Malvegil de Arthedain que o mal chegou a Arnor. Pois nessa época o reino de Angmar surgiu no Norte além da Charneca Etten. Suas terras ficavam de ambos os lados das Montanhas, e ali foram reunidos muitos homens malignos, orques e outras criaturas cruéis. \[O senhor daquela terra era conhecido como Rei-bruxo, porém só mais tarde ficou-se sabendo que ele era de fato o chefe dos Espectros-do-Anel, que foram ao norte com o fim de destruir os Dúnedain em Arnor, vendo esperança na desunião destes, enquanto Gondor era forte.\]” Nos dias de Argeleb, filho de Malvegil, visto que não restavam descendentes de Isildur nos demais reinos, os reis de Arthedain mais uma vez reivindicaram o domínio de toda Arnor. A reivindicação foi contestada por Rhudaur. Ali os Dúnedain eram poucos, e o poder fora assumido por um senhor maligno dos Homens-das-Colinas que mantinha aliança secreta com Angmar. Portanto Argeleb fortificou as Colinas do Vento;[<sup>19</sup>] mas foi morto em combate com Rhudaur e Angmar. Arveleg, filho de Argeleb, com a ajuda de Cardolan e Lindon, expulsou seus inimigos das Colinas; e por muitos anos Arthedain e Cardolan mantiveram guarnecida uma fronteira ao longo das Colinas do Vento, da Grande Estrada e do Fontegris inferior. Dizem que nessa época Valfenda foi sitiada. Uma grande hoste veio de Angmar em 1409 e, atravessando o rio, entrou em Cardolan e cercou o Topo-do-Vento. Os Dúnedain foram derrotados e Arveleg foi morto. A Torre de Amon Sûl foi queimada e arrasada; mas a palantír foi salva e levada de volta ao refúgio em Fornost. Rhudaur foi ocupada por Homens malignos sujeitos a Angmar,[<sup>20</sup>] e os Dúnedain que restavam ali foram mortos ou fugiram para o oeste. Cardolan foi devastada. Araphor, filho de Arveleg, ainda não era adulto, mas foi valoroso e, com o auxílio de Círdan, repeliu o inimigo de Fornost e das Colinas do Norte. Um remanescente dos fiéis entre os Dúnedain de Cardolan também resistiu em Tyrn Gorthad (as Colinas-dos-túmulos) ou se refugiou na Floresta mais atrás. Dizem que Angmar foi durante algum tempo reprimido pela Gente-élfica vinda de Lindon; e de Valfenda, pois Elrond trouxe auxílio por cima das Montanhas, vindo de Lórien. Foi nessa época que os Grados que haviam morado no Ângulo (entre o Fontegris e o Ruidoságua) fugiram rumo ao oeste e ao sul por causa das guerras, do temor de Angmar e porque a terra e o clima de Eriador, especialmente no leste, se deterioraram e tornaram-se hostis. Alguns retornaram às Terras-selváticas e habitaram junto do Lis, transformando-se em um povo de pescadores ribeirinhos. Nos dias de Argeleb II a peste chegou a Eriador, vinda do Sudeste, e a maioria da gente de Cardolan pereceu, especialmente em Minhiriath. Os Hobbits e todos os demais povos sofreram muito, mas a peste diminuiu à medida que passava para o norte, e as partes setentrionais de Arthedain foram pouco afetadas. Foi nessa época que chegaram ao fim os Dúnedain de Cardolan, e espíritos maus de Angmar e Rhudaur entraram nos morros desertos e habitaram ali. “Dizem que os morros de Tyrn Gorthad, como as Colinas-dos--túmulos eram chamadas outrora, são muito antigos e que muitos foram erguidos nos dias do antigo mundo da Primeira Era pelos antepassados dos Edain, antes que atravessassem as Montanhas Azuis rumo a Beleriand, de que Lindon é tudo o que resta agora. Portanto, esses morros foram reverenciados pelos Dúnedain após seu retorno; e ali foram sepultados muitos de seus senhores e reis. \[Alguns dizem que o morro onde o Portador-do-Anel foi aprisionado fora a tumba do último príncipe de Cardolan, que tombou na guerra de 1409.\]” “Em 1974 o poder de Angmar ergueu-se de novo e o Rei-bruxo desceu sobre Arthedain antes que terminasse o inverno. Capturou Fornost e expulsou a maior parte dos Dúnedain restantes para além do Lûn; entre eles estavam os filhos do rei. Mas o Rei Arvedui resistiu nas Colinas do Norte até o fim e então fugiu para o norte com parte de sua guarda; e escaparam graças à presteza de seus cavalos. “Por algum tempo Arvedui se escondeu nos túneis das antigas minas dos Anãos perto da ponta extrema das Montanhas, mas por fim foi expulso pela fome, buscando a ajuda dos Lossoth, os Homens-das-Neves de Forochel.[<sup>21</sup>] Alguns destes ele encontrou acampados à beira do mar; mas não ajudaram o rei de bom grado, pois ele nada tinha a lhes oferecer senão algumas joias às quais não davam valor; e temiam o Rei-bruxo, que (diziam eles) podia fazer geada ou derretimento à sua vontade. Mas, em parte por pena do rei magro e de seus homens, e em parte por temor das suas armas, deram-lhes um pouco de alimento e lhes construíram cabanas de neve. Ali Arvedui foi obrigado a esperar, ansiando por ajuda do sul, pois seus cavalos haviam perecido. “Quando Círdan ouviu falar por Aranarth, filho de Arvedui, da fuga do rei rumo ao norte, enviou de pronto uma nau a Forochel para procurá-lo. A nau ali chegou, por fim, ao cabo de muitos dias, por causa dos ventos contrários, e os marujos viam de longe a pequena fogueira de madeira salva do mar que os homens perdidos conseguiam manter acesa. Mas naquele ano o inverno demorou a aliviar seu aperto; e, apesar de já ser março, o gelo mal começava a se romper e se estendia para longe além da costa. “Quando os Homens-das-Neves viram a nau, ficaram admirados e temerosos, pois em suas lembranças jamais haviam visto tal nau no mar; mas já haviam se tornado mais amistosos, e puxaram o rei e aqueles da sua companhia que tinham sobrevivido por cima do gelo, em carroças deslizantes, até o ponto que ousavam. Desse modo um barco da nau foi capaz de alcançá-los. “Mas os Homens-das-Neves estavam inseguros: pois diziam que farejavam perigo no vento. E o chefe dos Lossoth disse a Arvedui: ‘Não montes nesse monstro marinho! Se as tiverem, que os homens do mar nos tragam comida e outras coisas de que necessitamos, e podes ficar aqui até que o Rei-bruxo vá para casa. Pois no verão seu poder míngua; mas agora seu hálito é mortal e é longo seu braço frio.’ “Mas Arvedui não seguiu seu conselho. Agradeceu-lhe e na partida lhe deu o seu anel, dizendo: ‘Este é um objeto de valor além do que podes avaliar. Apenas por sua antiguidade. Não tem poder, salvo a estima que têm por ele aqueles que amam minha casa. Ele não te ajudará, mas se algum dia estiveres em dificuldades, minha gente o resgatará com grande provisão de tudo o que desejares.’[<sup>22</sup>] “Porém era bom o conselho dos Lossoth, por acaso ou por previsão; pois a nau ainda não alcançara o mar aberto quando se ergueu grande tempestade de vento, e veio com neve cegante desde o Norte, e impeliu a nau de volta sobre o gelo, e lhe amontoou gelo em cima. Até os marujos de Círdan ficaram desamparados, e durante a noite o gelo esmagou o casco, e o navio afundou. Assim pereceu Arvedui Último-rei, e com ele as palantíri foram sepultadas no mar.[<sup>23</sup>] Foi muito depois que se soube, através dos Homens-das-Neves, do naufrágio de Forochel.” O povo do Condado sobreviveu, apesar de a guerra se abater sobre eles e a maioria fugir e se esconder. Em auxílio do rei, enviaram alguns arqueiros que jamais retornaram; e também outros foram à batalha em que Angmar foi derrotado (do que se conta mais nos anais do Sul). Depois, na paz que se seguiu, o povo do Condado se governou a si mesmo e prosperou. Escolheram um Thain para tomar o lugar do Rei e se contentaram; porém, por longo tempo muitos ainda esperavam o retorno do Rei. Mas, por fim, essa esperança foi esquecida e permanecia apenas no dito “Quando o Rei voltar”, usado a respeito de algum bem que não podia ser alcançado ou de algum mal que não podia ser reparado. O primeiro Thain do Condado foi um certo Bucca do Pântano, de quem os Velhobuques diziam descender. Tornou-se Thain em 379 de nosso registro (1979). Depois de Arvedui terminou o Reino-do-Norte, pois os Dúnedain já eram poucos, e todos os povos de Eriador minguaram. Porém a linhagem dos reis foi continuada pelos Chefes dos Dúnedain, o primeiro dos quais foi Aranarth, filho de Arvedui. Seu filho Arahael foi criado em Valfenda e, do mesmo modo, todos os filhos dos chefes depois dele; e ali também se guardaram as heranças de sua casa: o anel de Barahir, os fragmentos de Narsil, a estrela de Elendil e o cetro de Annúminas.[<sup>24</sup>] “Quando o reino terminou, os Dúnedain passaram às sombras e se tornaram um povo secreto e errante, e seus feitos e suas labutas eram raramente cantados ou registrados. Pouco agora se recorda deles desde que Elrond partiu. Apesar de, mesmo antes que terminasse a Paz Vigilante, seres malignos recomeçarem a atacar ou invadir em segredo Eriador, a maior parte dos Chefes viveu plenamente suas longas vidas. Aragorn I, ao que dizem, foi morto por lobos, que continuaram representando um perigo em Eriador e ainda não se extinguiram. Nos dias de Arahad I, os Orques, que, ao que se soube depois, haviam ocupado secretamente baluartes nas Montanhas Nevoentas, de modo a impedir todas as passagens para Eriador, se revelaram repentinamente. Em 2509, Celebrían, esposa de Elrond, viajava a Lórien quando foi emboscada no Passo do Chifre-vermelho e, quando sua escolta se dispersou pelo ataque súbito dos Orques, foi presa e levada para longe. Foi perseguida e resgatada por Elladan e Elrohir, mas não antes de sofrer tormentos e receber um ferimento envenenado.[<sup>25</sup>] Foi trazida de volta a Imladris e, apesar de ter o corpo curado por Elrond, perdeu todo o deleite na Terra-média e, no ano seguinte, foi aos Portos e passou por sobre o Mar. E mais tarde, nos dias de Arassuil, os Orques, que outra vez se multiplicaram nas Montanhas Nevoentas, começaram a assolar as terras, e os Dúnedain e os filhos de Elrond os combateram. Foi nessa época que um grande bando chegou tão longe para o oeste que penetrou no Condado e foi expulso por Bandobras Tûk.”[<sup>26</sup>] Houve quinze Chefes antes de nascer o décimo sexto e último, Aragorn II, que voltou a se tornar Rei de Gondor e também de Arnor. “Nosso Rei, assim o chamamos; e quando ele vem ao norte, à sua casa em Annúminas restaurada, e passa algum tempo junto ao Lago Vesperturvo, então todos no Condado se alegram. Mas ele não entra nesta terra e respeita a lei que fez de que ninguém do Povo Grande há de ultrapassar suas divisas. Mas frequentemente cavalga, com muita gente bela, até a Grande Ponte, e ali recebe seus amigos e quaisquer outros que queiram vê-lo; e alguns cavalgam para longe com ele e ficam em sua casa por quanto tempo querem. O Thain Peregrin esteve ali muitas vezes, e também Mestre Samwise, o Prefeito. Sua filha Elanor, a Bela, é uma das damas de honra da Rainha Vespestrela.” Foi o orgulho e a admiração da Linhagem do Norte que, apesar de seu poder ter acabado e seu povo ter minguado, através de todas as muitas gerações a sucessão ficou ininterrupta de pai para filho. Também, apesar de a duração da vida dos Dúnedain diminuir cada vez mais na Terra-média, após o término de seus reis, a diminuição foi mais rápida em Gondor; e muitos dos Chefes do Norte ainda viviam até o dobro da idade dos Homens e muito além dos dias mesmo dos mais velhos dentre nós. Deveras Aragorn viveu até os duzentos e dez anos de idade, mais do que qualquer outro de sua linhagem desde o Rei Arvegil; mas em Aragorn Elessar foi renovada a dignidade dos reis de outrora. ## *(iv) GONDOR E OS HERDEIROS DE ANÁRION* Houve trinta e um reis em Gondor depois de Anárion, que foi morto diante de Barad-dûr. Apesar de a guerra jamais cessar em suas divisas, por mais de mil anos os Dúnedain do Sul cresceram em riqueza e poder, em terra e no mar, até o reino de Atanatar II, que era chamado Alcarin, o Glorioso. Porém, os sinais de decadência já haviam surgido àquela altura; pois os altos homens do Sul casavam-se tarde, e seus filhos eram poucos. O primeiro rei sem filhos foi Falastur, e o segundo, Narmacil I, o filho de Atanatar Alcarin. Foi Ostoher, o sétimo rei, quem reconstruiu Minas Anor, onde mais tarde os reis moravam no verão, em vez de Osgiliath. Em seu tempo, Gondor foi atacada pela primeira vez por homens selvagens do Leste. Mas seu filho Tarostar os derrotou, os expulsou e tomou o nome de Rómendacil “Vitorioso-do-Leste”. No entanto, mais tarde foi morto em combate com novas hordas de Lestenses. Seu filho Turambar o vingou e ganhou muitos territórios ao leste. Com Tarannon, o décimo segundo rei, começou a linhagem dos Reis-Navegantes, que construíram frotas e estenderam o domínio de Gondor ao longo das costas a oeste e ao sul das Fozes do Anduin. Para comemorar suas vitórias como Capitão das Hostes, Tarannon assumiu a coroa com o nome de Falastur “Senhor das Costas”. Seu sobrinho Eärnil I, que lhe sucedeu, reparou o antigo porto de Pelargir e construiu uma grande frota. Sitiou Umbar por mar e por terra e tomou-a, e ela se tornou um grande porto e fortaleza do poderio de Gondor.[<sup>27</sup>] Mas Eärnil não sobreviveu ao seu triunfo por muito tempo. Perdeu-se, com muitas naus e muitos homens, em grande tempestade diante de Umbar. Seu filho Ciryandil continuou a construção das naus, mas os Homens do Harad, liderados pelos senhores que haviam sido expulsos de Umbar, vieram com grande poderio contra aquele baluarte, e Ciryandil tombou em combate em Haradwaith. Por muitos anos Umbar foi sitiada, mas não podia ser tomada por causa do poderio marítimo de Gondor. Ciryaher, filho de Ciryandil, aguardou por algum tempo, e por fim, tendo reunido forças, desceu do norte por mar e terra, e, atravessando o Rio Harnen, seus exércitos derrotaram por completo os Homens do Harad, e seus reis foram obrigados a reconhecer o domínio de Gondor (1050). Então Ciryaher tomou o nome de Hyarmendacil “Vitorioso-do-Sul”. Nenhum inimigo ousou contestar o poderio de Hyarmendacil durante o restante de seu longo reinado. Foi rei por cento e trinta e quatro anos, o mais longo reinado, exceto por um, de toda a Linhagem de Anárion. Em seu tempo Gondor atingiu o cume do poder. O reino estendia-se então rumo ao norte até o campo de Celebrant e as bordas meridionais de Trevamata; a oeste até o Griságua; a leste até o Mar Interior de Rhûn; ao sul até o Rio Harnen, e dali, ao longo da costa, até a península e o porto de Umbar. Os Homens dos Vales do Anduin reconheciam sua autoridade; e os reis do Harad prestavam deferência a Gondor, e seus filhos viviam como reféns na corte do Rei. Mordor estava desolada, mas era vigiada por grandes fortalezas que guardavam os passos. Assim terminou a linhagem dos Reis-Navegantes. Atanatar Alcarin, filho de Hyarmendacil, viveu em grande esplendor, de modo que os homens diziam que “pedras preciosas são seixos em Gondor para as crianças brincarem”. Mas Atanatar apreciava o ócio e nada fazia para manter o poder que herdara e seus dois filhos tinham o mesmo temperamento. O declínio de Gondor já começara antes de ele morrer, e sem dúvida foi observado pelos inimigos. A guarda de Mordor foi relaxada. Ainda assim, foi só nos dias de Valacar que o primeiro grande mal se abateu sobre Gondor: a guerra civil da Contenda-das-Famílias, em que grande perda e ruína foram causadas e jamais reparadas. Minalcar, filho de Calmacil, foi homem de grande vigor, e em 1240 Narmacil, para se livrar de todas as preocupações, fê-lo Regente do reino. Desde aquele tempo ele governou Gondor em nome dos reis até suceder a seu pai. Seu principal afazer foi com os Nortistas. Estes haviam aumentado grandemente na paz trazida pelo poderio de Gondor. Os reis lhes eram favoráveis, uma vez que eles eram os mais próximos em parentesco, dentre os Homens menores, aos Dúnedain (já que descendiam mormente daqueles povos dos quais provinham os Edain de outrora); e deram-lhes amplas terras além do Anduin, ao sul da Verdemata, a Grande, para serem uma defesa contra os homens do Leste. Pois no passado os ataques dos Lestenses haviam vindo principalmente por sobre a planície entre o Mar Interior e as Montanhas de Cinza. Nos dias de Narmacil I seus ataques recomeçaram, porém inicialmente com pouca força; mas o regente soube que os Nortistas nem sempre permaneciam fiéis a Gondor e que alguns uniam forças com os Lestenses, fosse por avidez de butim, fosse por intensificação das rixas entre seus príncipes. Portanto, em 1248, Minalcar liderou grande exército, e entre Rhovanion e o Mar Interior derrotou grande exército dos Lestenses e destruiu todos os seus acampamentos e assentamentos a leste do Mar. Tomou então o nome de Rómendacil. Ao retornar, Rómendacil fortificou a margem oeste do Anduin até a confluência do Limclaro e proibiu que qualquer estrangeiro descesse pelo Rio além das Emyn Muil. Foi ele quem construiu os pilares das Argonath na entrada de Nen Hithoel. Mas, como necessitava de homens e desejava fortalecer o elo entre Gondor e os Nortistas, trouxe muitos deles para seu serviço e conferiu a alguns uma alta patente em seus exércitos. Rómendacil demonstrou especial favor a Vidugavia, que o ajudara na guerra. Ele se chamava Rei de Rhovanion e era de fato o mais poderoso dentre os príncipes do Norte, apesar de seu próprio reino estar situado entre Verdemata e o Rio Celduin.[<sup>28</sup>] Em 1250, Rómendacil enviou seu filho Valacar como embaixador para morar por algum tempo com Vidugavia e familiarizar-se com a língua, os modos e as políticas dos Nortistas. Mas Valacar ultrapassou em muito as intenções de seu pai. Apaixonou-se pelas terras e pelo povo do Norte e casou-se com Vidumavi, filha de Vidugavia. Levou alguns anos para retornar. Desse casamento resultou mais tarde a guerra da Contenda-das-Famílias. “Pois os altos homens de Gondor já olhavam de soslaio para os Nortistas entre eles; e era coisa até então inaudita que o herdeiro da coroa, ou qualquer filho do rei, se casasse com alguém de raça menor e estrangeira. Já havia rebelião nas províncias meridionais quando o Rei Valacar envelheceu. Sua rainha fora uma senhora bela e nobre, mas de vida curta, conforme a sina dos Homens menores, e os Dúnedain temiam que seus descendentes demonstrassem ser iguais e decaíssem da majestade dos Reis de Homens. Também estavam relutantes em aceitarem como senhor o filho dela que, apesar de agora se chamar Eldacar, nascera em país estrangeiro e na juventude se chamara Vinitharya, um nome do povo de sua mãe. “Portanto, quando Eldacar sucedeu ao pai, houve guerra em Gondor. Mas Eldacar demonstrou não ser facilmente removido de sua herança. À linhagem de Gondor, acrescentou o espírito indômito dos Nortistas. Era belo e valoroso e não demonstrava sinal de envelhecer mais depressa que o pai. Quando os confederados liderados pelos descendentes dos reis se ergueram contra ele, ele os enfrentou até o fim de suas forças. Foi finalmente sitiado em Osgiliath e manteve a posição por muito tempo até que a fome e as forças superiores dos rebeldes o expulsassem, deixando a cidade em chamas. Nesse cerco e incêndio foi destruída a Torre da Cúpula de Osgiliath, e a palantír perdeu-se nas águas. “Mas Eldacar escapou aos inimigos e chegou ao Norte, à sua parentela em Rhovanion. Ali muitos se reuniram em torno dele, tanto Nortistas a serviço de Gondor como Dúnedain das regiões setentrionais do reino. Pois muitos dentre estes haviam aprendido a estimá-lo e muitos mais chegaram a odiar seu usurpador. Este era Castamir, neto de Calimehtar, irmão mais novo de Rómendacil II. Não somente ele era um dos mais próximos da coroa pelo sangue, mas tinha o maior séquito de todos os rebeldes; pois era Capitão das Naus e era apoiado pelo povo das costas e dos grandes portos de Pelargir e Umbar. “Castamir não estivera no trono por muito tempo quando demonstrou ser altivo e pouco generoso. Era um homem cruel, como já mostrara na tomada de Osgiliath. Mandou matar Ornendil, filho de Eldacar, que fora capturado; e a matança e destruição que houve na cidade, a seu mando, excedeu em muito as necessidades da guerra. Isso foi lembrado em Minas Anor e Ithilien; e ali o apreço por Castamir diminuiu ainda mais quando se viu que ele pouco se importava com a terra, e só pensava nas frotas, e pretendia remover a sede do rei para Pelargir. “Assim, ele só fora rei por dez anos quando Eldacar, percebendo sua hora, veio do norte com grande exército, e o povo se juntou a ele desde Calenardhon, Anórien e Ithilien. Houve uma grande batalha em Lebennin nas Travessias do Erui, onde foi derramada grande parte do melhor sangue de Gondor. O próprio Eldacar abateu Castamir em combate, e assim vingou Ornendil; mas os filhos de Castamir escaparam, e com outros de sua família e muita gente das frotas resistiram por muito tempo em Pelargir. “Quando tinham reunido ali todas as forças que conseguiram (visto que Eldacar não tinha naus para acossá-los pelo mar), partiram em seus navios e se estabeleceram em Umbar. Ali fizeram um refúgio para todos os inimigos do rei e um domínio independente de sua coroa. Umbar permaneceu em guerra com Gondor por muitas vidas dos homens, uma ameaça às suas terras costeiras e a todo o tráfego pelo mar. Nunca mais voltou a ser totalmente subjugada antes dos dias de Elessar; e a região de Gondor Meridional se transformou em uma terra disputada entre os Corsários e os Reis.” “A perda de Umbar foi dolorosa para Gondor, não somente porque o reino diminuiu no sul e seu domínio dos Homens do Harad afrouxou, mas porque foi ali que Ar-Pharazôn, o Dourado, último Rei de Númenor, aportou e humilhou o poderio de Sauron. Apesar de grande mal se seguir, os próprios seguidores de Elendil lembravam-se orgulhosos da vinda da grande hoste de Ar-Pharazôn das profundas do Mar; e na mais alta colina do promontório acima do Porto erigiram como monumento uma grande coluna branca. Era coroada com um globo de cristal que apanhava os raios do Sol e da Lua e reluzia como uma estrela intensa que em bom tempo se podia ver mesmo nas costas de Gondor ou longe no mar do oeste. Permaneceu ali até que, após o segundo surgimento de Sauron, que já se avizinhava, Umbar caiu sob o domínio de seus serviçais e o memorial de sua humilhação foi derrubado.” Após o retorno de Eldacar, o sangue da casa real e de outras casas dos Dúnedain tornou-se mais misturado com o de Homens menores. Pois muitos dentre os grandes haviam perecido na Contenda-das-Famílias; porém Eldacar mostrou-se favorável aos Nortistas, com cuja ajuda reconquistara a coroa, e o povo de Gondor foi incrementado por muita gente que veio de Rhovanion. Inicialmente a mistura não apressou o declínio dos Dúnedain, como se temera; mas ainda assim o declínio continuava, pouco a pouco, assim como antes. Pois sem dúvida deveu-se acima de tudo à própria Terra-média, e à lenta retirada dos dons dos Númenóreanos após a queda da Terra da Estrela. Eldacar viveu até seu ducentésimo trigésimo quinto ano e foi rei por cinquenta e oito anos, dez dos quais vividos no exílio. O segundo e maior mal acometeu Gondor no reino de Telemnar, o vigésimo sexto rei, cujo pai Minardil, filho de Eldacar, foi morto em Pelargir pelos Corsários de Umbar. (Eram liderados por Angamaitë e Sangahyando, bisnetos de Castamir.) Logo depois, uma peste mortal veio do Leste em ventos obscuros. O Rei e todos os seus filhos morreram, e grande número do povo de Gondor, em especial dos que viviam em Osgiliath. Então, por fadiga e escassez de homens, a guarda das fronteiras de Mordor cessou, e as fortalezas que vigiavam as passagens ficaram desguarnecidas. Notou-se mais tarde que esses fatos aconteceram ao mesmo tempo em que a Sombra crescia nas profundezas de Verdemata e muitos seres malignos reapareceram, sinais do emergir de Sauron. É verdade que os inimigos de Gondor também sofreram, pois do contrário poderiam tê-la sobrepujado em sua fraqueza; mas Sauron podia esperar, e pode muito bem ser que a abertura de Mordor foi o que ele mais desejava. Quando morreu o Rei Telemnar, a Árvore Branca de Minas Anor também secou e morreu. Mas seu sobrinho Tarondor, que lhe sucedeu, replantou um rebento na cidadela. Foi ele quem removeu a casa do Rei permanentemente para Minas Anor, pois Osgiliath já estava parcialmente deserta e começava a cair em ruínas. Poucos dentre os que haviam fugido da peste para Ithilien ou os vales ocidentais estavam dispostos a voltar. Tarondor, chegando jovem ao trono, teve o reinado mais longo de todos os Reis de Gondor; porém realizou pouco mais que o reordenamento no interior do reino e a lenta recuperação de suas forças. Mas seu filho Telumehtar, recordando a morte de Minardil e perturbado pela insolência dos Corsários, que assolavam suas costas chegando até Anfalas, reuniu suas tropas e, em 1810, tomou Umbar de assalto. Nessa guerra pereceram os últimos descendentes de Castamir, e Umbar mais uma vez, por algum tempo, foi governada pelos reis. Telumehtar acrescentou ao seu nome o título de Umbardacil. Mas, nos novos males que logo acometeram Gondor, Umbar perdeu-se outra vez e caiu nas mãos dos Homens do Harad. O terceiro mal foi a invasão dos Carroceiros, que consumiu a força minguante de Gondor em guerras que duraram quase cem anos. Os Carroceiros eram um povo, ou uma confederação de muitos povos, que vinha do Leste; mas eram mais fortes e bem armados que todos os que haviam surgido antes. Viajavam em grandes carroças, e seus chefes combatiam em carruagens. Agitados, como se viu depois, pelos emissários de Sauron, realizaram um assalto súbito contra Gondor, e o Rei Narmacil II foi morto em batalha contra eles além do Anduin, em 1856. Os povos de Rhovanion oriental e meridional foram escravizados; e as fronteiras de Gondor, nessa época, recuaram até o Anduin e as Emyn Muil. \[Acredita-se que nessa época os Espectros-do-Anel retornaram a Mordor.\] Calimehtar, filho de Narmacil II, auxiliado por uma revolta em Rhovanion, vingou o pai com grande vitória sobre os Lestenses em Dagorlad, em 1899, e por algum tempo o perigo foi afastado. Foi no reino de Araphant no Norte e de Ondoher, filho de Calimehtar, no Sul que os dois reinos voltaram a se aconselhar juntos após longo silêncio e alienação. Pois perceberam finalmente que um único poder e uma única vontade dirigia o ataque de muitos lados contra os sobreviventes de Númenor. Foi nesse tempo que Arvedui, herdeiro de Araphant, se casou com Fíriel, filha de Ondoher (1940). Mas nenhum dos reinos foi capaz de enviar auxílio ao outro; pois Angmar renovou seu ataque contra Arthedain ao mesmo tempo em que os Carroceiros ressurgiram em grande número. Agora muitos dos Carroceiros passaram ao sul de Mordor e se aliaram com os homens de Khand e do Harad Próximo; e nesse grande assalto pelo norte e pelo sul, Gondor chegou perto da destruição. Em 1944, o Rei Ondoher e seus dois filhos, Artamir e Faramir, pereceram em batalha ao norte do Morannon, e o inimigo se espalhou por Ithilien. Mas Eärnil, Capitão do Exército Meridional, conquistou grande vitória em Ithilien do Sul e destruiu o exército de Harad que atravessara o Rio Poros. Dirigindo-se às pressas para o norte, reuniu tudo o que pôde do Exército Setentrional, que recuava, e acossou o acampamento principal dos Carroceiros enquanto estes banqueteavam e festejavam, crendo que Gondor fora derrotada e nada mais restava senão tomar a pilhagem. Eärnil tomou o acampamento de assalto, pôs fogo nas carroças e expulsou o inimigo de Ithilien em grande alvoroço. Muitos dos que fugiram dele pereceram nos Pântanos Mortos. “Quando morreram Ondoher e seus filhos, Arvedui do Reino-do- -Norte reivindicou a coroa de Gondor como descendente direto de Isildur e marido de Fíriel, única filha viva de Ondoher. A reivindicação foi rejeitada. Nisso o papel principal foi desempenhado por Pelendur, Regente do Rei Ondoher. “O Conselho de Gondor respondeu: ‘A coroa e realeza de Gondor pertence somente aos herdeiros de Meneldil, filho de Anárion, a quem Isildur entregou este reino. Em Gondor essa herança é reconhecida apenas através dos filhos homens; e não ouvimos dizer que a lei seja diversa em Arnor.’ “A isto Arvedui respondeu: ‘Elendil tinha dois filhos, dos quais Isildur era o mais velho e herdeiro do pai. Ouvimos dizer que até o dia de hoje o nome de Elendil consta encabeçando a linhagem dos Reis de Gondor, visto que era considerado alto rei de todas as terras dos Dúnedain. Enquanto Elendil ainda vivia, o domínio conjunto no Sul foi entregue a seus filhos; mas quando Elendil tombou, Isildur partiu para assumir o alto reinado de seu pai e entregou o domínio do Sul, de igual maneira, ao filho de seu irmão. Não abriu mão de sua realeza em Gondor, nem pretendia que o reino de Elendil fosse dividido para sempre. “‘Ademais, na Númenor de outrora o cetro descendia ao filho mais velho do rei, fosse homem ou mulher. É verdade que a lei não foi observada nas terras do exílio, sempre perturbadas pela guerra; mas era assim a lei de nosso povo, à qual nos referimos agora, considerando que os filhos de Ondoher morreram sem descendência.’[<sup>29</sup>] “A isto Gondor não deu resposta. A coroa foi reivindicada por Eärnil, o capitão vitorioso; e foi-lhe concedida com a aprovação de todos os Dúnedain em Gondor, já que ele era da casa real. Era filho de Siriondil, que era filho de Calimmacil, que era filho de Arciryas, que era irmão de Narmacil II. Arvedui não insistiu na reivindicação, pois não tinha o poder nem a vontade de se opor à escolha dos Dúnedain de Gondor; porém a reivindicação jamais foi esquecida por seus descendentes, mesmo depois que a realeza desapareceu. Pois já se avizinhava o tempo em que o Reino-do-Norte chegaria ao fim. “Arvedui foi de fato o último rei, como seu nome significa. Dizem que esse nome lhe foi dado ao nascer por Malbeth, o Vidente, que disse ao seu pai: ‘Arvedui hás de chamá-lo, pois será o último em Arthedain. Porém virá uma decisão aos Dúnedain, e, se escolherem aquela que parece menos esperançosa, então teu filho mudará de nome e se tornará rei de um grande reino. Do contrário, passarão grande pesar e muitas vidas dos homens até que os Dúnedain se ergam e se unam outra vez.’ “Também em Gondor apenas um rei se seguiu a Eärnil. Pode ser que, se a coroa e o cetro tivessem sido unidos, a realeza se mantivesse e se evitassem muitos males. Mas Eärnil era um homem sábio e não arrogante, mesmo que, como a muitos homens em Gondor, o reino de Arthedain parecesse pouca coisa, apesar de toda a linhagem de seus senhores. “Ele enviou mensagens a Arvedui anunciando que recebia a coroa de Gondor, conforme as leis e as necessidades do Reino-do- -Sul, ‘mas não me esqueço da realeza de Arnor, nem nego nosso parentesco, nem desejo que os reinos de Elendil se afastem. Mandar-te-ei auxílio quando dele necessitares enquanto eu for capaz.’ “No entanto, demorou para que Eärnil se sentisse seguro o bastante para fazer o que prometera. O rei Araphant continuou, com força minguante, a repelir os assaltos de Angmar, e Arvedui, ao sucedê-lo, fez o mesmo; mas finalmente, no outono de 1973, chegaram a Gondor mensagens dizendo que Arthedain estava em graves apuros e que o Rei-bruxo preparava um último golpe contra ele. Então Eärnil mandou ao norte seu filho Eärnur com uma frota o mais depressa que pôde e com a maior força de que podia dispor. Tarde demais. Antes de Eärnur alcançar os portos de Lindon, o Rei-bruxo havia conquistado Arthedain, e Arvedui perecera. “Mas quando Eärnur chegou aos Portos Cinzentos houve júbilo e grande admiração entre Elfos e Homens. Eram de tão grande calado as suas naus, e tantas, que mal conseguiram encontrar abrigo no porto, apesar de ficarem repletos o Harlond e o Forlond; e delas desembarcou um exército de poder, com munições e provisões para uma guerra de grandes reis. Ou assim pareceu ao povo do Norte, apesar de se tratar apenas de uma pequena força enviada desde todo o poderio de Gondor. Foram mais louvados os cavalos, pois muitos deles vinham dos Vales do Anduin e estavam com eles cavaleiros altos e belos e altivos príncipes de Rhovanion. “Então Círdan convocou todos os que quisessem vir ter com ele, de Lindon ou de Arnor, e quando estava tudo pronto, a hoste atravessou o Lûn e marchou rumo ao norte para desafiar o Rei-bruxo de Angmar. Ele habitava então, diziam, em Fornost, que preenchera de gente malévola, usurpando a casa e o domínio dos reis. Em seu orgulho, não esperou a chegada dos inimigos em seu baluarte, e sim saiu ao encontro deles, pretendendo varrê-los, como a outros antes deles, para dentro do Lûn. “Mas a Hoste do Oeste desceu sobre ele vinda das Colinas de Vesperturvo, e houve grande batalha na planície entre Nenuial e as Colinas do Norte. As forças de Angmar já cediam e recuavam rumo a Fornost quando a principal tropa de cavaleiros que contornara as colinas os acometeu pelo norte e os dispersou em grande alvoroço. Então o Rei-bruxo, com todos os que conseguiu reunir da derrota, fugiu para o norte em busca de sua própria terra de Angmar. Antes que chegasse ao abrigo de Carn Dûm, a cavalaria de Gondor o alcançou, com Eärnur cavalgando à frente. Ao mesmo tempo, uma força comandada por Glorfindel, o Senhor-élfico, veio de Valfenda. Então Angmar foi derrotado tão completamente que nem homem nem orque daquele reino restou a oeste das Montanhas. “Mas dizem que, quando estava tudo perdido, apareceu repentinamente o próprio Rei-bruxo, de vestes negras e máscara negra montado em um cavalo negro. O temor dominou todos os que o contemplavam; mas ele escolheu o Capitão de Gondor para a plenitude de seu ódio e, com um grito terrível, cavalgou direto sobre ele. Eärnur lhe teria resistido; mas seu cavalo não pôde suportar aquele assalto; e desviou-se e o levou para longe antes que ele conseguisse dominá-lo. “Então o Rei-bruxo riu-se, e ninguém que o ouviu jamais esqueceu o horror daquele grito. Mas, nesse momento, veio cavalgando Glorfindel em sua montaria branca, e, no meio de seu riso, o Rei-bruxo voltou-se em fuga e passou para as sombras. Pois a noite desceu sobre o campo de batalha, e ele se perdeu, e ninguém viu aonde foi. “Com isso Eärnur cavalgou de volta, mas Glorfindel, observando a escuridão crescente, disse: ‘Não o persigas! Ele não voltará a esta terra. Ainda está muito longe a sua sina e não cairá pela mão de um homem.’ Estas palavras foram lembradas por muitos; mas Eärnur ficou irado, desejando apenas vingar-se pela sua desgraça. “Assim terminou o reino maligno de Angmar; e assim Eärnur, Capitão de Gondor, conquistou o principal ódio do Rei-bruxo, mas ainda iriam passar muitos anos para isso ser revelado.” Foi assim que, no reinado do Rei Eärnil, como ficou claro mais tarde, o Rei-bruxo escapou do Norte, chegou a Mordor, e reuniu ali os demais Espectros-do-Anel, dos quais era o principal. Mas foi só em 2000 que emergiram de Mordor pelo Passo de Cirith Ungol e fizeram sítio a Minas Ithil. Tomaram-na em 2002 e capturaram a palantír da torre. Não foram expulsos enquanto durou a Terceira Era; e Minas Ithil se tornou um lugar de medo e foi renomeada Minas Morgul. Muitas das pessoas que ainda restavam em Ithilien abandonaram-na. “Eärnur era um homem semelhante ao pai em valentia, mas não em sabedoria. Era homem de corpo vigoroso e humor inflamado; mas não tomou esposa, pois seu único prazer estava no combate ou no exercício das armas. Sua proeza era tanta que ninguém em Gondor era capaz de enfrentá-lo nos jogos de armas, em que se deleitava, parecendo mais um campeão que um capitão ou rei, e mantendo o vigor e a habilidade até uma idade mais avançada que o usual naqueles tempos.” Quando Eärnur recebeu a coroa em 2043, o Rei de Minas Morgul o desafiou a combate singular, escarnecendo dele por não ter ousado enfrentá-lo na batalha no Norte. Naquele tempo, Mardil, o Regente, refreou a ira do rei. Minas Anor, que se tornara a principal cidade do reino desde os dias do Rei Telemnar e a residência dos reis, foi então renomeada Minas Tirith, sendo a cidade sempre em guarda contra o mal de Morgul. Eärnur vinha portando a coroa por apenas sete anos quando o Senhor de Morgul repetiu seu desafio, escarnecendo do rei por ter unido à falta de coragem da juventude a fraqueza da velhice. Então Mardil não conseguiu mais refreá-lo, e ele se dirigiu com pequena escolta de cavaleiros até o portão de Minas Morgul. De nenhum dos que ali cavalgaram jamais se ouviu falar outra vez. Em Gondor cria-se que o inimigo traiçoeiro capturara o rei e que este morrera em tormento em Minas Morgul; mas, visto que não havia testemunhas de sua morte, Mardil, o Bom Regente, governou Gondor em seu nome por muitos anos. Os descendentes dos reis já eram poucos. Seu número diminuíra muito na Contenda-das-Famílias; ademais, desde aquele tempo, os reis haviam se tornado ciosos e vigilantes dos parentes próximos. Muitas vezes aqueles sobre quem recaía a suspeita fugiram para Umbar e ali se juntaram aos rebeldes, enquanto que outros renunciaram à sua linhagem e tomaram esposas que não eram de sangue númenóreano. Foi assim que não se encontrou pretendente à coroa que fosse de sangue puro ou cuja reivindicação todos aceitassem; e todos temiam a lembrança da Contenda-das-Famílias, sabendo que, caso tal disputa surgisse novamente, Gondor pereceria. Portanto, apesar de passarem muitos anos, o Regente continuou governando Gondor, e a coroa de Elendil jazia no colo do Rei Eärnil nas Casas dos Mortos, onde Eärnur a deixara. ## *Os Regentes* A Casa dos Regentes era chamada Casa de Húrin, pois descendiam do Regente do Rei Minardil (1621–34), Húrin de Emyn Arnen, um homem da alta raça númenóreana. Depois dos seus dias, os reis sempre haviam escolhido regentes dentre seus descendentes; e após os dias de Pelendur a Regência se tornou hereditária como a realeza, de pai para filho ou parente mais próximo. Cada novo Regente, de fato, assumia o cargo com o juramento “de manter o bastão e governar em nome do rei, até que este retorne”. Mas estas logo se tornaram palavras rituais de pouca importância, pois os Regentes exerciam todo o poder dos reis. Porém muitos em Gondor ainda criam que um rei de fato voltaria em algum tempo vindouro; e alguns recordavam a antiga linhagem do Norte, que os rumores diziam ainda sobreviver nas sombras. Mas contra tais pensamentos os Regentes Governantes endureceram seus corações. Não obstante, os Regentes jamais se sentaram no antigo trono; e não usavam coroa nem portavam cetro. Só carregavam um bastão branco como símbolo de seu cargo; e seu estandarte era branco, sem emblema; mas o estandarte real fora negro, e nele se exibia uma árvore branca florida sob sete estrelas. Após Mardil Voronwë, que foi considerado o primeiro da linhagem, seguiram-se vinte e quatro Regentes Governantes de Gondor até os tempos de Denethor II, vigésimo sexto e último. No início tiveram tranquilidade, pois eram os dias da Paz Vigilante, durante a qual Sauron se recolheu diante do poderio do Conselho Branco e os Espectros-do-Anel ficaram ocultos no Vale Morgul. Mas depois do tempo de Denethor I nunca mais houve paz plena, e, mesmo quando Gondor não sofria guerra intensa ou aberta, suas fronteiras estavam sob constante ameaça. Nos últimos anos de Denethor I, a raça dos uruks, orques negros de grande força, começou a surgir vinda de Mordor, e em 2475 varreram Ithilien e tomaram Osgiliath. Boromir, filho de Denethor (cujo nome mais tarde foi dado a Boromir dos Nove Caminhantes), derrotou-os e recuperou Ithilien; mas Osgiliath foi finalmente arruinada, e sua grande ponte de pedra foi rompida. Depois disso ninguém mais habitou ali. Boromir foi um grande capitão, e mesmo o Rei-bruxo o temia. Era nobre e de belo semblante, homem forte no corpo e na vontade, mas naquela guerra sofreu um ferimento de Morgul que lhe abreviou os dias, tornou-se encolhido de dor e morreu doze anos após o pai. Depois dele começou o longo governo de Cirion. Era vigilante e cauteloso, mas o alcance de Gondor se reduzira, e pôde fazer pouco mais que defender suas fronteiras, enquanto seus inimigos (ou o poder que os movia) preparava golpes contra ele que não era capaz de evitar. Os Corsários assolaram suas costas, mas residia no norte sua principal ameaça. Nas amplas terras de Rhovanion, entre Trevamata e o Rio Rápido, habitava agora um povo feroz, totalmente sob a sombra de Dol Guldur. Muitas vezes faziam incursões pela floresta, até que o vale do Anduin, ao sul do Lis, ficasse largamente deserto. Esses Balchoth eram constantemente aumentados por outros da mesma espécie que entravam do leste, enquanto que o povo de Calenardhon minguava. Cirion teve dificuldades de manter a linha do Anduin. “Prevendo a tempestade, Cirion mandou buscar auxílio no norte, mas era demasiado tarde; pois naquele ano (2510) os Balchoth, tendo construído muitos grandes barcos e balsas nas margens orientais do Anduin, enxamearam atravessando o Rio e varreram os defensores para longe. Um exército que veio marchando do sul foi interceptado e expulso rumo ao norte através do Limclaro e ali foi subitamente atacado por uma horda de Orques vindos das Montanhas e empurrado na direção do Anduin. Então, do Norte, veio uma ajuda além da esperança, e as trompas dos Rohirrim foram ouvidas em Gondor pela primeira vez. Eorl, o Jovem, chegou com seus cavaleiros, varreu o inimigo e perseguiu os Balchoth até a morte por sobre os campos de Calenardhon. Cirion concedeu aquela terra a Eorl para ser sua morada, e este fez a Cirion o Juramento de Eorl, de amizade na emergência ou a chamado aos Senhores de Gondor.” Nos dias de Beren, o décimo nono Regente, um perigo ainda maior acometeu Gondor. Três grandes frotas, há muito preparadas, subiram de Umbar e do Harad e assaltaram as costas de Gondor com grande poderio; e o inimigo aportou em muitos lugares, mesmo para o norte, na foz do Isen. Ao mesmo tempo, os Rohirrim foram assaltados pelo oeste e pelo leste, e sua terra foi invadida, e foram impelidos para os vales das Montanhas Brancas. Naquele ano (2758) começou o Inverno Longo, com frio e muita neve vinda do Norte e do Leste, que durou quase cinco meses. Helm de Rohan e seus dois filhos pereceram naquela guerra; e houve miséria e morte em Eriador e em Rohan. Mas em Gondor, ao sul das montanhas, as coisas estavam menos mal, e, antes da chegada da primavera, Beregond, filho de Beren, havia derrotado os invasores. Mandou de imediato auxílio a Rohan. Era o maior capitão a surgir em Gondor desde Boromir; e quando sucedeu ao pai (2763), Gondor começou a recuperar sua força. Mas Rohan curou-se mais devagar das feridas que recebera. Foi por essa razão que Beren recebeu Saruman e lhe deu as chaves de Orthanc, e desde aquele ano (2759) Saruman habitou em Isengard. Foi nos dias de Beregond que a Guerra dos Anãos e dos Orques ocorreu nas Montanhas Nevoentas (2793–99), da qual apenas rumores chegaram ao sul, até que os Orques fugidos de Nanduhirion tentassem atravessar Rohan e se estabelecer nas Montanhas Nevoentas. Houve muitos anos de combate nos vales até acabar esse perigo. Quando morreu Belecthor II, o vigésimo primeiro Regente, a Árvore Branca também morreu em Minas Tirith; mas foi mantida de pé “até o Rei retornar”, pois não se podia encontrar nenhum rebento. Nos dias de Túrin II, os inimigos de Gondor recomeçaram a se mover; pois Sauron recuperara seu poder e o dia de seu ressurgimento se aproximava. Todos, exceto os mais intrépidos do seu povo, desertaram Ithilien e se mudaram para o oeste, atravessando o Anduin, pois a terra estava infestada de orques de Mordor. Foi Túrin quem construiu refúgios secretos para seus soldados em Ithilien, entre os quais Henneth Annûn era aquele guardado e guarnecido por mais tempo. Também voltou a fortificar a ilha de Cair Andros[<sup>30</sup>] para defender Anórien. Mas sua principal ameaça residia no sul, onde os Haradrim haviam ocupado Gondor Meridional, e havia muitos embates ao longo do Poros. Quando Ithilien foi invadida com grande força, o Rei Folcwine de Rohan honrou o Juramento de Eorl e pagou sua dívida pelo auxílio trazido por Beregond, mandando muitos homens a Gondor. Com a ajuda deles, Túrin conquistou uma vitória na travessia do Poros; mas ambos os filhos de Folcwine tombaram na batalha. Os Cavaleiros sepultaram-nos à maneira de seu povo, e foram depositados em um só morro, visto que eram irmãos gêmeos. Por muito tempo esteve erguido, Haudh in Gwanûr, alto na margem do rio, e os inimigos de Gondor temiam passar junto a ele. Turgon seguiu-se a Túrin, mas da sua época recorda-se principalmente que, dois anos antes de sua morte, Sauron ressurgiu e declarou-se abertamente; e voltou a entrar em Mordor, há muito preparada para ele. Então foi erguida mais uma vez a Barad-dûr, e o Monte da Perdição irrompeu em chamas, e fugiram para longe os últimos do povo de Ithilien. Quando Turgon morreu, Saruman tomou Isengard para si e fortificou-a. “Ecthelion II, filho de Turgon, era homem de sabedoria. Com o poder que lhe restava ele começou a fortificar seu reino contra o ataque de Mordor. Encorajou todos os homens valorosos, de perto ou longe, a se porem a seu serviço e, aos que demonstraram ser confiáveis, deu patentes e recompensas. Em muita coisa que fez teve o auxílio e o conselho de um grande capitão a quem estimava acima de todos. Os homens de Gondor o chamavam Thorongil, a Águia da Estrela, pois era veloz, de olhar aguçado e usava uma estrela de prata na capa; mas ninguém conhecia seu verdadeiro nome nem a terra em que nascera. Chegou a Ecthelion vindo de Rohan, onde servira o Rei Thengel, mas não era um dos Rohirrim. Era um grande líder de homens, em terra ou mar, mas partiu para as sombras de onde viera antes que os dias de Ecthelion terminassem. “Muitas vezes Thorongil aconselhou Ecthelion de que a força dos rebeldes em Umbar era grande perigo para Gondor e uma ameaça aos feudos do sul que acabaria sendo mortal se Sauron iniciasse guerra aberta. Finalmente obteve a permissão do Regente para reunir uma pequena frota, e chegou a Umbar de noite, inesperadamente, e ali incendiou grande parte das naus dos Corsários. Ele próprio derrotou o Capitão do Porto em batalha no cais e depois retirou sua frota com poucas perdas. Mas quando voltaram a Pelargir, para pesar e admiração de seus homens, não quis voltar a Minas Tirith, onde grande honra o aguardava. “Enviou uma mensagem de adeus a Ecthelion, dizendo: ‘Outras tarefas agora me aguardam, senhor, e terão de passar muito tempo e muitos perigos antes que eu retorne a Gondor, se for essa a minha sina.’ Apesar de ninguém ser capaz de adivinhar quais seriam essas tarefas, nem que chamado ele recebera, soube-se aonde ele foi. Pois tomou um barco e atravessou o Anduin, e ali se despediu dos companheiros e prosseguiu a sós; e na última vez em que foi visto tinha a face voltada para as Montanhas de Sombra. “Houve consternação na Cidade na partida de Thorongil, e pareceu grande perda a toda a gente, a não ser para Denethor, filho de Ecthelion, um homem já maduro para a Regência, à qual sucedeu quatro anos mais tarde ao morrer seu pai. “Denethor II era um homem orgulhoso, alto, valoroso e mais régio que qualquer homem que surgira em Gondor durante muitas vidas dos homens; e era sábio também, de visão longínqua e versado no saber. De fato, era tão parecido com Thorongil como se fosse parente próximo, e ainda assim sempre ocupava o segundo lugar, depois do estranho, nos corações dos homens e na estima de seu pai. À época muitos pensaram que Thorongil partira antes que seu rival se tornasse seu senhor; porém o próprio Thorongil jamais competira com Denethor, nem se considerara mais do que servidor de seu pai. E apenas em um assunto seus conselhos ao Regente divergiam: Thorongil costumava alertar Ecthelion para que não confiasse em Saruman, o Branco, em Isengard, mas que desse preferência a Gandalf, o Cinzento. Mas pouca estima havia entre Denethor e Gandalf, e, após os dias de Ecthelion, houve menos acolhida para o Peregrino Cinzento em Minas Tirith. Portanto, mais tarde, quando tudo foi esclarecido, muitos criam que Denethor, que tinha a mente sutil e enxergava mais longe e mais fundo que outros homens dos seus dias, descobrira quem era na realidade aquele estranho Thorongil e suspeitava de que ele e Mithrandir pretendiam suplantá-lo. “Quando Denethor se tornou Regente (2984), demonstrou ser um senhor imperioso, mantendo na própria mão o domínio de todas as coisas. Falava pouco. Escutava os conselhos e depois seguia sua própria opinião. Casara-se tarde (2976), tomando por esposa Finduilas, filha de Adrahil de Dol Amroth. Era uma senhora de grande beleza e coração gentil, mas antes que se tivessem passado doze anos ela morreu. Denethor a amava, à sua maneira, mais que a qualquer outra pessoa, a não ser o mais velho dos filhos que ela lhe dera. Mas pareceu aos homens que ela definhou na cidade vigiada, como flor dos vales junto ao mar posta em uma rocha estéril. A sombra no leste enchia-a de horror e ela sempre voltava os olhos para o sul, rumo ao mar de que sentia falta. “Após sua morte, Denethor tornou-se mais sisudo e silencioso que antes e por muito tempo sentava-se a sós em sua torre, imerso em pensamentos, predizendo que o ataque de Mordor viria no seu tempo. Mais tarde acreditou-se que, necessitado de conhecimento, porém orgulhoso e confiante em sua própria força de vontade, ousou olhar dentro da palantír da Torre Branca. Nenhum dos Regentes ousara fazê-lo, nem mesmo os reis Eärnil e Eärnur, depois da queda de Minas Ithil, em que a palantír de Isildur chegou às mãos do Inimigo; pois a Pedra de Minas Tirith era a palantír de Anárion, a de mais próxima concordância com aquela que Sauron possuía. “Deste modo Denethor obteve seu grande conhecimento das coisas que ocorriam em seu reino e muito além dos seus limites, para admiração dos homens; mas comprou caro esse conhecimento e envelheceu antes do tempo em sua contenda com a vontade de Sauron. Assim o orgulho aumentou em Denethor junto com o desespero, até ele ver em todos os feitos daquele tempo somente um combate singular entre o Senhor da Torre Branca e o Senhor da Barad-dûr, e desconfiava de todos os demais que resistiam a Sauron, a não ser que servissem apenas a ele. “Assim o tempo se aproximou da Guerra do Anel, e os filhos de Denethor chegaram à idade adulta. Boromir, mais velho em cinco anos, amado pelo pai, era como ele em semblante e orgulho, mas em pouca coisa mais. Era, isso sim, um homem à maneira do Rei Eärnur de outrora, pois não se casou e se deleitava principalmente com as armas; era destemido e forte, mas pouco se importava com o saber, exceto pelos relatos de antigas batalhas. Faramir, o mais moço, era de aspecto parecido com ele, mas de mente diversa. Lia os corações dos homens com a mesma perspicácia do pai, mas o que lia motivava-o mais à compaixão que ao desprezo. Tinha modos gentis, amava o saber e a música, e, portanto, muitos naqueles dias julgavam que sua coragem era menor que a do irmão. Mas não era assim, exceto pelo fato de que não buscava a glória no perigo sem ter um propósito. Deu boas-vindas a Gandalf em todas as vezes em que este veio à Cidade e aprendeu o que pôde com sua sabedoria; e nisso, assim como em muitas outras coisas, desagradava ao pai. “Porém havia grande amor entre os irmãos, e fora assim desde a infância, quando Boromir fora ajudante e protetor de Faramir. Não surgira ciúme nem rivalidade entre eles desde então, pela benevolência do pai ou pelo louvor dos homens. Não parecia possível a Faramir que alguém em Gondor rivalizasse com Boromir, herdeiro de Denethor, Capitão da Torre Branca; e Boromir tinha opinião semelhante. Porém, na provação mostrou-se que era diferente. Mas de tudo o que ocorreu a esses três na Guerra do Anel muita coisa está dita alhures. E após a Guerra, os dias dos Regentes Governantes chegaram ao fim; pois o herdeiro de Isildur e Anárion retornou, e a monarquia renovou-se, e o estandarte da Árvore Branca mais uma vez tremulou na Torre de Ecthelion.” # *(v) AQUI SEGUE-SE UMA PARTE DO CONTO DE ARAGORN E ARWEN* “Arador foi o avô do Rei. Seu filho Arathorn buscou casar-se com Gilraen, a Bela, filha de Dírhael, que era ele próprio descendente de Aranarth. A esse casamento Dírhael se opôs; pois Gilraen era jovem e não chegara à idade em que as mulheres dos Dúnedain costumavam casar-se. “‘Ademais,’ disse ele, ‘Arathorn é um homem sisudo de idade adulta e será chefe mais cedo do que os homens creem; porém meu coração prevê que terá vida curta.’ “Mas Ivorwen, sua esposa, que também enxergava o futuro, respondeu: ‘Tanto mais necessária a pressa! Os dias escurecem antes da tempestade e grandes coisas estão por vir. Se esses dois se casarem agora, poderá nascer esperança para nosso povo; mas se demorarem, ela não chegará enquanto durar esta era.’ “E ocorreu que, quando Arathorn e Gilraen estavam casados havia somente um ano, Arador foi apanhado por trols-das-colinas nos Morros Frios, ao norte de Valfenda, e foi morto; e Arathorn tornou-se Chefe dos Dúnedain. No ano seguinte, Gilraen lhe deu um filho, e chamaram-no Aragorn. Mas Aragorn tinha apenas dois anos de idade quando Arathorn saiu em cavalgada contra os Orques com os filhos de Elrond e foi morto por uma flecha-órquica que lhe perfurou o olho; e assim ele de fato demonstrou ter vida curta para alguém de sua raça, pois tinha apenas sessenta anos de idade quando tombou. “Então Aragorn, sendo agora o Herdeiro de Isildur, foi levado com a mãe a morar na casa de Elrond; e Elrond assumiu o papel de seu pai e passou a amá-lo como seu próprio filho. Mas foi chamado de Estel, que é “Esperança”, e seu verdadeiro nome e linhagem foram mantidos secretos a pedido de Elrond; pois os Sábios sabiam então que o Inimigo buscava descobrir o Herdeiro de Isildur, se algum restasse sobre a terra. “Mas quando Estel tinha apenas vinte anos de idade ocorreu que ele voltou a Valfenda após grandes feitos em companhia dos filhos de Elrond; e Elrond o contemplou e ficou contente, pois viu que ele era belo, nobre e chegara cedo à idade adulta, apesar de que tornar-se-ia ainda maior de corpo e mente. Naquele dia, portanto, Elrond o chamou pelo nome verdadeiro e contou-lhe quem era e de quem era filho; e entregou-lhe os legados de sua casa. “‘Eis o anel de Barahir,’ disse ele, ‘o símbolo de nosso parentesco longínquo; e eis também os fragmentos de Narsil. Com eles ainda poderás realizar grandes feitos; pois prevejo que a duração de tua vida será maior que a medida dos Homens, a não ser que o mal te acometa ou fracasses na provação. Mas a provação será difícil e longa. O Cetro de Annúminas eu retenho, pois ainda precisas merecê-lo.’ “No dia seguinte, à hora do pôr do sol, Aragorn caminhou a sós na mata, e o coração estava animado em seu peito; e cantava, pois estava repleto de esperança, e o mundo era belo. E de súbito, mesmo enquanto cantava, viu uma donzela que caminhava em um gramado entre os troncos brancos das bétulas; e deteve-se admirado, pensando ter vagado para dentro de um sonho, ou então ter recebido a dádiva dos menestréis-élficos, que podem fazer as coisas de que cantam aparecerem diante dos olhos de quem os escuta. “Pois Aragorn estivera cantando parte da “Balada de Lúthien”, que conta do encontro de Lúthien e Beren na floresta de Neldoreth. E eis! ali Lúthien caminhava diante de seus olhos em Valfenda, trajada de um manto de prata e azul, bela como o crepúsculo em Casadelfos; seus cabelos escuros esvoaçaram em um vento súbito, e sua fronte estava cingida de gemas como estrelas. “Por um momento Aragorn a fitou em silêncio, mas, temendo que ela se afastasse e nunca mais fosse vista, chamou-a exclamando: ‘Tinúviel, Tinúviel!’, exatamente como Beren fizera nos Dias Antigos, muito tempo atrás. “Então a donzela voltou-se para ele, sorriu e disse: ‘Quem és tu? E por que me chamas por esse nome?’ “E ele respondeu: ‘Porque cria que eras deveras Lúthien Tinúviel, de quem eu cantava. Mas se não és ela, então caminhas à sua semelhança.’ “‘Assim muitos disseram’, respondeu ela com gravidade. ‘Porém o nome dela não é o meu. Contudo, quem sabe, minha sina não será diversa da dela. Mas quem és tu?’ “‘Fui chamado de Estel’, ele respondeu; ‘mas sou Aragorn, filho de Arathorn, Herdeiro de Isildur, Senhor dos Dúnedain’; porém, mesmo enquanto falava, sentiu que sua alta linhagem, com que seu coração se regozijara, era agora de pouca valia, e como se nada fosse em comparação com a dignidade e o encanto dela. “Mas ela riu alegremente e comentou: ‘Então somos parentes longínquos. Pois eu sou Arwen, filha de Elrond, e também sou chamada Undómiel.’ “‘Muitas vezes se vê’, disse Aragorn, ‘que em dias perigosos os homens escondem seus principais tesouros. No entanto, admiro-me com Elrond e com teus irmãos; pois apesar de ter morado nesta casa desde a infância, não ouvi palavra sobre ti. Como pode ser que nunca tenhamos nos encontrado antes? Certamente teu pai não te manteve trancada em seu tesouro…’ “‘Não’, respondeu ela e ergueu os olhos para as Montanhas que subiam no leste. ‘Morei por algum tempo na terra dos parentes de minha mãe, na longínqua Lothlórien. Só recentemente voltei para visitar meu pai outra vez. Faz muitos anos que não caminho em Imladris.’ “Então Aragorn admirou-se, pois ela não parecia ser mais velha que ele, que ainda não vivera mais que uma vintena de anos na Terra-média. Mas Arwen fitou-lhe os olhos e prosseguiu: ‘Não te admires! Pois os filhos de Elrond têm a vida dos Eldar.’ “Então Aragorn ficou desconcertado, pois viu a luz-élfica nos olhos dela e a sabedoria de muitos dias; porém, desde aquela hora, amou Arwen Undómiel, filha de Elrond. “Nos dias que se seguiram, Aragorn manteve-se em silêncio, e sua mãe percebeu que algo estranho o acometera; e ele por fim cedeu às suas perguntas e lhe contou do encontro no crepúsculo das árvores. “‘Meu filho,’ disse Gilraen, ‘teu intuito é elevado, mesmo para o descendente de muitos reis. Pois essa senhora é a mais nobre e bela que ora caminha na terra. E não é adequado que mortais desposem Gente-élfica.’ “‘No entanto, temos parte nesse parentesco,’ respondeu Aragorn, ‘se é verdadeira a história que aprendi sobre meus antepassados.’ “‘É verdadeira,’ afirmou Gilraen, ‘mas isso foi muito tempo atrás e em outra era deste mundo, antes que nossa raça diminuísse. Portanto, eu temo; pois sem a boa vontade do Mestre Elrond os Herdeiros de Isildur logo chegarão ao fim. Mas não creio que tenhas a boa vontade de Elrond neste assunto.’ “‘Então amargos serão os meus dias e caminharei a sós nos ermos’, disse Aragorn. “‘Essa será deveras a tua sina’, disse Gilraen; mas apesar de possuir em certa medida a profecia de sua gente, ela nada mais lhe disse de seu pressentimento, nem falou a outra pessoa o que o filho lhe contara. “Mas Elrond via muitas coisas e lia em muitos corações. Certo dia, portanto, antes do declínio do ano, chamou Aragorn ao seu aposento e disse: ‘Aragorn, filho de Arathorn, Senhor dos Dúnedain, escuta-me! Uma grande sina te aguarda, seja para te ergueres acima da altura de todos os teus pais desde os dias de Elendil, ou para caíres na treva com todos os que restam de tua gente. Muitos anos de provação estão diante de ti. Não terás esposa, nem atarás mulher a ti em promessa, até que chegue teu tempo e sejas julgado merecedor disso.’ “Então Aragorn perturbou-se e indagou: ‘Pode ser que minha mãe falou disto?’ “‘Não deveras’, respondeu Elrond. ‘Teus próprios olhos te traíram. Mas não falo apenas de minha filha. Não serás ainda prometido à filha de ninguém. Mas quanto a Arwen, a Bela, Senhora de Imladris e de Lórien, Vespestrela de seu povo, ela é de linhagem maior que a tua e já viveu no mundo tanto tempo que para ela és apenas como um rebento de um ano ao lado de uma jovem bétula de muitos verões. Ela está demasiado acima de ti. E assim, penso, pode muito bem parecer a ela. Mas mesmo que assim não fosse, e o coração dela se voltasse para ti, ainda assim eu me afligiria por causa da sina que nos é imposta.’ “‘Que sina é essa?’, indagou Aragorn. “‘Que, enquanto eu habitar aqui, ela há de viver com a juventude dos Eldar,’ respondeu Elrond, ‘e quando eu partir ela há de ir comigo, se assim decidir.’ “‘Compreendo’, disse Aragorn, ‘que voltei os olhos para um tesouro não menos caro que o tesouro de Thingol que Beren desejou outrora. Tal é minha sina.’ Então de repente o acometeu a profecia de sua gente e continuou: ‘Mas eis! Mestre Elrond, os anos de tua permanência reduzem-se afinal, e logo a decisão será imposta a teus filhos: de se despedirem ou de ti ou da Terra-média.’ “‘É verdade’, assentiu Elrond. ‘Logo, do modo como contamos, apesar de ainda deverem passar muitos anos dos Homens. Mas não haverá decisão diante de Arwen, minha amada, a não ser que tu, Aragorn, filho de Arathorn, te interponhas entre nós e conduzas um de nós, a ti ou a mim, a uma amarga despedida além do fim do mundo. Não sabes ainda o que desejas de mim.’ Suspirou e, algum tempo depois, contemplando o jovem com gravidade, voltou a falar: ‘Os anos trarão o que trouxerem. Não falaremos mais disto até que muitos tenham passado. Os dias se obscurecem e há muito mal por vir.’ “Então Aragorn se despediu amavelmente de Elrond; e no dia seguinte disse adeus à mãe, à casa de Elrond e a Arwen e saiu para o ermo. Por quase trinta anos labutou na causa contra Sauron; e fez-se amigo de Gandalf, o Sábio, de quem obteve muita sabedoria. Com ele fez muitas jornadas perigosas, mas, à medida que os anos avançavam, ia mais frequentemente sozinho. Seus caminhos eram difíceis e longos, e tornou-se um tanto sisudo de aspecto, a não ser que sorrisse por acaso; e ainda assim parecia aos Homens digno de honra, como um rei que está no exílio, quando não ocultava sua forma verdadeira. Pois andava com muitas aparências e conquistou fama com muitos nomes. Cavalgou na hoste dos Rohirrim e combateu pelo Senhor de Gondor por terra e por mar; e depois, na hora da vitória, saiu do conhecimento dos Homens do Oeste e foi a sós ao Leste longínquo e ao Sul profundo, explorando os corações dos Homens, tanto maus como bons, e descobrindo as tramas e os esquemas dos serviçais de Sauron. “Tornou-se assim o mais intrépido dos Homens viventes, habilidoso em seus ofícios e em seu saber, e era assim mesmo mais do que eles; pois tinha a sabedoria-élfica, e havia uma luz em seus olhos que, quando estes se acendiam, poucos conseguiam suportar. Seu semblante era triste e severo por causa da sina que lhe fora imposta, e, no entanto, a esperança sempre residiu nas profundezas de seu coração, de onde às vezes surgia o júbilo como uma nascente da rocha. “Aconteceu que, quando Aragorn tinha nove e quarenta anos de idade, voltou de perigos nos escuros confins de Mordor, onde Sauron já voltara a habitar e se ocupava do mal. Estava exausto e desejava voltar a Valfenda e descansar ali por algum tempo antes de viajar para as regiões longínquas; e no caminho chegou às fronteiras de Lórien e foi admitido à terra oculta pela Senhora Galadriel. “Ele não o sabia, mas Arwen Undómiel também estava lá, outra vez morando por algum tempo com a família de sua mãe. Ela pouco mudara, pois os anos mortais haviam passado ao largo; porém seu semblante era mais grave e seu riso já se ouvia raramente. Mas Aragorn crescera à plena estatura de corpo e mente, e Galadriel lhe pediu que lançasse fora suas vestes gastas de viagem e trajou-o de prata e branco, com uma capa de cinza-élfico e uma gema brilhante na testa. Então teve aspecto maior que qualquer rei dos Homens e parecia-se mais com um Senhor-élfico das Ilhas do Oeste. E foi assim que Arwen primeiro voltou a contemplá-lo depois de seu longo afastamento; e, quando ele veio caminhando em sua direção sob as árvores de Caras Galadhon carregadas de flores de ouro, ela tomou sua decisão e selou sua sina. “Então, por uma estação, vagaram juntos nas clareiras de Lothlórien, até chegar a hora de ele partir. E na véspera do Meio--do-Verão, Aragorn, filho de Arathorn, e Arwen, filha de Elrond, foram até a bela colina de Cerin Amroth, no meio da terra, e caminharam descalços na relva imorredoura, com elanor e niphredil em redor dos pés. E ali, no alto daquela colina, olharam para o leste na direção da Sombra e para o oeste na direção do Crepúsculo, e empenharam-se um com o outro e estavam contentes. “E Arwen disse: ‘Escura é a Sombra, e, no entanto, meu coração se regozija; pois tu, Estel, hás de estar entre os grandes cuja valentia a destruirá.’ “Mas Aragorn respondeu: ‘Ai de mim! Não posso prevê-lo, e o modo como poderá ocorrer me está oculto. Porém, com tua esperança eu terei esperança. E a Sombra eu rejeito por completo. Mas tampouco, senhora, o Crepúsculo é para mim; pois sou mortal, e se te mantiveres fiel a mim, Vespestrela, também terás de renunciar ao Crepúsculo.’ “E então ela se manteve imóvel como uma árvore branca, olhando para o Oeste, e por fim disse: ‘Manter-me-ei fiel a ti, Dúnadan, e darei as costas ao Crepúsculo. Porém, ali está a terra de meu povo e o longo lar de toda a minha gente.’ Ela amava seu pai intensamente. “Quando Elrond soube da decisão da filha ficou em silêncio, apesar de ter o coração pesaroso e achar que a sina, por muito que fosse temida há tempo, não era fácil de suportar. Mas quando Aragorn voltou a Valfenda, ele o chamou a si e disse: “‘Meu filho, vêm anos em que a esperança há de minguar, e além deles poucas coisas me são claras. E agora uma sombra jaz entre nós. Quem sabe foi decidido assim, que pela minha perda a realeza dos Homens possa ser restaurada. Portanto, apesar de te amar, eu te digo: Arwen Undómiel não há de diminuir a graça de sua vida por causa menor. Ela não há de ser noiva de Homem menor que o Rei de Gondor e também Arnor. Para mim, portanto, mesmo nossa vitória só pode trazer pesar e separação — mas para ti, a esperança de alegria por certo tempo. Ai de nós, meu filho! Temo que para Arwen a Sina dos Homens possa parecer dura no final.’ “Assim ficaram depois as coisas entre Elrond e Aragorn, e não falaram mais nesse assunto; mas Aragorn partiu outra vez ao perigo e à labuta. E, enquanto o mundo se obscurecia e o temor caía sobre a Terra-média, à medida que o poderio de Sauron crescia e a Barad-dûr se erguia cada vez mais alta e forte, Arwen permaneceu em Valfenda e, quando Aragorn estava longe, ela o vigiava à distância em pensamento; e na esperança fez para ele um estandarte grande e régio, como poderia ser exibido apenas por quem reivindicasse o domínio dos Númenóreanos e a herança de Elendil. “Após alguns anos Gilraen se despediu de Elrond, voltou ao seu próprio povo em Eriador e viveu sozinha; e raramente reviu o filho, pois ele passava muitos anos em países distantes. Mas certa feita, quando Aragorn retornara ao Norte, ele veio ter com ela, e ela lhe disse antes que partisse: “‘Esta é nossa última despedida, Estel, meu filho. Estou envelhecida de inquietação, mesmo como alguém dos Homens menores; e agora, quando ela se aproxima, não consigo encarar a escuridão de nosso tempo que se avoluma sobre a Terra-média. Hei de deixá-la em breve.’ “Aragorn tentou consolá-la dizendo: ‘No entanto, poderá haver uma luz além da escuridão; e, se assim for, gostaria que a visses e estivesses contente.’ “Mas ela só respondeu com este linnod: ‘Ónen i-Estel Edain, ú-chebin estel anim’,[<sup>31</sup>] e Aragorn se foi com um peso no coração. Gilraen morreu antes da primavera seguinte. “Assim passaram-se os anos até a Guerra do Anel, da qual se conta mais alhures: como revelou-se o modo imprevisto pelo qual Sauron poderia ser derrotado e como se cumpriu a esperança além da esperança. E aconteceu que, na hora da derrota, Aragorn veio do mar e desdobrou o estandarte de Arwen na batalha dos Campos de Pelennor, e naquele dia foi aclamado como rei pela primeira vez. E ao fim, quando tudo estava feito, assumiu a herança de seus pais e recebeu a coroa de Gondor e o cetro de Arnor; e no Meio-do-Verão do ano da Queda de Sauron, tomou a mão de Arwen Undómiel, e casaram-se na cidade dos Reis. “A Terceira Era terminou, assim, em vitória e esperança; e, no entanto, foi aflitiva entre os pesares daquela Era a despedida de Elrond e Arwen, pois foram separados pelo Mar e por uma sina além do fim do mundo. Quando o Grande Anel foi desfeito e os Três foram privados de seu poder, Elrond finalmente cansou-se e renunciou à Terra-média para jamais voltar. Mas Arwen tornou-se como mulher mortal, e, no entanto, não era sua sorte morrer antes de perder tudo o que ganhara. “Como Rainha de Elfos e Homens ela habitou com Aragorn por seis vintenas de anos, em grande glória e contentamento; porém, finalmente ele sentiu a chegada da velhice e soube que a duração de seus dias de vida se aproximava do fim, por muito que tivesse sido longa. Então Aragorn disse a Arwen: “‘Finalmente, Senhora Vespestrela, mais bela deste mundo e mais amada, meu mundo se desvanece. Eis! recolhemos e gastamos, e agora se aproxima o tempo do pagamento.’ “Arwen bem sabia o que ele pretendia e por muito tempo o previra; ainda assim foi avassalada pelo pesar. ‘Então pretendes, senhor, deixar antes do tempo o teu povo que vive por tua palavra?’, indagou ela. “‘Não antes do meu tempo’, respondeu ele. ‘Pois, se eu não me for agora, então forçosamente terei de ir-me logo. E nosso filho Eldarion é um homem plenamente maduro para a realeza.’ “Então, tendo ido à Casa dos Reis na Rua Silente, Aragorn deitou-se no longo leito que lhe fora preparado. Ali despediu-se de Eldarion e lhe pôs nas mãos a coroa alada de Gondor e o cetro de Arnor; e então todos o deixaram, exceto Arwen, e ela ficou de pé sozinha junto ao seu leito. E apesar de toda a sua sabedoria e linhagem, ela não conseguiu abster-se de lhe implorar que ainda ficasse mais um pouco. Ela ainda não se cansara de seus dias e assim provou o amargor da mortalidade que assumira. “‘Senhora Undómiel,’ disse Aragorn, ‘a hora é deveras difícil, no entanto, ela foi feita naquele dia em que nos encontramos sob as bétulas brancas no jardim de Elrond, onde já não caminha ninguém. E na colina de Cerin Amroth, quando renunciamos tanto à Sombra como ao Crepúsculo, foi esta a sina que aceitamos. Aconselha-te contigo mesma, amada, e pergunta se de fato queres que eu espere até murchar e cair de meu elevado assento, emasculado e insensato. Não, senhora, sou o último dos Númenóreanos e o último rei dos Dias Antigos; e foi-me dada não apenas uma duração tripla da dos Homens da Terra-média, mas também a graça de partir quando quiser e devolver a dádiva. Agora, portanto, vou dormir. “‘Não te falo de consolo, pois não há consolo para tal dor nos círculos do mundo. A decisão extrema está diante de ti: de te arrependeres e ires aos Portos e carregares para o Oeste a lembrança de nossos dias juntos, que lá hão de ser perenes, mas nunca mais que lembranças; ou então de suportares a Sina dos Homens.’ “‘Não, querido senhor,’ respondeu ela, ‘essa decisão foi tomada há muito. Já não há nau que me leve até lá, e preciso deveras suportar a Sina dos Homens, queira eu ou não: a perda e o silêncio. Mas eu te digo, Rei dos Númenóreanos, que só agora compreendi o relato de teu povo e da sua queda. Eu os desprezava como tolos malvados, mas finalmente tenho pena deles. Pois se esta é de fato, como dizem os Eldar, a dádiva do Uno aos Homens, é amarga de se receber.’ “‘Assim parece’, comentou ele. ‘Mas não nos transtornemos na provação final, nós que outrora renunciamos à Sombra e ao Anel. Com pesar devemos ir-nos, mas não com desespero. Vê! não estamos presos para sempre nos círculos do mundo, e além deles há mais do que lembrança. Adeus!’ “‘Estel, Estel!’, exclamou ela, e com isso, mesmo enquanto ele lhe tomava a mão e a beijava, ele adormeceu. Então revelou-se nele grande beleza, de forma que todos os que vieram ali depois o contemplaram com pasmo; pois viram que a graça de sua juventude, a valentia de sua idade adulta e a sabedoria e majestade de sua velhice estavam mescladas. E por muito tempo jazeu ali, imagem do esplendor dos Reis de Homens em glória que não se turva antes do rompimento do mundo. “Mas Arwen partiu da Casa, e a luz de seus olhos estava extinta, e ao seu povo pareceu que ela se tornara fria e cinzenta como o cair da noite no inverno que vem sem nenhuma estrela. Então ela se despediu de Eldarion, de suas filhas e de todos a quem amara; e saiu da cidade de Minas Tirith e foi-se embora à terra de Lórien, e ali morou a sós sob as árvores que murchavam até chegar o inverno. Galadriel partira, e Celeborn também se fora, e a terra estava em silêncio. “Ali, por fim, quando caíam as folhas do mallorn, mas a primavera ainda não chegara,[<sup>32</sup>] ela se deitou para repousar em Cerin Amroth; e está ali seu verde túmulo, até que o mundo seja mudado, e todos os dias de sua vida estão totalmente esquecidos pelos homens que vieram depois, e elanor e niphredil não florescem mais a leste do Mar. “Aqui termina este conto, tal como nos chegou do Sul; e com o passamento de Vespestrela, nada mais se diz neste livro sobre os dias de outrora.” ## Notas [<sup>1</sup>]Algumas referências são dadas pela página desta edição de O Senhor dos Anéis e da edição em capa dura de O Hobbit. \[N. A.\] [<sup>2</sup>]pp. 352, 865, 1387–88: na Terra-média não restava imagem de Laurelin, a Dourada. \[N. A.\] [<sup>3</sup>]pp. 350, 1016. \[N. A.\] [<sup>4</sup>]pp. 288, 1016. \[N. A.\] [<sup>5</sup>]O Hobbit, p. 76; O Senhor dos Anéis, p. 446. \[N. A.\] [<sup>6</sup>]pp. 338–41. \[N. A.\] [<sup>7</sup>]pp. 509–10, 1016, 1026–27, 1312, 1321. \[N. A.\] [<sup>8</sup>]pp. 105, 278. \[N. A.\] [<sup>9</sup>]pp. 1390, 1395. \[N. A.\] [<sup>10</sup>]p. 340. \[N. A.\] [<sup>11</sup>]pp. 863–64, 1387. \[N. A.\] [<sup>12</sup>]p. 350. \[N. A.\] [<sup>13</sup>]p. 352. \[N. A.\] [<sup>14</sup>]p. 351. \[N. A.\] [<sup>15</sup>]Foi o quarto filho de Isildur, nascido em Imladris. Seus irmãos foram mortos nos Campos de Lis. \[N. A.\] [<sup>16</sup>]Depois de Eärendur, os Reis não assumiram mais nomes em forma alto-élfica. \[N. A.\] [<sup>17</sup>]Depois de Malvegil, os Reis em Fornost voltaram a reivindicar domínio sobre toda Arnor e assumiram nomes com o prefixo ar(a) em sinal disso. \[N. A.\] [<sup>18</sup>]Ver p. 1100. Dizia-se na lenda que o gado selvagem branco que ainda se encontrava perto do Mar de Rhûn descendia do Gado de Araw, o caçador dos Valar, o único dentre eles que vinha frequentemente à Terra-média nos Dias Antigos. Oromë é a forma alto-élfica de seu nome (p. 1211). \[N. A.\] [<sup>19</sup>]p. 277. \[N. A.\] [<sup>20</sup>]p. 298. \[N. A.\] [<sup>21</sup>]Estes são um povo estranho e inamistoso, remanescente dos Forodwaith, Homens de dias longínquos, acostumados às extremas frialdades do reino de Morgoth. Na verdade, essas frialdades ainda se mantêm naquela região, apesar de estarem a pouco mais de cem léguas ao norte do Condado. Os Lossoth habitam na neve e dizem que podem correr sobre o gelo usando ossos nos pés e que têm carroças sem rodas. Vivem, na maioria, inacessíveis aos inimigos, no grande Cabo de Forochel que fecha a noroeste a imensa baía do mesmo nome; mas costumam acampar nas margens meridionais da baía, aos pés das Montanhas. \[N. A.\] [<sup>22</sup>]Deste modo o anel da Casa de Isildur foi salvo; pois foi mais tarde resgatado pelos Dúnedain. Dizem que não era outro senão o anel que Felagund de Nargothrond dera a Barahir e que Beren recuperou com grande risco. \[N. A.\] [<sup>23</sup>]Essas eram as Pedras de Annúminas e Amon Sûl. A única Pedra restante no Norte foi a da Torre nas Emyn Beraid que dá para o Golfo de Lûn. Essa era vigiada pelos Elfos e, apesar de nunca o sabermos, ela permaneceu ali até que Círdan a pusesse a bordo da nau de Elrond, quando este partiu (pp. 95, 178). Mas disseram-nos que ela era diversa das demais e não se acordava com elas; olhava apenas para o Mar. Elendil a colocou ali para poder olhar de volta, com “visão reta”, e ver Eressëa no Oeste desaparecido; mas os mares curvos abaixo cobriram Númenor para sempre. \[N. A.\] [<sup>24</sup>]O cetro era o principal emblema da realeza em Númenor, conta-nos o Rei; e também era assim em Arnor, cujos reis não usavam coroa, e sim portavam uma única gema branca, a Elendilmir, Estrela de Elendil, atada à testa com um filete de prata (pp. 226, 1224, 1241, 1381–82) . Ao falar de uma coroa (pp. 257, 356), Bilbo sem dúvida referia-se a Gondor; ele parece ter-se familiarizado bem com os assuntos concernentes à linhagem de Aragorn. Dizem que o cetro de Númenor pereceu com Ar-Pharazôn. O de Annúminas era o bastão de prata dos Senhores de Andúnië e é agora, quem sabe, a mais antiga obra de mãos humanas preservada na Terra-média. Já tinha mais de cinco mil anos quando Elrond o entregou a Aragorn (p. 1388). A coroa de Gondor derivou-se da forma de um elmo de guerra númenóreano. No começo era de fato um elmo singelo; e dizem que era aquele que Isildur usou na Batalha de Dagorlad (pois o elmo de Anárion foi esmagado pela pedra lançada de Barad-dûr, que o matou). Mas nos dias de Atanatar Alcarin ele foi substituído pelo elmo provido de joias que foi usado na coroação de Aragorn. \[N. A.\] [<sup>25</sup>]p. 330. \[N. A.\] [<sup>26</sup>]pp. 43, 1445. \[N. A.\] [<sup>27</sup>]O grande cabo e o braço de mar cercado de terra de Umbar haviam sido uma região númenóreana desde os dias de outrora; mas eram um baluarte dos Homens do Rei, que mais tarde foram chamados de Númenóreanos Negros, corrompidos por Sauron, que odiavam acima de tudo os seguidores de Elendil. Após a queda de Sauron, sua gente minguou depressa ou misturou-se aos Homens da Terra-média, mas herdaram sem diminuição seu ódio de Gondor. Umbar, portanto, só foi conquistada a grande custo. [<sup>28</sup>]O Rio Rápido. \[N. A.\] [<sup>29</sup>]Essa lei foi feita em Númenor (como soubemos pelo Rei) quando Tar-Aldarion, o sexto rei, deixou apenas uma filha como descendente. Ela se tornou a primeira Rainha Governante, Tar-Ancalimë. Mas a lei era diversa antes do tempo dela. Tar-Elendil, o quarto rei, foi sucedido por seu filho Tar-Meneldur, apesar de sua filha Silmariën ser mais velha. Era, porém, de Silmariën que Elendil descendia. \[N. A.\] [<sup>30</sup>]Este nome significa “Nau da Espuma-longa”; pois a ilha tinha a forma de um grande navio, com proa alta apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin se quebrava em rochas afiadas. \[N. A.\] [<sup>31</sup>]“Dei Esperança aos Dúnedain, não guardei esperança para mim.” \[N. A.\] [<sup>32</sup>]pp. 475–76. \[N. A.\]