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title: Ser antifascista é ser humano
subtitle: um manifesto
author: Lu _Cicerone_ Cavalheiro
lang: pt-BR
date: 2020-06-04 13:25 -0300
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# Ser antifascista é ser humano
Lu _Cicerone_ Cavalheiro[^about]

##  Sobre privilégio e opressão
Não cabe a mim dizer quem é ou não é privilegiado na vida. Sei, apenas, que eu, uma pessoa trans moradora de favela, não estou nessa lista. Se consegui admissão por concurso ao serviço público, se consegui me graduar em uma universidade pública, se moro em uma casa própria, nada disso se deve a uma condição privilegiada – embora, muito certamente, a sociedade "de fora da minha realidade" (aqui no Rio de Janeiro, chamada de "asfalto") vá me usar como propaganda para enaltecer a falácia da meritocracia –, mas a um esforço hercúleo para ascender ao patamar mínimo no qual eu teria igualdade de condições com relação aos demais moradores do asfalto.
Olhar para a realidade de baixo para cima me fez ver o quanto o mundo é desigual. Se você é negro, se você é pobre, se você é mulher, se você não é heterossexual, se você não é cristão, você é visto e tratado como inferior. Você precisará ter mais mérito do que os demais para conseguir as mesmas coisas. O preconceito, a discriminação, a opressão, a intolerância, descem sobre nós como uma bota a pisar em nossos rostos, e é o sonho dourado dessa sociedade que se diz meritocrata que ela nos pise e nos oprima para sempre.
Por que somos oprimidos? A resposta é trivial: somos o outro, somos o diferente, somos o desigual – nossa alteridade é distinta, se quisermos apelar para termos mais técnicos. _Ama teu próximo como a ti mesmo_, para a sociedade meritocrata, parece significar _Ama teu próximo só se ele for igual a ti mesmo_ – irônico, considerando que essa mesma sociedade excludente se diz cristã. Não frequentamos os mesmos lugares, nossos filhos não brincarão juntos, nossos templos não são os mesmos, nossas bandeiras não são as mesmas.
A forma como a sociedade nos trata também é absurdamente diferenciada. Para um filho da classe média alta pego com um simples baseado pela polícia no Rio de Janeiro, um suborno de cinquenta reais muitas vezes é o que bastaria para o incidente ser esquecido por todos os envolvidos. Se eu – favelada, trans e muito tatuada – fosse pega pelos mesmos policiais, minha família demoraria pelo menos uns cinco dias só para saber em qual delegacia eu estaria sendo mantida "detida", caso eu chegasse viva a uma. Onde moro, por essa exata razão, temos mais medo de uma viatura policial parada e vazia na esquina do que de uma malta de traficantes armados até os dentes atirando em nossa direção.
O oprimido tem medo do Estado, o oprimido precisa ter medo do Estado. Eu sou uma anarquista, e espanta-me que isso precise ainda ser explicado, mas farei o meu possível para esclarecer a você, meu caro leitor. Embora a lei diga que ele exista para garantir a isonomia e a igualdade entre os cidadãos, o Estado se move de acordo com a facção majoritária no poder. O Estado segue os interesses dos poderosos, o que, sob o capitalismo, significa as grandes fortunas, os bancos, as grandes empresas, os grandes especuladores – em resumo, quem não é negro, quem não é pobre, quem não é mulher, quem é heterossexual, quem se diz cristão, quem é visto e tratado como superior. Para garantir a manutenção dos interesses e privilégios dos poderosos, é preciso oprimir quem não faz parte dessa casta superior. Também é preciso cooptar aqueles que não são oprimidos mas também não fazem parte da casta superior – a chamada classe média.
##  Sobre fascismo e intolerância ao intolerante
Aí é que entra o fascismo. Sob o disfarce de epigramas como "O Brasil acima de todos, Deus acima de tudo", "O Brasil para os brasileiros", "Fora PT" e até mesmo o "Make America great again" dos gringos, esconde-se um projeto e um plano de governo cujo propósito é empoderar a casta superior em detrimento dos oprimidos, usando a classe média como massa de manobra. Sob a bandeira da força pela união, esconde-se que apenas uma união homogênea pode ser forte, e por isso mesmo o divergente precisa ser excluído, precisa ser oprimido. A classe média, não querendo ser oprimida (compreensível, pois ninguém em sã consciência gostaria ou desejaria ser oprimido), une-se ao opressor para perpetrar a opressão e oprimir no lugar dele, permitindo que a casta superior execute seu plano sem ter que sujar as próprias mãos.
Muitos da classe média se defendem alegando neutralidade, tentando dizer que é possível ou até mesmo necessário tolerar o fascismo e encontrar um ponto de equilíbrio entre as ideias destes e as demais ideias. Mas, como disse Desdemond Tutu sobre o tema, _quando você diz que é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor_. Ser neutro com relação ao fascismo é ser um fascista. Como Karl Popper disse[^citacao_popper] na formulação do hoje famoso _Paradoxo da tolerância_:
> A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. — Nessa formulação, não insinuo, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; desde que possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em xeque frente a opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemos-nos reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos com punhos e pistolas. **Devemos-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante**.
A postura da classe média é terrível, é alarmante. Sob o pretexto de não querer sofrer violência, de não querer ser excluída, de não querer ser oprimida, a classe média se alinha e se torna executora de um programa de governo violento, excludente e opressor. Sob o pretexto de não se tornar um outro, um diferente, ela deixa de ser humana, ela se torna fascista. E fascistas não são seres humanos. Eles são incapazes de amar, de conviver, de tolerar. Fascistas oprimem, são intolerantes, e lidam com todos que se opõem a eles como inimigos que devem ser destruídos pela força da violência, o último refúgio do incompetente[^citacao_hardin].
Opor-se ao fascismo, ser antifascista, portanto, é simplesmente um dever moral de todos os seres humanos. Se você é contra a opressão, se você é contra a discriminação, se você é contra o preconceito, se você é contra a intolerância, você é um ser humano. E como ser humano é opor-se a tudo que o fascismo defende enquanto ideologia ou modo de agir, segue-se necessariamente que ser humano é ser antifascista. Como não é possível existir um antifascista que seja fascista e seres humanos que sejam fascistas, logo a conclusão lógica é que **ser antifascista é ser humano**.
##  Meu manifesto antifascista
Muito me preocupa e entristece saber que foi preciso que um homem fosse brutal e covardemente assassinado por policiais estadunidenses para gerar essa percepção. Estamos tão anestesiados pelo fascismo institucional para que apenas algo tão drástico acordasse o ser humano que há dentro de cada um de nós? Ser antifascista é dever moral do ser humano, mas só agora, quando uma vida foi irremediavelmente perdida para os porcos e bronzes e canalhas que se empoderam por trás de uma farda, de um distintivo, de uma instituição, de um presidente fascista, é que as pessoas se declaram antifascistas? Onde todos esses antifascistas estavam quando da eleição dos fascistas? Quando eles vomitavam suas intolerâncias em público, onde esses antifascistas estavam para rebatê-las?
Como anarquista, faço essas perguntas há anos.
Como anarquista, eu abraço todos os que hoje se dizem antifascistas e os chamo de irmãos e irmãs sob a mesma bandeira vermelha e preta – menos os autointitulados anarcocapitalistas, pois eles são tão fascistas quanto os porcos e bronzes e canalhas que mataram George Floyd.
Como anarquista, eu vejo os fascistas, seres tão incompetentes que são incapazes de ludibriar o povo que governam a fim de que eles não se rebelem, eu vejo os sonhos dourados deles – o liberalismo, a proteção do grande capital, a redução do pobre à semi-servidão – se desmancharem sozinhos, incapazes de se sustentarem na realidade, e sorrio.
Como anarquista, vejo uma luz de esperança no fim do túnel.
Essa luz se chama antifascismo.
De maneira sucinta, ser antifascista é ser humano. Se você é contra a discriminação, se você é contra o preconceito, se você é contra a tirania, se você é contra a opressão, se você é contra a exploração do trabalhador, se você é contra os direitos sem deveres do grande capital, se você é contra os deveres sem direitos do proletariado, se você é contra a falta de dignidade que o capitalismo impõe à vida de incontáveis pessoas – enfim, se você é humano, você é antifascista.
Se você é humano, você repudia toda e qualquer forma de discriminação, de intolerância, de preconceito, de abuso, de violência. Se você é humano, você sabe que todos somos iguais, não importa a cor da pele, a textura do cabelo, a sexualidade, a religiosidade ou a residência. Se você é humano, ao seu redor você vê pessoas iguais a você, não outros. Se você é humano, se você é antifascista, você é meu irmão ou irmã.
Se você não é humano, você é violento. Você discrimina o outro, você nega a alteridade ou a dignidade do outro, você é preconceituoso, você acredita que apenas as pessoas que são como você, que pensam como você, que falam como você, que veneram o mesmo líder semidivino que você, merecem ter direitos. Se você faz isso, você não é humano. Você é fascista. Você é opressor. Você não é meu irmão ou irmã.
Se você não se posiciona sobre a questão, se você acha que é preciso haver um ponto de equilíbrio entre o antifascismo e o fascismo, você é uma pessoa omissa, neutra, isenta. Se você defende tolerar o intolerante, você defende que o intolerante possa destruir a tolerância. Logo, você é tão fascista quanto um fascista. Você defende que se possa oprimir. Você não é humano.
Como um ser humano, repudio veementemente quaisquer atos, ações, ideias ou ideologias que não sejam humanas. Como antifascista, condeno explicitamente toda e qualquer forma de fascismo ou nazismo, seja ele físico, ético, moral, institucional, não importa. Como anarquista, estou aqui para derrubar toda e qualquer forma de fascismo ou nazismo, para garantir que o mundo seja um lugar humano.
###  Antifascismo e RPG
O RPG deveria ser, por definição e por necessidade, o hobby mais inclusivo e antifascista existente. Para que seja possível você explorar e experimentar a vida de uma personagem por algumas horas, é preciso que você esteja em um ambiente seguro para realizar essa exploração. Como um homem cisgênero se interessará interpretar uma personagem feminina se ele souber que será alvo de chacotas? Como um jogador transexual conseguirá jogar se os demais jogadores acreditarem na falácia insana – posto que não apenas não é sustentada pela ciência como é defendida apenas por fascistas e neopentecostais – de que transexualidade é uma "ideologia de gênero"?
Não é, porém, o que verificamos empiricamente. Especialmente entre os jogadores da chamada _velha escola_, a quantidade de fascistoides é assustadoramente grande. _Dungeons and Dragons_, por exemplo, em seu design é um jogo elitista voltado para representação da colonização e subjugação de culturas com fortes elementos de _os grandes salvadores brancos_, e é especialmente atrativo para o homem heterossexual fascistoide por essa razão. A _nova escola_, representada principalmente por _Fate_ e por _Apocalypse World_, também padece desse mal, embora em uma escala muito menor, já que existe uma preocupação intrínseca com inclusividade – para citar o exemplo de _Fate_, a Evil Hat tem como política não tratar de um assunto se ele não puder ser tratado de maneira respeitosa.
Tristemente, os círculos de RPGistas no Brasil são muito tóxicos e povoados por fascistoides. Desde o jogador abertamente bolsonarista até o "isentão" que acha que RPG não é um lugar para discutir política e demais fenômenos sociais, o fascismo impera no nosso meio também. São pessoas que não entenderam a proposta ulterior do hobby: explorar e experimentar a vida de uma personagem de modo inclusivo e seguro. Trazem seus preconceitos, suas intolerâncias e seus discursos de ódio para a mesa de jogo, e estragam a diversão de todos os seres humanos ali presentes.
Citando a chamada _lei de Olivia Hill_: _se você é fascista, RPG não é um jogo para você_. Vá fazer outra coisa da vida. Não estrague a diversão dos demais seres humanos. Quando você virar um ser humano, venha jogar RPG, você será mais do que bem-vindo. Enquanto você for um fascista, porém, mantenha-se longe: RPG não é para você.
[^about]: Servidora pública, escritora, RPGista desde 1997 e parte da equipe do _podcast **FATE Masters**_ desde 2016. Graduada em Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2009.
[^citacao_popper]: POPPER, K. R. _The open society and its enemies_. Oxford: Princeton University Press, 2013. Tradução do trecho citado: Wikipedia. _https://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_da_toler%C3%A2ncia_. Acessado em 2020-06-04 às 12:57. O negrito do trecho citado é de minha autoria.
[^citacao_hardin]: Salvor Hardin, personagem ficcional criado por Isaac Asimov na aclamada _Trilogia da Fundação_. Prefeito de Terminus, cunhou esse epigrama e agiu com base nele por pelo menos duas vezes no romance.