Economia Brasileira Contemporânea === {%hackmd theme-dark %} ###### Primeira parte [Segunda parte](https://hackmd.io/@hayko/ebc1 "Conteúdo da segunda prova") ###### tags: `UFSC` `EBC` [Apresentação - EBC ](https://docs.google.com/presentation/d/1LmO21hu7TMkFWou1HKx-cKhfBARCItFw8_bJqQIpXak/present?token=AC4w5VhpkxYRPGYB66kqHNbLCLjYAr-Gyw%3A1562260697455&includes_info_params=1&eisi=CPzmrM_im-MCFUZGgQodIZsB-Q#slide=id.p "Apresentação") [Artigo escolhido - EBC ](https://drive.google.com/file/d/1TL-jW8KAECSMP4vpM6ZXYXQeKD39iPHW/view "Artigo") # Características estruturais da economia no pós guerra e o progresso de industrialização ## 1900-1950 - Crescimento acelerado: 4,8% ao ano (média). (9,7 x) - Porém: País ainda é relativamente pobre. - PIB per capta: 2,5% a.a.(média) (3,3 x) - 15% da renda per capta dos EUA. - Abaixo de Argentina, Venezuela, México, Colômbia. - Menor escolaridade média da América Latina. ## 1950-1980 - Crecimento ainda maior 7,4% a.a. e 4,5% a.a. para PIB per capta. - Crecimento viabilizado por significativa tranformação estrutural -> recursos transferidos da agricultura para indústria - ==urbanização==. - Desenvolvimento pós 2^a^ Guerra centrado na ==Industrialização por Substituição de Importações== (ISI), assim como já ocorrera em períodos anteriores. A participação do Estado no processo é crescente. ### Notas sobre a ISI *[ISI]:Industrialização por Substituição de Importações - Causa geral: desequilíbrios externos, que geram escassez de divisas. Governo restringe importações -> proteção à indústria nacional. - À medida que a produção e a renda crescem, a demanda se eleva, tendendo a aumentar também as importações -> possível novo desequilíbrio. - No caso brasileiro, a ISI é caracterizada por etapas (dos setores industriais/prioridades): 1. Bens de consumo não durável (têxteis, alimentos, etc). 2. Bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, automóveis, etc). 3. Bens intermediários (ferro, aço, petróleo, etc). 4. Bens de capital (máquinas e equipamentos). ##### Importações de manufaturados (% da oferta total) |Ano| Bens de Consumo Não Durável|Bens de Consumo Durável| Bens de Produção Intermediários | Bens de Produção Capital| Total | |:-:|:-:|:-:|:-:|:-:|:-:| 1949|3,7%|64,5%|25,9%|63,7%|19%| 1955|2,2%|10%|17,9%|43,2%|11,1%| 1959|1,1%|6,3%|11,7%|32,9%|9,7%| 1964|1,2%|1,6%|6,6%|9,8%|4,2%| - #### Problemas comuns da ISI no Brasil: 1. Tendência ao desequilíbrio externo: políticas cambiais deslocam recursos da agricultura para indústria (exemplo: "Confisco cambial"), especialmente para a indústria sem competitividade externa (dado o protecionismo). Além disso, a elevação da renda eleva a demanda por importações. 2. Aumento da participação do Estado em diversos âmbitos: arcabouço institucional-regulatório, criação de infraestrutura básica, fornecimento de insumos, captação e distribuição de poupança. Isso pode levar a relações clientelistas e rent-seeking. 3. Aumento da concentração de renda: êxodo rural conjugado com geração insuficiente de postos industriais, lucros substantivos derivados do protecionismo. 4. Escassez de fontes de finaciamento: setor financeiro pouco desenvolvido. 5. Tendência inflacionária: protecionismo -> menor concorrência -> maiores preços. > Na economia, **rent-seekink** ou busca de renda é uma tentativa de obter renda econômica pela manipulação do ambiente social ou político no qual as atividades econômicas ocorrem, em vez de agregar valor aos produtos. [color=blue] - Entre 1950 e 1980 o crescimento da renda per capta praticamente coincide com o do produto por trabalhador. - Isso está associado a uma estabilidade da taxa de participação da força de trabalho no período. - Após 1980 a renda per capta passa a crescer mais do que a produtividade, o que está associado a transição demográfica do período, com elevação da proporção de pessoas em idade de trabalho (bônus demográfico). Além disso, a participação feminina na força de trabalho aumenta. - Ferreira e Velloso (2003) fazem uma decomposição do crescimento do produto por trabalhador (y) em capital por tabalhador (k), capital humano por trabalhador (h) e Produtividade Total dos Fatores (A). $$ y = A.k^{\alpha}.h^{1-\alpha} $$ *[PTF]: Produtividade Total dos Fatores - De 1950 a meados de 1970, a PTF é a principal responsável pelo crescimento da produtividade, especialmente nos anos do "milagre". - Após estagnar na segunda metade dos anos 70, a PTF passa a cair a partir dos anos 80. - Já o capital por trabalhador (k) cresce e gradativamente entre 1950 e 1960, e acelera entre 1970 e 1980, depois estagnando. - O capital humano (h) só cresce mais aceleradamente a partir de 1980. Decomposição do crescimento do produto por trabalhador (% médio ao ano): | Época | y | k | h | A | |:-------:|:---:|:---:|:---:|:---:| |1950-1968|4,0% |1,7%|0,8%|1,5%| |1968-1973|7,1% |2,0%|0,1%|5,0%| |1973-1980|3,4% |2,5%|0,2%|0,7%| |**1950-1980**|4,4%|1,9%|0,5%|1,7%| |**1980-2009**|-0,6%|0,1%|1,2%|-1,9%| > [name=A escolaridade média nos anos 50 era de 1,5 anos e nos 80 de 2,5 anos] - Grande parte do crescimento da PTF entre 1950 e 1980 se deve a mudança estrutural, onde a agricultura perdeu espaço para a indústria. *[PAEG]: Programa de Ação Econômica do Governo - A medida que essa mudança se consolida, tal fonte de crescimento da PTF esgota. - As reformas realizadas no âmbito do Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) entre 1964 e 1967 provavelmente também tiveram contribuição importante (Velloso, Villela e GIambiagi; 2008). - Dentre as principais reformas do PAEG estão o ajuste fiscal, a reforma tributária, a reforma do sistema financieiro, a maior abertura comercial e financeira com o exterior. *[PND]: Plano Nacional de Desenvolvimento - Ao longo da década de 70, especialmente com o II PND, as intervenções aumentam e a economia torna-se mais fechada. - Foram implementadas diversas barreiras à importação de bens de capital e intermediários, e as empresas estatais aumentaram sua participação nesses segmentos. - Dependencia de importar bens de capital se reduziu, mas por outro lado, essa é uma importante fonte de ingresso de tecnologias produtivas. - Nos anos 80 esse cenário se agrava, por exemplo, com a Política Nacional de Informática, que criou uma reserva de mercado no setor e tornou o preço interno de computadores muito mias caro do que o internacional. # Crescimento com endividamento externo nos anos 70 - Um dos fatos marcantes da economia brasileira na década de 70 diz respeito ao crescimento substantivo do endividamento externo e da estatização deste. - Em 1969 a dívida externa era de US\$4,4 bilhões. Esse valor passa para US\$12,6 bilhões em 1973, US\$26 bilhões em 1976 e US\$49,9 bilhões em 1979. - No início da década de 70, ==1/4== dessa dívida era estatal. Ao fim da década, eram ==3/4==. - Tal dinâmica está associada à conjuntura pós 1^o^ Choque do Petróleo e ao II PND. > <i class="fa fa-eye fa-fw"></i> O impacto referente ao Choque do petróleo percebido pós 1973 e do II PND pós 1974, contudo, antes já se verificava aumento do endividamento com o "milagre". - Após o "milagre" (1968-1973) o país encontrava-se em situação de maior vulnerabilidade externa: ++petróleo + bens de capital + dívida.++ - Com a crise do petróleo (preço do barril passa de aproximadamente US\$3,00 para US\$12,00 entre outubro de 1973 e março de 1974), a vulnerabilidade externa se torna um grave problema. - Por outro lado, passa a existir abundância de recursos financeiros externos, devido ao crescimento dos petrodólares. - Diante desse cenário, o II PND, lançado em 1974, procurava promover um ajuste estrutural, avançando na ISI, sobre tudo em bens de capital, petróleo, energia, bens intermediários e infraestrutura. - O financiamento de longo prazo viria da esfera pública (BNDE) destinado ao setor privado, e do setor externo, destinado às estatais. ><i class="fa fa-eye fa-fw"></i> Crescimento Marcha Forçada. - A atuação desse "Estado-empresário" ajudoou a preencher lacunas do setor industrial, mas ao mesmo tempo, legou maior vulnerabilidade pelo canal da dívida externa. - Com a segunda crise do Petróleo, em 1979 o cenário externo se reverte novamente. De janeiro de 1979 a maio de 1980, o preço do barril passa de US\$14,85 para US\$39,50. - As taxas de juros internacionais se elevam significativamente. Nos EUA, a prime rate, que era de 7,8% a.a. em 1977, passa para 15,3% a.a. em 1979 e 21,5% a.a. em 1980. - O impacto sobre a dívida externa, quase toda contratada a juros flutuantes foi marcante: a despesa com juros passa de US\$2,7 bilhões em 1978 para US\$4,2 bilhões em 1979, US\$6,3 bilhões em 1980 e US\$9,1 bilhões em 1981. - O serviço total da dívida (juros+amortizações) passa de US\$7,9 bilhões em 1978 para US\$18,3 bilhões em 1982 (de 4% para 7% do PIB). - O valor total da dívida passa de US\$49,9 bilhões em 1979 para US\$70,2 bilhões em 1982. - O déficit da conta corrente vai de US\$7 bilhões em 1978 para 16,3 bilhões em 1982. - Isenções fiscais, subsídios e reajustes de preços públicos abaixo da inflação agravam o quadro fiscal, o que leva ao aumento de emissão de títulos da dívida (dívida interna: 9,1% do PIB em 1976 para 11,8% do PIB em 1979). - Inflação cresce no período: de uma média de 19,1% a.a. no "milagre", passa para 44,5% a.a. entre 1974 a 1979 (chegando a 77,2% a.a. 1979 e 110,2% a.a. em 1980). # Governo Figueiredo: 1979 a 1985 ## 1979-1982 - Assim como seu antecessor, Geisel, João Figueiredo assume o compromisso com a abertura política. - Mário Henrique Simonsen, Ministro do Planejamento, busca um ajuste ortodoxo, especialmente com controle da demanda e dos gastos do governo. - Tais medidas são impopulares. Simonsen é substituído por Delfim Neto em agosto de 1979. - Se agosto de 1979 a outubro de 1980, Delfim persegue uma política heterodoxa, procurando reeditar o "milagre" e controlar a inflação com crescimento. - Medidas: controle dos juros, reajuste corretivo das tarifas públicas, desvalorização de 30% do Cruzeiro (Em dezembro de 1979), prefixação da correção monetária e cambial em 50% e 45% respectivamente, para 1980, instituição da semestralidade dos reajustes salariais. - De modo geral, essas medidas ignoravam a gravidade da crise externa e não apresentaram bons resultados. - A inflação acelera em função do reajuste das tarifas, da desvalorização cambial e da semestralidade dos reajustes salariais. - Além disso, a pré fixação da correção monetária leva a uma fuga de ativos financeiros. - Crise de confiança+elevado juros externos=pouca capacidade de refinanciar a dívida. - Reversão da política em fins de 1980. - Volta se a um receituário ortodoxo: controle da demanda, vista como causa da inflação é dos desequilíbrios externos -> ajuste voluntário ( sem recorrer ao FMI) - Ao mesmo tempo em que se procura conter as importações, as exportações são estimuladas. - Medidas: contenção salarial, controle de gastos públicos, elevação da arrecadação, contração monetária, tratamento especial ao setor agrícola, exportador, pequenas empresas. - Impacto significativo sobre o PIB de 81: queda de 4,3%. Na indústria: -8,8%. - Inflação: impacto mínimo: 95,2%. - Por outro lado, a Balança Comercial passa de - US\$2,8 bilhões em 80 para US\$1,2 bilhões em 81. - Conta de juros, porém, cresce US\$2,8 bilhões. - Déficit na conta corrente cai apenas de US\$12,7 bilhões para US\$11,7 bilhões. - Em 82 a situação pior: saldo comercial se reduz ( US\$780 milhões) - Juros da dívida seguem crescendo (+2,2 bi.) e déficit corrente aumenta para US\$16,3 bilhões. - Cada vez mais difícil obter financiamento e governo não quer recorrer ao FMI (eleição seria em 3 dias). - Moratória do México em agosto de 1982. Outros países da América Latina, África e Leste Europeu seguem -> Setembro Negro. - Outubro de 1982 - governo elabora documentos se comprometendo a obter superávit comercial de US\$6 bilhões. Em 1983 -> base para acordo com o FMI, só feito após eleições. - Ao fim de 1982 o PIB cresce apenas 0,8% e fica estagnado na indústria. - Inflação 99,7%. ## 1984-1985 - Metas definidas com FMI para 1983: - Déficit máximo na conta corrente de US\$6,9 bilhões. - Superávit comercial de US\$6 bilhões. - Inflação de 78% com corte de gastos do governo. - Desvalorização mensal do câmbio: inflação + 1%. - Medias do governo: - Desindexação parcial dos salários, que se reduz, em termos reais, em 15% no ano. - Politica cambial: desvalorização de 30% do Cruzeiro, e depois trimestralmente nica acima do IGP-DI. - Metas externas alcançadas graças à: - Recessão interna; - Queda dos salários; - Desvalorização cambial; - Queda do preço do petróleo; - Queda dos juros internacionais; - Bom desempenho da economia dos EUA; - Resultado: - Superávit comercial: US\$6,5 bilhões. - Déficit conta corrente: US\$ 6,8 bilhões. - No cenário interno, porém, o desempenho é diferente: a inflação foge do controle, especialmente pela desvalorização cambial e pelos preços agrícolas. - Fatores que afetaram preços agrícolas: - Estímulos às exportações; - Impacto cambial sobre isumos; - Efeitos climáticos; - Restrição de crédito. - Resultado: - Índice de preços agrícolas: +335,8%. - IGP-DI: +211%. - Inflação acelerada => comprometimento das metas nominais do governo (dada a indexação da dívida pública). - Isso gera incompatibilidade com o FMI, cujos conceitos financeiros não estavam adaptados a cenários de inflação tão elevada. - Governo cria, então, o conceito de resultado operacional: $$ Resultado Operacional = Resultado Nominal- Correção Monetária e Cambial $$ - Esse conceito permite distinguir duas fontes de ncessidade de financiamento do setor público: - Excesso de despesas sobre receitas. - Aumento da dívida decorrente da indexação. - Pelo novo critério, déficit público se reduz de 6,2% do POB em 1982 para 3% em 1983, graças, sobretudo, a cortes de investimento das estatais. - PIB em 1983 = -2,9%; - PIB~industrial~ = -5,9% > PIB~industrial~ já havia caído bastante em 1981.[color=red] - Periodo 1981 a 1983: pior recessão industrial da história brasileira * Ainda mais intensa no setor de bens de capital: retração acumulada de 55%. - Renda real per capta entre 1981 a 1983: -11% - A partir de 1984 a restrição externa reduz mais significativamente. - Dentre os motivos: bom desempenho dos EUA e do comércio global. A ártir do 1^o^ trimestre, as exportações de aço crescem 40%. - Atividade industrial começa a se recuperar, tanto para atender exportações quanto o setor agrícola, cuja renda se elevou com altos preços anteriores. - No ano, a produção industrial crsceu 6,3%. A indústria de extração mineral se sobressao crescendo 30,5%, graças a produção de petróleo. - A expansão da produção de pretróleo mais a ==redução de seu consumo relativo==, levam a participação da oferta doméstica no consumo subir de 21% em 1981 para 42% em 1984. > Aumento da produção por conta do II PND [color=orange] - Isso mais a ==redução nos preços do petróleo== significou redução de US\$4 bilhões nas importações (28% do total de importações no ano de 1984). - Dentro da indústria de transformação, se destacam: - Bens de consumo duráveis: -7,5% - Bens de capital: +14,8% - Reajustes salariais da indústria ficam acima do estipulado em lei. - PIB: +5,4% - Recuperação das lavouras colabora, mas ==não reduz a inflação== -> sinais de ==indexação==. > Dinâmica de inércia inflacionária. [color=red] - Preços agrícolas atrelados ao câmbio, que é atrelado à inflação. - Inflação IGP-DI: 223,8%. ### Inércia inflacionária - Trabalhos procuram entender a mecânica da chamada "inércia inflacionária" e como combatê-la. - Pérsio Arida e André de Lara Resende (1985) propõem uma "moeda indexada", paralela e em paridade com as ORTN (ou dólar). A desindexação seria obtida com a indexação total da economia. > PROPOSTA LARIDA [color=purple] - Francisco Lopes (1984) por sua vez, propunha um "choque heterodoxo", com a eliminação imediata de todas as indexações e congelamento temporário de preços, salãrios e câmbio. - Essas propostas tendiam a ignorar a existência de conflitos distributivos de renda em relaçao ao processo inflacionário. - No entanto, serão aplicadas em diferentes graus/versões posteriormente. - Setor externo: - Superávit comercial: US\$13,1 bilhões (supera meta com FMI em US\$4 bilhões). - Exportações crescem de US\$21,9 bilhões em 1983 para US\$27 bilhões em 1984. - Saldo de conta corrente: US\$95 milhões (ante -US\$6,8 bilhões em 1983). - Ajuste externo bem sucedido do ponto de vista do reequilíbrio da conta corrente. - Porém: aspecto estrutural muito limitado. - Quadro fiscal segue piorando, especialmente com atrasos de correção de preços públicos (potenciais perdedores do processo inflacionário repassam ônus para o governo). # Governo Sarney: 1985-1990 ## Planos de combate à inflação - 1984: "Diretas Já" -> demanda por eleições diretas para presidente. Não é aprovado pelo governo. - Janeiro de 1985 - Eleições indiretas. Tancredo Neves (PMDB) vence Paulo Maluf (PDS). - Março~Abril/1985: Tancredo adoece antes da posse e falece. Assume José Sarney (PFL) assume. - Quadro econômico: crescimento, setor externo estável, ==inflação== elevada. - Governo inicia com políticas ==ortodoxas== de caráter ==gradualista== para combater a inflação. Para tanto, promove ==austeridade fiscal== e ==aperto monetário==. - Sendo políticas de médio prazo, para o curto prazo o governo promove o ==congelamento de preços== e tarifas, em abril. - Essas políticas eram lideradas pelo ministro da Fazenda, Francisco Dornelles. - A equipe econômica, porém, era heterogênea. No Planejamento estava João Sayad, de perfil heterodoxo. - Inicialmente o controle de preços dá resultado: inflação cai de 12,7% em março para 7,2% em abril. - A partir de junho, porém, vários preços passam a receber reajustes. Ao mesmo tempo, ocorre um choque de oferta agrícola. A inflação sobre para 14% em agosto (era 8,9% em julho). - Dornelles acaba sendo substítuido por Dilson Funaro, mais afeito às ideias ==heterodoxas==. - Ao fim do ano adotam-se medidad para ==recuperar arrecadação== (meta fiscal para 1986: déficit de 0,5% do PIB). - PIB: 7,9% - ampliação da capacidade da indústria / Inflação: 235% (mas acelarando no fim do ano). ### Plano Cruzado - 18/02/86: Lançado o Plano Cruzado. - O Plano mudava a moeda nacional, do Cruzeiro, à paridade de Cr\$1000 para Cz$1. (Mil cruzeiros equivalem 1 cruzado).. > Choque Neutro - não deveria haver impacto no sistema distributivo de renda.[color=green] - Dentre as medidas do Plano, destacam-se: - Política Salarial: salários convertidos para Cruzado tendo como base a média do poder de compra dos últimos 6meses, corrigidos a preços diferente. Em cima desse valos, concedeu-se um adicional geral de ==8%== (e ==16%== para salário mínimo). - Os reajustes seriam anuais, por ==dissídios coletivos== com base em 60% da variação acumulada da inflação. Ainda, haveria o "gatilho salarial": realuste automático se a inflação acumular 20%. - ==Congelamento de preços==: exceto pelas tarifas de energia (reajustado em 20%), todos^*^ os preços foram congelados ao nível de 27/2/86 por prazo indeterminado. Isso fez com que o preço em varios setores ficassem defasados em relação aos custos (especialmente preços públicos). A base do índice de preços se deslocou para 28/02 para evitar "==contaminação==". - Política cambial: câmbio fixado ao nível de 27/02, Cz$13,8 equivalendo US\$1. - Desindexação de ativos financeiros: ORTN foram extintas. Criados as OTNs, com valores congelados por 1 ano. Proibida indexação de contratos com períodos inferiores a um ano (exceto poupança). Contratos ==pré-fixados== em cruzeiros seriam reajustados diariamente em 0,45% (Tablita), média da inflação diária dos últimos 3 meses, para evitar transferências de renda de devedores para credores. - Plano Cruzado não definiu ==metas== ou ==regras== monetárias ou fiscais. Essas políticas deveriam ser conduzidas de acordo com o ==discernimento== de seus formuladores. - Implicitamente, a política monetária deveria ==acomodar== o aumento de demanda por moeda decorrente do plano (estabilidade), utilizando a ==taxa de juros== como controle. - O Cruzado teve um sucesso inicial muito grande. A inflação mensal, em torno de 15% a.m. em fevereiro, caiu rapidamente, com uma ligeira deflação em março, e taxas em torno de 1% a.m. nos meses seguintes. - Isso foi possível graças ao congelamento, que passou a contar com grande apoio popular. > :bulb: Fiscais do Sarney - a população se prontificava a fiscalizar o controle de preços praticado nos estabelecimentos comerciais denunciando às autoridades quando havia reajuste de preços. [color=orange] - Seguiu-se uma ==aceleração do consumo== dos salários, à queda do desemprego e às baixas taxas de juros. - A política monetária acabou reforçando esse movimento, expandindo a ==oferta de moeda==, acima da demanda inclusive. As taxas de ==juros reais== chegaram a ser ==negativas==. - Crescimento mais congelamento de preços é igual pressão sobre produtos com ==preço defasado== em relação ao custo de produção. - Produtos como leite, automóveis e carne foram as primeiras a sofrerem desabastecimento -> surgimento de filas e ==ágios== (mercados paralelos onde existia o reajuste de preço mas que não eram mensurados). - Ofertantes passam a encontrar alternativas para escapar do congelamento, como a "maquiagem" de produtos (mudanças em embalagens, especificações, etc). - Bens não controlados, como vestuário e automóveis usados apresentam uma inflação de 4% a 5% ao mês. - O governo procurou combater a escassez com isenções, subsídios, liberaão de importações de produtos alimentícios, etc. - Isso agrava o quadro fiscal. O governo passa a projetar um défict de 2,5% do PIB (ante meta de -0,5%). - Nas contas externas, as taxas de juros negativas propiciam a fuga de ativos financeiros (outros destinos: Bolsa de Valores, dólar paralelo). - Restava ao governo duas opções: encerrar congelamento ou desacelerar a economia. - Optou-se pelo segundo, modestamente. - É lançado, então, o "Cruzadinho", em 24/7, um pacote fiscal para desacelerar o consumo e financiar o governo e investimentos públicos, visando crescer 7% ao ano. - Foram criados impostos sobre gasolina, automóveis e passagens aéreas internacionais. Porém o aumento desses preços foi desconsiderado do cálculo da inflação. - Essa decisão estava associada com a proximidade das eleições gerais (15/nov), que também definia a Assembleia Constituinte (fev/87). - Inflação oficial reflete cada vez menos a inflação real. Ágio e desabastecimento proliferam. - Contas externas pioram: fuga de capitais, antecipação de importações, atraso de exportações. Conta Corrente encerra o ano com défiti de US\$5,3 bilhões. - 15 de novembro: Eleições gerais, com ampla Vitória do PMDB, elegendo: - 22 dos 23 Governadores; - 38 dos 49 Senadores; - 260 dos 487 Deputados Federais. - 21 de novembro: Governo anuncia novo pacote fiscal: ==Cruzado II==. Foram reajustados vários preços públicos (gasolina, energia, telefone) e elevados impostos indiretos (automóveis, cigarros e bebidas), visando elevar arrecadação em 4% do PIB. - Cruzado II gerou forte impacto inflacionário. Governo novamente tentou remover efeitos do cálculo oficial da inflação, mas recuou após protestos. - Governo cria nova ponderação para cálculo da inflação, para reduzir impacto dos reajustes. - Também limita reajuste do gatilho salarial a 20%, com a diferença sendo concedida no reajuste seguinte. - Inflação acelera no fim do ano: 3,3% (nov.) P/ 7,3% (dez.). - No ano, IGP-DI acumula 65%. - PIB avança 7,5%. - 1° gatilho salarial é acionado em janeiro de 1987, pela inflação acumulada de março a dezembro de 86. - Porém, no mesmo mês a inflação já atinge 16,8%, corroendo o reajuste. - Novas pressões populares levam governo a liberar quase todos os preços em fevereiro. - ORTNs são corrigidos, e é reintroduzida a correção monetária mensal. - Com isso e com reajustes salariais automáticos (e + frequentes), a economia se torna + indexada do que antes do plano. - O governo passa adotar uma política monetária restritiva, elevando juros. - Isso, combinado com queda do poder de compra, aumento da incerteza e desestruturação da produção, leva a um desaquecimento da economia. - Nas contas externas, observa-se sucessivos déficits na balança comercial nos últimos meses de 86 e nos primeiros de 87, reduzindo rapidamente as reservas cambiais. - Como consequência, o governo declara moratória da dívida externa em fevereiro de 87, por prazo indeterminado. - Em abril de 87, inflação atinge 21%, e Dílson Funaro deixa a Fazenda. - Em seu lugar, assume Luís Carlos Bresser-Pereira. - Bresser inicia sinalizando práticas ortodoxas: desvaloriza o câmbio em 7,5%, promete austeridade fiscal, e projeta crescimento de 3,5% para o ano (ante meta anterior de 7%) - Porém, Bresser já havia declarado antes simpatia por abordagens mais heterodoxa, o que levava os agentes econômicos a anteciparem novo congelamento. - 12/06/87 - Anunciado o plano Bresser: elementos ortodoxos + heterodoxos visando evitar a hiperinflação, reduzir o déficit público e acabar com o gatilho salarial ### Plano Bresser - Objetivos: -- Evitar hiperinflação, -- Reduzir indexação, -- Reduzir déficit público. - Medidas: -- Congelamento de salários por 3 anos ao nível de 12/06 (em maio ocorreu um reajuste de 20% pelo "gatilho"). -- Congelamento de preços por 3 meses (preços públicos foram reajustados antes do plano). -- Desvalorização do câmbio em 9,5% com mini desvalorizações diárias na sequência. -- Criação de uma nova base de correção salarial, a Unidade Referencial de Preços (URP), que entraria em vigor após o congelamento. A URP seria calculada a cada 3 meses, definindo o percentual de reajuste para os 3 meses seguintes pela média geométrica da inflação dos 3 meses anteriores: $$ URPset-nov= \sqrt[3]{(I~junho~.I~julho~.I~agosto~)} $$ -- Política monetária ativa: manutenção da taxa de juros reais positiva. -- Política fiscal: aumento de receitas e corte de subsídios para reduzir déficit projetado de 6,7% do PIB para 3,5%. -- Em julho também é anunciado o Plano de Controle Macroeconômico, visando recuperar a capacidade de poupança do governo até 1991, através de cortes adicionais de gastos, reajuste de tarifas e reforma tributária. - Nos primeiros meses a inflação foi reduzida de 21,4% em junho para 3% e 6,4%, em julho e agosto respectivamente. - Com a ==redução do poder de compra dos salários== e a ==elevação dos juros==, a economia desacelerou (especialmente na indústria). - As exportações tiveram bom desempenho: déficits anteriores na Balança Comercial logo viraram superávits. - Permaneciam, porém, ==conflitos distributivos==, especialmente entre ==preços e salários==, e setor público e privado. - Esses conflitos geram pressões pelo ==descongelamento==. - Já em agosto o governo decide o grupo de preços controlados, e permitir reajustes de até 10%. - Isso reforça demandas por reajustes salariais acima do definido pela URP (4,7%), o que acaba ocorrendo em vários setores, inclusive dentro do governo. - Com isso o Plano fracassa no combate à inflação, que volta a acelerar nos últimos meses de 1987. - No lado do déficit público, o governo também fracassou, especialmente devido aos reajustes do funcionalismo, mas também por aumentos de repasses para Estados e Municípios, bem como subsídios para estatais. - Com isso, em dezembro de 1987, Bresser pede demissão. Em seu lugar assume Maílson da Nóbrega. - 1987 PIB:3,5% IGP:415,8% - Durante 1988 o novo ministro segue políticas econômicas mais ortodoxas, com metas modestas e rejeitando a opção por um "Choque Heterodoxo". - A meta era estabilizar a inflação em 15% ao mês e reduzir o déficit projetado de aproximadamente 7,8% para 4% do PIB. - Seria a política do "feijão com arroz". - Para tanto, os saldos dos empréstimos ao governo foram temporariamente congelados, os reajustes salariais foram interrompidos por 2 meses. Além disso, foi reduzido o prazo de recolhimento do I.R. e do I.P.I.(a distância temporal entre o fato gerador e o recolhimento do imposto corroía as receitas do governo e era conhecido como Efeito Tanzi). - Em janeiro de 1988, o governo encerra a moratória da dívida externa. - Metas da política do "feijão com arroz": inflação mensal de 15% e déficit operacional de 4% do PIB. - Ao longo do 1^o^ semestre de 1988 a inflação se mantém acima dos 15% mas abaixo dos 20%. - A partir de julho, porém, as taxas superam 20% a.m., especialmente devido ao reajuste de preços administrados. - No último trimestre, as taxas se aproximam de 30% a.m.. - A partir de outubro há o impacto da nova ==Constituição==, especialmente sobre as ==contas da União==. - Aumentam as ==vinculações de receitas==, gastos são ==ampliados== e se tornam mais ==rígidos==. - Além disso, há o aumento de ==transferências== para ==Estados== e Municípios (sem contrapartida nas obrigações) e o preço da ==mão de obra aumenta==. - Ao fim de 1988, o déficit operacional foi de ==4,8%== do PIB. - Por outro lado, a ==inflação== caminhava para o dobro da meta. - Em novembro, o governo procura um acordo de compromisso junto com empresários e trabalhadores para reduzir as repasses da inflação para preços e salários. - No ano, a inflação encerra em 1037,6%. O PIB cai, -0,1%. ### Plano Verão - Cruzado Novo - Em 14/01/1989 é anunciado o Plano Verão, alterando a moeda para o Cruzado Novo, à paridade de ==NCz$ 1 = Cz$ 1000==. - O Plano continha elementos ortodoxos e heterodoxos. - Do lado ortodoxo, políticas contracionistas: aumento de ==juros== e corte de gastos. - No lado heterodoxo, suspensão ou extinção de mecanismos de ==indexação==, inclusive URP. - Os salários foram convertidos para a nova moeda utilizando como base a média do poder de compra dos últimos ==12 meses== mais o valor da URP préfixado para janeiro (==26,1%==). - A partir disso, salários seriam livremente negociados, até que um novo projeto fosse criado para definir os reajustes. - Preços foram ==congelados== por prazo indeterminado. Diversos preços ==públicos== foram reajustados na véspera. - A cotação do câmbio foi ==fixada== em ==NCz$ 1 = US\$ 1==, após o Cruzado ser desvalorizado em 18%. - As OTNs, que indexavam contratos pós-fixados, foram extintas, e os contratos foram ==congelados== ao nível de ==1^o^de janeiro==, desconsiderando a inflação entre 1 e 14 de janeiro. Isso beneficiou devedores (principalmente o Estado), às custas de credores. - A ideia do Plano era produzir 2 a 3 meses de inflação baixa, sem indexação, para induzir os agentes a ampliar o prazo de reajustes em regras posteriores de indexação. - Em fevereiro de 1989 a inflação foi de 3,6% e em março de 6,1%, acima do esperado pelo governo. - O ajuste fiscal não ocorreu, e o governo procura conter a demanda apenas com juros reais elevados (aproximadamente 15% em fevereirto e março). Isso agrava o ==desequilíbrio fiscal==. - A falta de credibilidade do ajuste levava as pessoas anteciparem o ==consumo==. - A partir de abril o governo começa a reindexar a economia. - É criado o Bônus do Tesouro Nacional (BTN), substituindo as OTNs e corrigido ==mensalmente==. - A partir de maio se permite reajustes de vários preços: ==tarifas públicas==, ==setores competitivos==, ==combustíveis== e ==automóveis==. - No 2^o^semestre de 1989 a inflação ganha força, acelerando para 29,3% em agosto, 37,6% em outubro e 53,3% em dezembro. - No ano, IGP-DI acumulou 1782,9%. - Nos primeiros meses de 1990 as taxas seguem crescendo, atingindo ==84%== em março quando acumulou ==4800% em 12 meses==. - De maneira geral, os Planos Cruzados, Bresser e Verão conseguiram conter a inflação apenas brevemente, sem solucionar problemas ==estruturais== da economia. - Desequilíbrio fiscal aumentou no período. Déficit operacional atinge 6,9% do PIB em 1989. - Na maior parte do tempo a política monetária foi acomodatícia. - ==Agentes econômicos, especialmente produtores, se adaptaram aos congelamentos, antecipando reajustes e operando em mercados paralelos==. > :bulb: Para barrar a inflação inercial, era necessário conter mecanismos de indexação de preços, ou conter demanda. O congelamento de preços induz a antecipação de demanda. Logo o próprio congelamento de preços atrapalhava a política econômica. [color=gold] - Aumento da incerteza e baixa poupança prejudicaram investimentos. - Entre os anos de 1985 e 1989, PIB cresceu 4,4% ao ano em média. - Entre os anos de 1980 e 1989, PIB cresceu 2,9% ao ano em média. - Entre os anos de 1980 e 1989, a indústria cresceu 2,0% ao ano em média. - Entre os anos de 1980 e 1989, a renda per capta cresceu 0,9% ao ano em média. - Baixo crescimento colaborou para obter ==superávits comerciais==, que também são impulsionados pelo crescimento do comércio mundial. - Graças a isso, o estoque da dívida externa se reduz em 1988 e 1989, pela primeira vez desde 1982.