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# O passado dos Bieberaus - Um conto na cidade de Fair Leaves
_"Vamos lá, Hugh! Tem que ir a turma toda, ou o McHog vai ficar caçoando de todos nós até o Halloween!"_ disse a pequena ovelha Sara, enquanto ela via Hugh, em seus pijamas, olhando para os lados de maneira assustada. Ele estava olhando ao redor para ver se ninguém percebia Sara arrombando a porta dos fundos da antiga Mansão Bieberaus. Uma estripulia que a Turma estava fazendo, e uma realmente perigosa.
_"Mas aqui é realmente muito escuro e assustador!"_ disse Hugh Hedginger, o garoto mais novo da Turma, observando as ruas escuras da cidade durante a noite, suas cerdas de porco-espinho na cabeça eriçadas de medo. Ele só entrou para a Turma recentemente, depois de vir do Kansas. Juntos já viveram várias aventuras divertidas (e assustadoras). É graças à Turma que a família de Hugh, os Hedginger, conseguiu pagar a hipoteca da fazenda onde eles vivem para o Sr. McHog, pai do pior garoto da cidade, Richard McHog.
_"Não se preocupe..."_ disse Sally, a cadelinha São Bernardo _"É tudo explicável. Barulhos e estalidos assustadores? Contração natural da madeira provocada pela queda de temperatura. Paredes com tijolos frouxos. Janelas mal fixadas..."_ ele reafirmou. Sally Saintbern era a Geninha do grupo, e foi ela que providenciou as gazuas que Sara Shepard estava usando para arrombar a porta.
_"Acho que a gente não devia estar fazendo isso."_ disse William Shepard, o irmão de Sara. Como o Certinho da Turma, ele estava meio que a contragosto nessa aventura. Não fosse Sara estar fazendo isso, provavelmente ele não estaria junto com a Turma hoje. _"É véspera de Halloween e está bem frio. Além disso, tenho que fazer a lição de ciência e providenciar estrôncio para os fogos de artifício, e a reação da celestite não é fácil de fazer..."_
_"Você vai deixar o Richard McHog ganhar?"_ disse o gambá Simeon _"Certeza que a gente consegue depois o tal esdronxulo..."_
_"ES-TRÔN-CIO!"_ disse William exasperado _"É ele que dá a cor vermelha aos fogos de artifício, e eu prometi ao Sr. Goatzeit que iria providenciar isso como parte do projeto do clube de ciências."_
_"A gente vê isso depois."_ disse Catherine Catsin, a gata mais curiosa de Fair Leaves _"A gente tem que ir até o quarto superior e tocar o relógio de carrilhão, ou o McHog vai nos importunar até depois do Natal se puder!"_
_"Está bem..."_ suspirou William _"Mas tenham certeza que isso ainda vai acabar mal."_
_"Vai nada!"_ disse a cadela schnautzer Diana Donbarr, a mais atlética garota de Fair Leaves, cujo quarto tem mais troféus que as salas de troféus de algumas escolas da região, incluindo Great Willows, a maior cidade da região. Ela estava ajudando Hugh a observar tudo.
"Pero, _não tem nenhum espírito aí mesmo? Tipo..._ La Llorona... _Ou_... El Viejo del Saco?" disse o bezerro ao lado de Diana e Hugh. Tomás Toro, filho do _Señor_ Toro, professor de Espanhol, tinha chegado a Fair Leaves apenas a alguns meses, e ainda não conhecia muito bem a cidade e as demais pessoas. Não fosse a intervenção da Turma, certamente já teria tido problema com os valentões e mandões da Turma: apesar de normalmente calmo e até mesmo pacífico, ele ocasionalmente explodia! Isso não acabaria bem.
_"Bem..."_ disse Sally _"Existem lendas sobre o último Bieberaus e sobre como a Família desapareceu depois de um surto de Tifo na primeira metade do século 19."_ ela seguiu contando, como se fosse apenas uma trívia interessante, não uma lenda assustadora _"Dizem que os dois, pai e filho, tiveram que ser emparedados para que a família não contaminasse o resto de Fair Leaves com a Tifo. Dizem que Kaspar, o filho, já era muito frágil antes mesmo da epidemia de Tifo, e na época a Tifo não era tão facilmente controlável quanto hoje. Mas dizem que, em noites de Halloween, pode-se ouvir os gritos de dor e tristeza de Kaspar, que teria sido condenado a uma eternidade de danação pelas ações do seu pai, que dizem que era praticante de magia maligna."_
Ela observou então os três, Hugh, Tomás e Diana, e viu que eles estavam bem assustados: mesmo Diana, que era bastante corajosa, parecia estar começando a fraquejar.
_"Esqueçam isso."_ disse Sally, descontraída _"Na realidade, isso são lendas antigas que foram crescendo com a língua ferina de velhas fofoqueiras. O fato é que a Mansão foi fechada e os Bieberaus emparedados, portanto eles acabaram morrendo. Só recentemente que a Associação Cultura de Fair Leaves tentou reformar algumas partes do casarão, mas tem tanta coisa ruim que provavelmente vai ser mais fácil derrubar tudo... O Senhor Sälvalner e a Senhora Laughton estão tentando ainda reformar o casarão, mas não sei se vão conseguir."_
_"Seja como for, vamos nessa."_ disse Sara, feliz, ao ouvir o clique da fechadura da porta abrindo, o rangido da porta abrindo dando a amostra da aventura que se seguiria, ligando sua lanterna _"Hugh, Tomás, Diana, vamos."_
A Turma entrou na casa, pela cozinha... As janelas fechadas começavam a dar o clima misterioso e sombrio. O cheiro de guardado impregnava o ar, como se aquela casa estivesse ainda ancorada ao passado. A mesa, vazia, ainda carregava algumas lascas de verniz e mofo. A torneira dava um reflexo amarronzado à cozinha quando a luz de uma ou outra lanterna batia nela.
_"Se o que li está certo,"_ disse Sally _"a cozinha dá de cara com um corredor que leva à sala de estar e à lareira. Dela um outro corredor leva ao estúdio onde o Senhor Lars Bieberaus fazia sua Apotecaria..."_
_"Apo-o quê?"_ disse Simeon
_"Uma forma antiga de produção de remédios."_ disse William _"Basicamente fazia-se alguns tipos de preparados para doenças usando plantas e algumas soluções. Algumas dessas substâncias eram realmente perigosas: rícino, beladona, arsênio..."_ ele ia dizendo, até um _hum-hum_ trazer ele de volta para a realidade.
_"Posso continuar?"_ disse Sally, irritada _"Então... Nesse segundo corredor, existe uma escada que vai dar ao andar de cima e para os quartos. O maior era do senhor Lars Bieberaus e de sua esposa, Adalgisa, que morreu quando deu a luz a Kaspar, enquanto os outros dois eram de seu filho Kaspar e de seu preceptor, o sr. Wilheim Stinktier. Havia também um quarto para visitas, que dizem que raramente foi ocupado, em especial por uma certa Adagilsa."_
_"Como você sabe tudo isso?"_ questionou Hugh, abismado.
_"Está no_ Registro da História de Fair Leaves _que a senhora Laughton mantém. Lá tem muitos fatos e histórias sobre a cidade."_ ela respondeu, como se fosse uma obviedade
_"Está bem."_ disse Simeon _"Mas vamos logo... Quero tocar essa droga de carrilhão e me mandar o mais rápido possível. Nada me tira da cabeça que isso tudo é uma armação do Richard para fazer a gente se enfiar em encrenca."_
_"Mais do que já estamos?"_ disse Katty, dando um risinho _"Se nossos pais nos pegarem, é castigo certo."_
_"E se a polícia nos pegar?"_ disse Simeon _"É ainda mais encrenca."_
_"De qualquer modo, ficarmos parados não vai nos fazer chegar a lugar nenhum... Vamos!"_ disse Sally, em um tom curiosamente estranho para alguém calma e compenetrada como ela. Quase como se ela estivesse tentando mandar na Turma.
Mas ela realmente estava certa... Assim que terminaram de caminhar pelo corredor, viram a sala escura e de paredes encardidas, que a muito não viam uma nova mão de tinta. A lareira, eles podiam ver, tinha sido cercada por uma parede de tijolos, indo até o pé-direito da sala, feito de madeira, como era padrão para a época.
_"Devem ter emparedado também a saída da chaminé, para garantir que ambos morressem."_ disse Sally
_"Para com isso!"_ disse Hugh, exasperado _"É horrível pensar que eles morreram sufocados!"_
_"Sim... Era algo horrível. Mas em último caso era a única forma de se impedir que doenças se espalhassem, ou ao menos eles acreditavam na época. Mas graças a Deus, e à Ciência, é claro, agora temos vacinas e outros remédios."_ disse Sally.
_"Bem, vamos subir! Achei a escada!"_ disse William, apontando com sua lanterna para a escada que subia até o andar de cima e para os quartos. Conforme a turma subia, a escada rangia diante do peso dos mesmos.
_"OK... tá começando a ficar perigoso..."_ disse Simeon, quando os rangidos se intensificaram, assim que eles alcançaram o andar de cima. Eles foram caminhando pelo corredor até o quarto de Kaspar Bieberaus
_"Deve ser aqui que está o relógio de carrilhão."_ disse Sally _"Dizem que Kaspar adorava olhar esse relógio..."_
_"Como, se você disse que ele era tão doente que não podia estudar ou brincar com outras crianças?"_ disse William _"Se fosse assim, eu ficaria em pânico de olhar um relógio... Saber que era tempo a menos para viver."_
_"Mas segundo o diário do preceptor dele que a família doou para o Museu de Great Willows, Kaspar dizia que_ 'quanto mais eu olho o relógio, mais eu sei que estou vivo. O relógio me diz que estou vivo... O dia que eu não puder ver ele se mover mais, certamente eu estarei morto.'" disse Sally, abrindo a porta.
O cheiro de mofo e guardado empesteou seus narizes. Hugh e Sally tossiram levemente assim que a poeira se ergueu.
Ao apontarem ao redor, podiam ver a cama, alguns brinquedos bem velhos espalhados, uma cadeira de balanço com uma mesa ao lado, e um guarda roupa. Do outro lado do quarto, próximo à porta que dava ao quarto do preceptor, estava o enorme relógio de carrilhão, curiosamente muito conservado.
_"Esses brinquedos são bem antigos... Pião, xilofone..."_ disse Hugh
_"Os livros são apenas de estudos."_ disse William olhando os mesmos
_"As roupas estão cheirando mal."_ disse Katty _"Mas parecem bem inteiras... Se desse para lavar as mesmas..."_
_"Provavelmente seriam destruídas pelos produtos de limpeza modernos."_ disse Sally, quando viram Simeon mexendo no carrilhão _"O que você está fazendo?"_
_"O mecanismo dele está parado, o pêndulo não balança..."_ disse Simeon _"William, você sabe consertar isso?"_
_"Deixe-me ver..."_ disse William, olhando o mecanismo do carrilhão por baixo do mesmo, enquanto Simeon apontava a lanterna para o mesmo. _"Parece que tem algo preso no mecanismo... Vou dar um puxão."_
William puxou e puxou, mas parecia que o que quer que estivesse preso no mecanismo do carrilhão, nunca sairia. Mas foi ele deu um puxão um pouco maior, e do nada o mecanismo do carrilhão voltou a funcionar.
E o carrilhão começou a badalar...
_"Caramba!"_ disse Tomás, olhando o relógio no seu pulso, mesmo horário do relógio de carrilhão _"É meia noite! Estamos muito encrencados!"_
Todos começaram a olhar muito assustados para o relógio. E não era pra menos, pois seus ponteiros estavam andando _para trás_, ao mesmo tempo que um brilho estranho começou a surgir em toda a sala, como se os brinquedos, livros e a própria casa estivesse voltando ao seu tempo áureo.
_"Mas que diabo..._ Huaaaaaaaa... _Está_... Ahhhh _Acontecendo?"_ disse Simeon, parecendo sonolento.
_"Eu não sei..."_ disse William, também se sentindo sonolento, olhando ao redor.
Todos estavam com muito sono. Ele teve tempo de ver Katty se enrolando no seu corpo, como um gato que tira um cochilo. Hugh deitou direto no chão ao lado de Tomás, usando a barriga do amigo bezerro como travesseiro, enquanto Sally ainda teve a presença de espírito de tentar se deitar na cama, apesar das cobertas e colchão puído. Simeon encostou ao lado do carrilhão, enquanto ele próprio tentou achar um local para não desabar no sono... Preferia não correr o risco de cair em uma madeira quebrada e despencar para o andar de baixo e se machucar.
Ele foi até uma das cadeiras ao lado da mesa, onde apoiou sua cabeça e, mesmo com a luz dourada e brilhante que o relógio estava produzindo, caiu no sono...
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_"Agora, Kaspar... Vamos tentar novamente o verbo_ sein, _ser ou estar em alemão."_ disse a voz bastante severa, mas doce, que William podia ouvir ao voltar à consciência.
_"Mas que..."_ ele tentou processar, e ele viu que não era o único estranhando. Toda a Turma despertou, mas estava tudo muito diferente.
O quarto estava lindo, pintado em um tom suave de azul, os brinquedos e livros novinhos em folha. O sol brilhava lá fora, forte e quente, diferentemente da noite fria de novembro em que dormiram.
E as roupas que eles estavam usando...
_"Que. Diabos. É._ ISSO!!!!" gritou Sara, olhando para si mesma.
Sara estava usando um vestido em um tom de rosa pastel, bem comportado, e seus pés estavam cobertos por botas de cano longo e detalhes em dourado. Um bibe, uma forma de avental, cobria a frente do vestido. Pelo volume da saia do vestido, William sabia dos livros, certamente ela estava usando anáguas. As mãos de Sara estavam cobertas por um par de delicadas luvas brancas de seda, um arco cruzando sua cabeça com um grande laçarote branco sobre ele.
Quando William esboçou dar uma leve risadinha, ele olhou para a cara azeda de Sara, e ele sabia o porquê: sua irmã mais levada odiava roupas bem-comportadas, que ela achava apertadas e duras para correr ou pular.
_"Bem... Cadê os outros?"_ disse William, quando olhou para o lado.
Um senhor gambá, em roupas bem sérias do período da Regência, estava observando o garoto na cadeira de balanço ao lado. O garoto castor parecia bastante doente, e mesmo com o calor que parecia está fazendo, usava mantas pesadas, um cachecol e boina.
_"Ah, desculpe senhor, onde estamos?"_ disse William, e ele reparou que o homem sumariamente o ignorou.
_"William, desde quando você se veste igual um bebê?"_ disse alguém, e ele viu se tratar de Simeon, também vestido em roupas estranhas. Antes de responder, ele observou suas roupas e viu que estava com algum tipo de terno azul escuro encimando uma camisa branca e engomada, gravatinha borboleta, colete de um azul mais claro, calções e meias brancas com uma bota curta podendo sentir sobre sua cabeça um chapéu de palha de aba reta.
_"Alguém pode explicar o que aconteceu?"_ disse Katty, também vestida em roupas estranhas, similares às de Sara.
_"Aparentemente fomos mandados de volta para o passado."_ disse Sally, também em roupas similares, com a obviedade de quem não estava achando as coisas estranhas. _"E pelo que vi, estamos sendo ignorados pelas pessoas do passado."_
_"Estamos sonhando?"_ disse Hugh, em uma roupa mais de criancinha do que a de William _"Porque lembro de ter me dado um sono tão pesado..."_
_"Aparentemente não..."_ disse Sally _"Me belisquei como teste e senti dor, o que dizem que não acontece em um sonho. Além disso, pelo que sei não existem sonhos onde todas as pessoas sonham a mesma coisa. Analisando tudo, não é um sonho..."_
_"Mas podemos afetar as coisas?"_ disse Simeon
_"Podemos experimentar."_ respondeu William, correndo para um dos brinquedos e o tentando tocar. Ele percebeu que a sua mão passou pelo vazio como se fosse nada
_"Bem, parece que temos nossa resposta."_ disse Sally _"Aparentemente, nossa presença aqui não é total: não podemos afetar as coisas ao redor, e nem somos notados pelas pessoas desse período."_
_"Como se fossemos fantasmas?"_ exclamou Sara _"Isso é ridículo!"_
_"Poderia ser, se todas as provas que temos indicam nessa direção."_ confirmou Sally
_"Agora, como vamos voltar para casa?"_ choramingou Hugh.
_"Precisamos primeiro descobrir onde estamos e em que tempo. A resposta aparentemente é obvia: voltamos ao passado de Fair Leaves, quando ainda haviam as Quatro Famílias Fundadoras. E pelo que entendi, aquele"_ disse Sally, apontando o garoto castor na cadeira de balanço _"é Kaspar Bieberaus."_
_"O último Bieberaus? Aquele que foi emparedado?"_ questionou Simeon
_"Isso mesmo."_ respondeu Sally, observando Kaspar, que tossia enquanto recitava sua lição de Alemão. _"E pelo que dá para perceber... Kaspar já está com tifo. E pelo jeito, em um estágio bem avançado."_
_"Isso quer dizer que..."_ ia dizendo Katty
_"Que por alguma razão a gente voltou no tempo, no tempo final dos Bieberaus."_ completou Sally
_"Acho que podemos gastar uns minutos investigando tudo por aí."_ disse Simeon _"Quem sabe não descubramos um pouco mais do que está acontecendo?"_
Sally ficou meio em dúvida, mas então disse
_"OK... Mas por via das dúvidas: não mexam no que não devem, andem em duplas ou grupos e não se afastem demais da casa. Eu fico na casa para servir de referência. A gente não sabe o que podemos ou não afetar, é melhor não pagar para ver."_
_"Certo."_ disse Simeon _"William, eu você e Sara."_
_"Certo"_ disseram os irmãos ovelha
_"Eu vou com o Tomás e com a Diana!"_ disse Katty
_"Então sobra eu e o Hugh aqui na casa."_ disse Sally
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A Turma se espalhou, e então Sally disse.
_"Bem, Hugh, vamos dar uma olhada na casa, OK?"_
_"Tudo bem"_ disse Hugh, enquanto eles começaram a andar pela casa.
A mansão era bem diferente da mansão no período deles: embora de um tom sóbrio, ela parecia ser muito bonita e de bom gosto. Muitos livros podiam ser vistos pela casa, além de em quase todos os cômodos haver um pequeno estojo de madeira, com o que aparentava ser vidros de apotecaria dentro deles.
_"Parece que o senhor Bieberaus se preocupa muito com o seu filho: a maior parte das substâncias nesses estojos são para o tratamento da tifo, além de serem fortificantes."_ disse Sally, observando os rótulos nos pequenos vidros.
_"O que você está procurando, Sally? Parece que você sabe alguma coisa e não quis contar para o resto da turma."_ disse Hugh, enquanto observava Sally investigando por todos os lados.
_"Na realidade... Bem, para mim é um bando de baboseiras, mas considerando o que aconteceu conosco... Dizem as lendas que no porão dos Bieberaus ele mantinha algum tipo de oficina alquímica. Nesse tempo em que eles vivem, coisas como alquimia ou o flogisto ainda eram aceitas... Basta ver que eles acreditavam que o ar levava os malefícios, ou seja, as doenças, com ele. Totalmente errado, mas essa era uma justificativa para o emparedamento de pessoas doentes"_ disse Sally _"Considerando que fomos trazidos para o passado por algum tipo de magia, é de se esperar que obtenhamos pistas para voltar para casa se essa oficina alquímica realmente existir."_
_"Mas isso é possível? Quero dizer, magia?"_ espantou-se Hugh
_"Analisando nossa situação atual, a Navalha de Occam diz que sim, é possível, já que essa é a mais simples explicação que fornece uma resposta satisfatória para nossa situação. Claro que na teoria a crença de que estamos sonhando é tão boa quanto a de que fomos abduzidos de nosso tempo por magia, exceto que já sabemos que ela não é válida. Se fosse um sonho, um beliscão não provocaria dor, mas já testei isso e doeu. Qualquer outra possibilidade, como buracos de minhoca ou outras teorias da viagem no tempo seriam ainda mais improváveis, ainda mais pelo que a ciência conhece sobre os usos de energia e as consequências de tal eventos. E mais: a hipótese de magia aumenta quando vemos nossas roupas, que devem ter sido alteradas magicamente para que, caso alguém desse tempo nos enxergue, não questione roupas 'estranhas' do século 21."_ disse Sally
_"E por que tudo isso? Todo esse cuidado?_"
_"Essa é uma outra questão, e para a qual provavelmente não teremos resposta."_ disse Sally, enquanto dava batidinhas na madeira do chão próximo à lareira, e ouviu um barulho mais fraco. _"Piso falso. Provavelmente um alçapão. Deixe-me testar a teoria do fantasma."_
Ela colocou as pernas para dentro da madeira e simplesmente pulou e a atravessou.
_"Sally!"_ disse Hugh, assustado
_"Pode vir!"_ disse Sally _"A madeira não vai nos impedir."_
Hugh deu um pulo como quem vai pular em um lago e caiu próximo a Sally.
_"OK... tem pouca luz, provavelmente das frestas do chão... Deixe-me ver uma coisa."_ disse Sally, remexendo nos bolsos de seu vestido. Ela encontrou a pequena lanterna que estava usando para investigar a Mansão em seu tempo original. _"Ótimo... Seja como for, a magia afetou apenas roupas."_
_"Como você sabia?"_ disse Hugh
_"Se a magia tentasse nos 'traduzir', por assim dizer, para esse tempo, todos os objetos que portávamos teriam que ser adaptados para tal período. Meu aparelho dentário não o foi, assim como os meus óculos e os de William. Então, qualquer outro objeto que não fosse de vestuário deveria ter permanecido como era. O contraexemplo foi o boné de baseball de Sara que virou aquele laçarote horrendo na cabeça dela."_ disse Sally, ligando a lanterna e apontando-a para o quarto
_"Entendi..."_ disse Hugh, quando eles observavam a sala. Ele apontou algo no chão. _"O que é aquilo?"_
Aquilo que Hugh apontava lembrava um círculo com um tom prateado, sendo que uma estrela de cinco pontas estava desenhada no chão. Fixadas nas pontas da estrela estavam castiçais prateados.
_"Um círculo de magia..."_ disse Sally, quando ela olhou também os livros nas prateleiras próximas _"Paracelso, Magus, Flanel, Hermes Trimegistus..."_
_"Quem são esses caras?"_ disse Hugh
_"Magos do passado... Alquimistas."_ disse Sally _"Aparentemente, ele realmente usava magia... Mas não me parece que ele era ruim."_
_"Como você sabe?"_ disse Hugh
_"Considerando tudo que sabemos, podemos pressupor que as lendas carregam alguma coisa de verdade. Por exemplo: esse círculo tem a ponta para o Norte. Isso é um sinal de círculo de proteção mágica segundo as lendas antigas. Além disso, ser feito de prata implica que ele visa proteger-se de espíritos. Ele deve ocasionalmente tentar conversar com alguma criatura de fora de nossa realidade, e esse círculo funciona como alguma proteção. Imaginando que isso funcione, o que parece ser o caso."_
_"Você acredita em magia, Sally?"_
_"No presente momento, acredito no que está acontecendo, e até agora os fatos são que (1) fomos abduzidos de nosso tempo (2) por meios mágicos (3) ao manipular o carrilhão. Precisamos descobrir se existe alguma coisa relacionada ao carrilhão no meio desses livros. O mais esquisito é que não somos considerados espíritos."_ disse Sally
_"Como você sabe?"_
_"Veja onde você está pisando, Hugh."_ disse Sally, e Hugh viu que estava pisando nas linhas prateadas do círculo mágico. _"Se fosse um espírito, certamente você estaria urrando de dor ao tentar invadir o círculo."_
_"Tem certeza?"_
_"Bem... Na prática não... Mas até onde sei e as evidências apontam é assim que a coisa funciona. Deixe-me ver esse livro sobre a bancada."_
Em uma bancada próxima, um livro estava em um pedestal. Parecia grande e pesado, e feito de folhas de papel grosso.
_"Parece que são as anotações mágicas do senhor Bieberaus."_ disse Sally, virando rapidamente folhas de um lado para o outro. _"Parece que a família Bieberaus atua com magia desde antes de virem para Fair Leaves... E parece que eles sabiam sobre todo tipo de criatura mágica em Fair Leaves... E olhe: parece que esse livro é encantado de uma maneira especial para que mesmo pessoas, como ele diz aqui, 'transmigradas' possam usá-lo enquanto estiverem fora de seu tempo. Além disso..."_
_"O que?"_ disse Hugh
_"Bingo! Aqui está a chave: o relógio foi encantado pelo senhor Bieberaus com algo que ele chama de_ 'Revelação de verdades ocultas'. _Ele está travado a um evento que possa vir a acontecer e, até que o mesmo ocorra, qualquer pessoa que tenha sido transmigrada não volta ao seu tempo ou local. Tão logo tal evento ocorra, as pessoas serão devolvidas a seu tempo. Entretanto, não deixa claro qual seria esse evento..."_
_"A morte de Kaspar?"_ disse Hugh
_"Talvez... Apesar que um evento tão cotidiano, ainda que doloroso... Gastar tempo preparando toda a magia e tudo o mais... Não me parece algo racional, mesmo considerando a questão da magia. Talvez ele esteja prevendo alguma coisa..."_ disse Sally, quando ela ouviu vozes no piso de cima, da Turma.
_"Sally! Cadê você?"_ disse Simeon, voltando com os irmãos Shepard.
_"Só um minuto."_ disse Sally _"Hugh, vamos subir."_
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_"Então..."_ disse Sally, olhando para os demais, que estavam na sala, enquanto o senhor Bieberaus, completamente alienado ao fato de 8 crianças do futuro estarem em sua sala de estar, atendia uma senhora ovelha oferecendo-a um preparado para dor nas juntas.
_"Parece que os demais Patriarcas sabem de alguma coisa relacionada à 'magia satânica' que o senhor Bieberaus usa."_ disse Simeon _"O McHog desse tempo estava convencendo os demais que bastavam, e aquele O'Wool também falou isso."_
_"Algo aqui está cheirando mal, e não é a cauda do Simeon."_ disse William, lembrando a cauda preta com o duplo rajado branco de um gambá que seu amigo tinha _"Pelo que li, as Famílias Fundadoras trabalhavam muito bem... Mas..."_
_"Mas talvez sejam os Bieberaus que saibam algo sobre os McHog: aquele senhor Joffrey McHog lembra muito o Sr. McHog da nossa era. E o senhor Frederick McBaalian não me parecia flor que se cheire."_ disse Katty
_"Bem possível."_ disse Sally _"A parte sobre ele estar pesquisando do Elixir da Vida que vocês ouviram parece verdade e me parece lógico ele estar procurando isso para o filho: esse Elixir é conhecido pelas lendas como um dos resultados da criação da Pedra Filosofal, um elemento alquímico raro e poderoso capaz de transformar qualquer coisa em ouro. Já o Elixir seria capaz de curar todas as doenças com apenas uma dose, e tornar uma pessoa imortal, ao menos quando se coloca a velhice ou doença aí, e enquanto ela permanecer consumindo o mesmo: nunca foi dito nada sobre violência."_
_"Vocês acham que ele teria tais coisas?"_ disse Simeon
_"Aparentemente não... Essa casa não está muito melhor que no nosso tempo. Se tivesse algo capaz de transformar tudo em ouro, acho que a primeira coisa que eu faria seria reformar tudo isso."_ disse Diana
_"Pode ser..."_ disse Sally
_"Além disso,"_ disse Tomás _"Se seu filho é tão doente assim, você daria o tal Elixir para ele, ao menos uma dose para curá-lo, não? O Senhor Bieberaus me parece uma ótima pessoa. Aquela_ abuela _acabou de sair com o remédio sem ter nada cobrado, e não me parece algo barato fazer esse tipo de caridade."_
_"Seja como for..."_ disse William _"Precisamos descobrir qual é o evento que o Senhor Bieberaus travou na magia. Até lá, estamos presos nesse tempo."_
Foi quando eles viram o senhor Bieberaus lendo uma nota que um menino lhe entregou. Ele teve um olhar possesso e se levantou da cadeira de seu escritório de apotecaria, entrando na sala de estar e subindo rapidamente. Sally, Simeon e William seguiram o mesmo até o quarto de Kaspar.
_"Stinktier... Melhor você ir por hoje."_ disse o senhor Bieberaus _"Acabei de receber uma nota do Conselho da cidade dizendo que os demais Patriarcas querem me ver aqui em casa. Não sei quais são as intenções deles, mas temo pela minha vida e a de Kaspar. Entretanto, Kaspar não teria condições de correr graças à Tifo, e não quero colocar o senhor nisso tudo, em especial se o pior acontecer. Então, é preferível que o senhor volte a sua casa."_ ele disse, abrindo uma carteira e sacando uma velha nota de 20 dólares _"Acho que isso é o que eu te devo até o momento pelo seu serviço como preceptor de Kaspar, certo?"_
"Herr _Bieberaus, é muito mais... É muita generosidade. Como posso agradecer?"_ disse o gambá.
_"Volte para sua casa por uns dias e seja sempre o homem que você é. Aconteça o que acontecer, lembre de mim e de Kaspar."_ disse Lars Bieberaus, abraçando o senhor gambá, que correu e pegou uma pequena maleta
_"Em dois dias devo estar de volta."_ disse o gambá "Auf Wiedersehen!"
"Auf Wiedersehen!" disse o senhor Bieberaus, com um estranho tom de voz.
Stinktier simplesmente saiu, descendo as escadas e saindo da casa, sem saber que seria a última vez que veria os Bieberaus vivos.
_"Agora, filho... Vamos estudar, tudo bem?"_ disse o Senhor Bieberaus
_"Mas o senhor não tem que ir falar com o Conselho?"_ disse com uma voz fraca o filho Kaspar, dando algumas leves tossidas
_"Eles que venham: estou cansado deles ficarem armando... Eles se esqueceram de tudo que nossa família fez por Fair Leaves. Além disso, fiquei sabendo que Connacht vai tentar me convencer a abandonar meus estudos. Estou quase lá, tenho certeza. Eu estou quase terminando de obter o Elixir da Vida. Vou curar você, Kaspar."_ disse o Senhor Bieberaus, quando todos puderam ouvir uma voz gritar.
_"Lars, saia da casa! Isso está ficando ridículo e perigoso!"_ disse uma voz que todos perceberam ser excessivamente similar com a do Senhor McHog do tempo deles _"Seu filho é um perigo para a cidade!"_
_"Cale-se, Joffrey!"_ disse Lars _"Apenas preciso de mais um tempo para que alcance os resultados na minha pesquisa e consiga curar o Tifo em Kaspar!"_
_"Admita de uma vez, Lars! Seu filho é fraco e mirrado. Aquela Adalgisa Weissmeier era raquítica, com certeza Kaspar não vai resistir muito tempo. Não coloque a cidade em risco a toa!"_ disse uma outra voz, com um leve balido na mesma
_"Você também está nessa, Frederick. Você sabe no que estou trabalhando: podemos melhorar a vida de todos aqui. Me deem um tempo!"_ disse Lars, com um tom de aflição na voz
_"Lars, volte à razão: eu sei sobre as tradições de sua família, mas você está levando as coisas longe demais! Você está mexendo com coisas perigosas, não apenas para você e para Kaspar, mas para sua alma e para todos em Fair Leaves!"_ disse uma outra voz, meio velha e com um tom respeitoso
_"Connacht, eu não esperava isso de você. De todas as pessoas em todo o mundo, justamente você entregar-me aos cães. Mas minha palavra é final: não vou parar as minhas pesquisas. Meu filho precisa de mim e nunca vi nenhum de vocês mover uma palha para me ajudar. Então, que assim seja."_ disse Lars
_"Sim... Que assim seja."_ disse Joffrey McHog, quando a Turma, literalmente passando suas cabeças pela parede, viram um sorriso maligno no rosto de McHog, e uma série de homens com chapéus emplumados saindo das ruas e casas próximas.
_"Constábulos!"_ disse Sally _"Estão tratando ele como um criminoso."_
_"Você nos forçou a isso, Lars: nós, Patriarcas de Fair Leaves, em comum acordo com o Conselho da Cidade e respeitando as Leis Americanas, declaramos que Lars e Kaspar Bieberaus são um risco à saúde pública, e portanto devem ser emparedados em sua chaminé. A casa será mantida isolada por ao menos 15 anos, de acordo com as normas legais."_ disse Joffrey
_"Vocês não vão me condenar à morte!"_ disse Lars, enlouquecido, assim que os primeiros Constábulos entraram na casa, e a Turma pode ver alguns dos Constábulos se aproximando com tijolos e argamassa
_"Vamos fazer alguma coisa!"_ disse William
_"Eu vou dar um jeito nisso!"_ disse Sara, tentando socar um dos Constábulos que se aproximavam de Lars, mas sem efeito, o soco passando no ar e cruzando o corpo do Constábulo. O soco de Lars, entretanto, deitou o mesmo Constábulo, mas outros quatro entraram. Dois foram para Lars e o golpearam direto no peito, removendo-lhe o ar e deixando-o inconsciente. Kaspar começou a tentar chutar, mas era tão fraco e mirrado que eles apenas agarraram seus braços e pernas, e dando um leve tapa que o fez cair desacordado.
_"Não podemos fazer nada?"_ disse Simeon, exasperado
_"Aparentemente não."_ disse Sally, desconsolada _"Somos como 'fantasmas' aqui, então não afetamos nada nesse tempo, exceto que magicamente tratado. Descobri isso lendo um dos tomos de magia que o senhor Bieberaus tinha em uma sala secreta no porão. Parece que eles não sabem disso, entretanto: desacordaram o senhor Bieberaus. Se desejassem as pesquisas, teriam o deixado consciente."_ ela terminou, enquanto viram os dois, pai e filho, sendo levados para o andar de baixo.
No andar de baixo, os três Patriarcas ajudavam os Constábulos a erguer a parede ao redor da chaminé, um de cada lado. A mesma já tinha algo em torno de oito fileiras de altura, e era bem acabada.
_"Vamos logo com isso."_ disse Connacht, de certa forma enojado _"Me sinto um traidor..."_
_"Ele estava mexendo com coisas perigosas. Sortilégios malignos. Esse menino Kaspar é uma aberração como a mãe dele."_ disse McHog, com um tom de voz que não deixou de transparecer um cinismo para a Turma.
_"Agora ele me deixou realmente bravo!"_ disse Sara, socando violentamente o ar... Todos puderam ver um pouco de vento vibrando o pelo da cabeça do senhor McHog e Sara exasperada vendo que seu melhor soco não fez nada
_"Vento estranho... Muito bem, vamos seguir com isso."_ disse Frederick McBaalian, aplicando a argamassa no muro
_"Alguém faça alguma coisa!"_ disse Diana, quase chorando _"Eles vão matar os dois!"_
_"Talvez..."_ disse Sally _"É ISSO!"_
_"O que?"_ disse William
_"Para voltarmos ao nosso tempo, temos que presenciar um evento específico... De fato, ESSE evento específico, o emparedamento dos Bieberaus. Essa é a magia que o carrilhão faz e por isso não podemos afetar as coisas aqui: isso poderia ter consequências terríveis no nosso futuro. Na prática, poderíamos incorrer no Paradoxo do Vovô."_ disse Sally
_"Paradoxo do Vovô? Que diabos é isso?"_ perguntou Simeon
_"Pense que você consiga viajar no tempo... Melhor: pense que estamos aqui, mas podemos afetar o mundo ao nosso redor. Agora, vamos imaginar que você resolva ir até um antepassado dos Skunder, sua família, e o mate."_ disse Sally _"Na prática, todos os seus parentes, até seu pai, deixariam de existir, e portanto você também deixaria. Só que, ao deixar de existir, você não viria para cá e mataria seu antepassado, e isso faria com que todos os seus parentes existissem, assim como você. Mas com isso você viria para cá e mataria seu antepassado... E assim sucessivamente. Não é possível, mesmo de maneira lógica ou matemática, entender quais seriam as consequências dessas ações no futuro."_
_"Mas qual a razão de colocar uma magia assim, para trazer as pessoas para esse tempo e presenciar tudo isso sem que fosse possível restaurar as coisas?"_ disse Tomás
Enquanto a Turma debatia, os senhores foram construindo de maneira bem rápida o muro.
_"Espero que Lars não acorde antes de conseguirmos terminar o muro. Ele é forte e certamente está fora de si."_ disse Connacht
_"Não se preocupe: essa argamassa é de secagem rápida, mandei vir de Nova Iorque."_ disse Frederick _"Custou os olhos da cara, mas vai compensar."_
_"Pelo menos, vamos poder pegar aquelas pessoas que os Bieberaus ajudavam e escorraçar elas de vez. Lars era muito enxerido: poderíamos melhorar ainda mais a cidade se ele não fosse tão caridoso com esse bando de amarelos desocupados que chegam todos os dias de São Francisco, além dos negros fugidos, que pode render um dinheiro para a cidade se os recapturarmos."_ disse Joffrey
_"É isso! Na realidade, saberemos a verdade. Ou melhor, já a sabemos: pelo jeito, o senhor McHog queria explorar como mão de obra barata as pessoas que chegavam em Fair Leaves com uma mão na frente e outra atrás, mas o Senhor Bieberaus não permitia."_ disse Sally, ao ouvir os Patriarcas conversando
_"Bem típico dos McHog."_ disse Sara, enojada _"Tudo é dinheiro para eles."_
_"Parece que não tem nada que possamos fazer..."_ disse William, virando as costas _"Eu não quero ver isso!"_
_"Eu também não! Não vou aguentar ver eles morrerem!"_ disse Hugh
_"Mas não podemos fazer nada... Infelizmente esse é o objetivo dessa magia: deixar uma prova da realidade, mesmo que seja difícil de explicar."_ disse Sally, enquanto os Patriarcas já estavam precisando de escadas para terminar a parede.
E foi quando todos começaram a ouvir murros contra a parede.
_"O'Wool, seu sacripantas! Seu almofadinha! Carola de meia pataca! É assim que você acha que vai resolver sua vida? Matando-me e a meu filho? Seu maldito Judas Iscariotes!"_ disse Lars, que tinha acabado de acordar e tentava pular e se agarrar à beirada da parede.
_"Você trouxe para si mesmo a danação ao se envolver com profanidades e perversões como a busca da Vida Eterna. Mas vou deixar-lhe um presente de despedida. Aproveite seus últimos momentos e se arrependa."_ disse Connacht, deixando cair um livro e uma caixa de fósforos para dentro da parede, enquanto terminavam a mesma.
_"Argamassa boa essa!"_ disse McHog, sorrindo _"Ele não conseguiu derrubar a parede, mesmo acordando."_
_"Bem... Nosso trabalho terminou. Bieberaus,"_ disse Frederick, colocando os últimos tijolos enquanto empurrava os dedos do senhor Bieberaus para trás no processo _"você trouxe para si o destino seu e do seu filho. Chegamos a sugerir que você fosse para o campo, ou mesmo para outra cidade, mas sua cabeça dura acabou trazendo danação para você e seu filho. Lembre-se disso."_
_"Bastardo! Sempre desconfie de vocês dois, McBaalian e McHog: vocês esqueceram as tradições de nossa cidade e abandonaram as razões que levaram a todos nós nos mantermos aqui, as juras que fizemos diante dos mausoléus de nossos antepassados, dos primeiros moradores de Fair Leaves. Mas nós Bieberaus sempre lembramos. Vocês estão cegos pela ambição, mas marquem minhas palavras: mesmo em 100 anos, ou 1000 anos, vocês e seus descendentes irão se arrepender. Vocês vão destruir todo o equilíbrio que sempre manteve Fair Leaves próspera na medida certa, onde nada faltou a ninguém!"_ gritou Lars
_"Balela!"_ disse McHog _"Fair Leaves será melhor sem vocês..."_
_"Chega, Joffrey!"_ disse Connacht _"Deixe-os. Já fizemos nossa parte. A tifo não se espalhará por Fair Leaves."_
Os Patriarcas saíram, deixando alguns Constábulos terminando de passar argamassa na parede. Mas mesmo esses rapidamente abandonaram a casa assim que seu trabalho terminou, deixando-a sem ninguém
Exceto Lars Bieberaus, que começou a chorar de tristeza e desespero.
_"Será que realmente não podemos fazer nada? Nem falar com eles?"_ disse Hugh
_"Eles provavelmente vão nos ignorar."_ disse Simeon
_"Não importa, eu vou lá tentar!"_ disse Hugh, atravessando a parede, como se fosse um fantasma
_"Ei, Hugh, espera!"_ disse Sally, e ela disse aos demais _"Eu vou trazer Hugh logo. Fiquem aqui!"_
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Hugh viu o velho senhor castor, encostado em um canto daquele local escuro
_"Senhor, não sei se o senhor pode me ouvir, mas tem qualquer coisa que possamos fazer?"_ disse Hugh
_"Não sei se a minha magia vai funcionar, mas espero que sim: quero que saibam da traição dos demais Patriarcas. Quem sabe isso evite problemas no futuro de Fair Leaves."_ disse Lars, como que falando para si mesmo.
_"Sim, senhor! Viemos do futuro e agora sabemos o que os demais Patriarcas fizeram!"_ disse Sally, assim que passou
_"Se ao menos Kaspar não fosse tão doente... Deus, ele tem apenas 7 anos, e já está condenado a morrer! O que fiz para merecer tamanha dor, Deus?"_ disse Lars, como que rezando
_"Você não fez nada... Quem fez foram os Patriarcas."_ disse Sally, quando perceberam Kaspar acordando e dando algumas tossidas muito fortes. Eles então viram Kaspar cuspir alguma coisa.
_"Sangue..."_ disse Hugh, olhando as manchas no chão, perceptíveis mesmo com a quase total ausência de luz _"Ele cuspiu sangue."_
_"Doença oportunista... Provavelmente tuberculose."_ disse Sally, triste _"Agora em estágio terminal: todo esse stress, mais um corpo frágil e uma doença associada... Acho que não lhe resta muito."_
Ao ver a mancha de sangue no chão, a feição do senhor Lars Bieberaus alterou-se para uma determinação sinistra.
_"Que Deus tenha piedade de minha alma, mas meu filho já sofreu demais. Ao menos ele não sofrerá durante a morte!"_ disse Lars, pegando um estojo de apotecaria que estava na console da lareira da chaminé. Ao abrir, Sally viu seus conteúdos
_"O que ele pretende fazer?"_ disse Hugh
_"Acho que sei..."_ disse Sally, ao ver os dois pequenos frascos e o copinho, do tipo que adultos usam para tomar uísque.
_"Rícino e Papoula!"_ ela exclamou, lendo os rótulos dos frascos enquanto Lars misturava seus conteúdos. _"Ele vai matar Kaspar!"_
_"Como assim?"_ disse Hugh, apavorado _"Ele não pode!"_
_"Como ele disse, ele não quer deixar Kaspar morrer sofrendo. Eles estão condenados: logo vai ter tão pouco oxigênio aqui que eles vão começar a sufocar. Ele quer que Kaspar ao menos morra sem sofrimento. Rícino é um veneno poderoso, e a papoula é um poderoso narcótico. Ao misturar os dois, Kaspar primeiro irá fechar os olhos, antes que o rícino o mate de vez..."_
"Vatti, was ist das los?" disse Kaspar _"Paizinho, o que está acontecendo?"_
"Kein Grund zur Sorge, mein Söhnchen!" disse Lars _"Nada demais, filho... Apenas chegou uma hora que vou ter que te dar algo que eu não gostaria."_ ele disse, empurrando o pequeno copo mortal aos lábios de Kaspar _"Eles nos condenaram à morte... Então ao menos que você não sofra."_ ele terminou, assim que terminou de virar o conteúdo terrível do copo, fazendo Kaspar beber essa última beberragem.
"Vatti, Ich bin so müde! _Paizinho... Estou com muito sono."_ disse Kaspar, já dopado pela papoula
"Alles Klar, mein Söhnchen! _Tudo bem, meu filhinho."_ disse Lars, aos prantos _"Logo você estará em um local melhor, onde você poderá ser mais feliz._ Auf Wiedersehen, mein Söhnchen! Schlaf gut und träum von den Engelchen!" ele disse, tão logo os olhos de Kaspar se fecharam.
Hugh e Sally, aos prantos, ainda puderam ouvir o peito de Kaspar movendo-se cada vez mais lentamente, até que o rícino terminou seu efeito, fazendo o peito de Kaspar parar de se mover...
_"Isso é muito cruel!"_ fungou Hugh, baixinho em meio aos prantos
Ao ver o filho morto, Lars colocou seu corpo dentro da lareira, como se a mesma fosse uma manjedoura para o mesmo. Em seguida, ele abriu o vidro de rícino e virou-o sem pensar meia vez, até que nenhuma gota daquela beberragem fatal permanecesse no frasco. O efeito foi imediato: poucos segundos foram o suficiente para que ele começasse a vomitar uma terrível bile, sangue saindo junto com a mesma. Em poucos segundos, ele deitou-se para nunca mais levantar.
A família Bieberaus, uma das Quatro Famílias Fundadoras, estava extinta.
Hugh se aproximou e, com grande esforço, fechou os olhos do último dos Bieberaus.
_"Quero ir para casa."_ disse Hugh baixinho, fungando.
_"Acho que logo iremos... Não creio que tenham muito mais o que vermos aqui..."_ disse Sally, desolada, quando viram um brilho branco vindo da lareira.
Uma fumaça se levantou do corpo de Kaspar, como se algo estivesse se separando da carne inerte e morta do jovem garoto castor que, devido ao corpo frágil, nunca teve amigos.
_"O que é isso?"_ gritou Hugh
_"Não sei!"_ disse Sally, uma coisa que era muito rara de ouvir dos lábios dela
_"Sally, Hugh, o que está acontecendo? Que brilho é esse?"_ disse Simeon
_"Eu sei lá!"_ disse Hugh, enquanto os demais apareceram.
A fumaça foi tomando uma forma similar à do corpo abaixo dele, mas levemente translúcida, como vista por uma janela embaçada. Esse ser abriu os olhos e olhou ao redor...
"Was ist das los?" ele disse, ainda meio grogue...
_"Ele virou um... Fantasma?"_ disse Hugh
_"Parece que sim...."_ disse Sally.
_"O que houve? O que está acontecendo?"_ disse ele, observando as mãos translúcidas, e olhando seu próprio corpo abaixo de si, e vendo o corpo de seu pai diante de si.
_"Bem... É meio complicado... Mas seu pai não quis que você sofresse, então você recebeu papoula para que não sofresse durante a sua morte... Agora, o porquê você virar fantasma..."_ disse Sally, baixinho
"Vatti!" gritou o fantasma de Kaspar, vendo o corpo do pai no chão _"Paizinho! Não... Não me deixa, por favor!_ Bitte! Lass Sie mich nicht allein! Vatti!!!", tentando agarrar-se ao corpo, mas seus braços fantasmagóricos passaram pelo corpo do pai. Ele começou a chorar lágrimas fantasmagóricas, deixando Sally e Hugh sem saber o que fazer, conforme o resto da turma passou para dentro da alcova fatal.
_"Vamos... Temos que voltar ao carrilhão e dar um jeito de ir embora."_ disse Simeon, quando ouviram uma voz orando entrando pela cozinha.
_"É o tal Connacht."_ disse Simeon
Ele foi se aproximando da parede, enquanto a Turma saia da alcova. Sally e Hugh foram os últimos a sair.
Mas mais um ser saiu daquela alcova...
Connacht viu o pequeno fantasma, estacou e começou a recitar todo tipo de reza, tentando exorcizar aquele espírito, quando Kaspar o observou e disse.
"Herr _O'Wool, por que você fez isso? Meu pai confiou no senhor. Por que você me separou de meu pai? Por que traiu a gente? Por que você nos matou?"_ ele disse, em uma voz tão triste e inocente, enquanto os olhos de ambos se cruzavam. Por alguns instantes um não pode deixar de olhar ao outro, no fundo dos olhos...
... até que Connacht O'Wool gritou como um endemoniado, alguém insano, correndo pela sua alma, ao perceber que condenara seu amigo e o filho dele a uma eternidade de separação e sofrimento.
Foi quando a Turma percebendo o mesmo brilho surgindo do Carrilhão.
_"Vamos! Parece que vimos tudo o que tínhamos que ver!"_ disse Simeon
_"Não me abandonem vocês também,_ bitte sehr!" disse Kaspar
Hugh avançou, com um pouco de medo, e tocou as mãos fantasmagóricas de Kaspar. Parecia de maneira muito desconfortável como enfiar a mão em um balde de água gelada. Mas havia algo no toque que fez com que Hugh percebesse que ele estava descobrindo uma amizade.
_"Não se preocupe. Nós viemos do futuro graças à magia do carrilhão. Tenha certeza: vamos nos encontrar lá... Seremos seus amigos!"_ disse Hugh, com um sorriso nos lábios.
_"Eu... Eu vou esperar vocês!"_ disse Kaspar, enquanto a Turma corria para o quarto e se posicionava o mais confortavelmente possível, pois sabiam que cairiam no sono graças à magia.
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_"Só pode ser piada!"_ disse Sara, ainda dentro do vestido rosa
_"Não... A gente voltou ao nosso tempo!"_ disse William _"Vejam as luzes dos postes da rua."_
_"Então por que ainda estou vestindo essa tranqueira!"_ disse Sara, batendo com raiva na saia do vestido
_"Bem... Pode ser uma lembrancinha..."_ disse Sally, quando viu que tinha algo no seu avental. Um nome engravado _"Margreta... Margreta Bieberaus?"_ disse ela
_"Como?"_ pergunto Tomás
_"Parece que todas as roupas que estamos usando eram de algum dos familiares de Kaspar. Margreta era uma tia, que manteve a linhagem Bieberaus, pelo lado feminino."_ disse Sally _"Então o sangue dos Bieberaus ainda existe."_
_"Seja como for, quero tirar essa bodega."_ disse Sara
_"Não tem como... Nossas roupas foram mudadas ao transmigrarmos para o passado, e parece que o senhor Lars não pensou muito no retorno... Deixe-me ao menos aliviar as coisas soltando um pouco o espartilho."_ disse Sally, se aproximando e afrouxando um pouco o espartilho.
_"Obrigada..."_ disse Sara, assim que terminou. _"Estava muito sufocante."_
_"OK..."_ disse Simeon, voltando com Hugh e Tomás _"Parece que magicamente nossas roupas comuns voltaram para os armários. Confirmamos nas casas de Hugh e de Tomás."_
_"Antes de irmos embora... Podemos ao menos passar rapidinho na casa do Kaspar?"_ disse Hugh.
_"Eu não posso esperar muito."_ disse Simeon. _"Meu pai vai ficar uma fera se eu for pego."_
_"É rápido!"_ disse Hugh, enquanto desceram e olharam para a parede onde estavam os agora esqueletos de Lars e Kaspar Bieberaus, uma esquife inglória erguida por meio da traição.
_"Kaspar, você está aí? Somos nós, Sally, Hugh e todos da Turma."_ disse Sally.
Eles viram o fantasma cruzar a parede. Por algum motivo, ele não parecia apavorante como se imaginaria, mas sim como um amigo que a muito os esperava.
_"Eu imaginava quanto tempo ia demorar."_ disse Kaspar, com aquele tom de voz meio estranho, como se estivesse vindo do fundo de uma caverna.
_"Desculpa... Pegamos um caminho mais rápido... Passaram mais de 100 anos, né?"_ disse Hugh
_"Sim... Mas outros também me viram. Alguns se esqueceram, outros fugiram, alguns queriam tentar me exorcizar... Eu não entendo porque fiquei para trás... Lembro muito pouco da minha vida antes do meu pai me dar Rícino e Papoula."_ disse Kaspar.
_"Sim... Mas seremos sempre amigos."_ disse Hugh
_"Sim."_ disse Kaspar
_"Agora, melhor irmos para casa."_ disse Sally _"Nossos pais vão nos dar um baita castigo se demorarmos. Amanhã a gente volta. Até porque... Tem os livros que o seu pai deixou no porão, e eles parecem interessantes."_ disse Sally, despedindo-se de Kaspar, enquanto a Turma saia pela porta de trás. Assim que eles saíram, uma voz disse:
_"Então... Essa Turma também descobriu sobre o mistério do Relógio de Carrilhão? E pelo jeito aquela garota Sally descobriu sobre os livros de magia."_ disse o senhor, com um focinho de foca e um sorriso vibrante.
_"Sim..."_ disse Kaspar _"Mas, senhor Sälvalner, será que eles vão ajudar o senhor a consertar os problemas que a falta da minha família deixou em Fair Leaves?_
_"Não sei dizer, Kaspar, mas lembre-se: eu também tenho sangue Bieberaus, e cuidar da magia em Fair Leaves também é minha responsabilidade. Ademais, eles parecem bastante ativos e inteligentes, quem sabe eles não tenham o que é necessário?"_ disse o velho _"Mas... Acho que vou dormir. Diferentemente de você, eu preciso do descanso. Pode ficar à vontade para passear na cidade, só lembre-se de não pregar muitas peças."_
_"Tudo bem. Boa noite, Sr. Sälvalner."_ disse Kaspar, saindo pela porta da frente
_"Boa noite, Kaspar."_ disse o velho senhor foca, subindo as escadas ranhentas para ir até um velho quarto e dormir.
_"Eles parecem promissores."_ disse ele.
Deixando claro que a Turma está se metendo em grandes aventuras, perigosas e maravilhosas.