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tags: Nitrate City, Personagem, Character, Fate
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# Harold "The Hare" Harrington


## Aspectos
+ ___Conceito:___ Comediante de Vaudeville tornado Lebre de Desenho Animado
+ ___Invocar para___
+ Realizar feitos impossíveis para a física recorrendo à Lógica de Desenho ou à Lógica Ilógica (atravessar desfiladeiros ou não se afogar enquanto atravessa um rio)
+ Fazer pessoas rirem
+ Conhecer textos e rotinas padrão de teatro e Vaudeville
+ ___Forçar para___
+ Se comportar e cair em situações de lógica de desenho (_Shave and Haircut_ e assim por diante) nos piores momentos
+ Ser hostilizado ou abusado por não ser humano
+ Não ser levado a sério pelos mais diversos motivos
+ ___Origem:___ A última piada que virou a primeira
+ ___Dificuldade:___ Minha risada é uma máscara de um coração partido
+ O _Dodô Pirado_ é meu lar, meu refúgio, meu único lugar nessa cidade
## Abordagens
| ___Ação___ | ___Comédia___ | ___Drama___ | ___Horror___ |
|:------------:|:-------------:|:-------------:|:-------------:|
| Regular (+1) | Bom (+3) | Razoável (+2) | Medíocre (+0) |
## Façanhas
+ ___Bolsos das Maravilhas:___ +2 ao _Criar Vantagens_ usando _Comédia_ para obter qualquer tipo de equipamento útil, mas que também seja engraçado
+ ___Mudança Cósmica:___ _uma vez por sessão_, pode gerar um Aspecto automaticamente representando alguma coisa completamente absurda, com uma Invocação Gratuita. Não conta como ação.
+ ___Todo mundo ama um palhaço:___ se conseguir criar um Aspecto de ___Todos rindo___ em uma cena, pode usar Invocações Gratuitas para descobrir automaticamente Aspectos de um alvo ou situação. Funciona apenas uma vez por alvo ou situação.
## Aparência
Uma lebre humanoide de 1,80 metros de altura (com 30 centímetros de orelhas), Harold parece sempre sorrindo em sua forma de desenho animado, mas ao mesmo tempo sempre tem um ar melancólico, até triste em seu rosto lapino, com dentes incisivos levemente proeminantes. Ele se veste com calças com suspensórios e uma boina _newsie_ na cabeça, em tons escuros de marrom, e ocasionalmente tais vestes estão puídas e sujas. Possui pelo em tom caramelo, com tom mais claro na barriga, na faixa entre os olhos e no focinho. Atrás das calças pode ser visto uma calda de algodão de uma lebre, em tom claro de caramelo. Suas pernas traseiras são lapinas, as nádegas praticamente se encostando nos calcanhares quando as coxas se dobram sobre as canelas. No palco, veste roupas mais coloridas e vistosas. Sua voz, como a de muitos desenhos, é um tanto mais fina e infantil do que a de uma pessoa comum, e ele tem um tique estranho na voz, como uma gagueira esquisita difícil de explicar.
## História
_"Eu tenho uma sugestão para aliviar seu sofrimento: o famoso Palhaço Pagliacci está na cidade, vá assistir sua apresentação..."_
Eu juro por tudo que há de mais sagrado que o próximo cretino que vier com essa história do Palhaço Pagliacci para tentar me animar, eu vou fazer engolir tanta dinamite que, se ele não for um desenho, vão achar pedaços dele em Anchorage.
Deve estar estranhando isso, né? Uma lebre de desenho animado se preparando para subir em um palco de _vaudeville_, pintando sua face tal qual um palhaço. E faça-me um favor e não me confunda com aqueles coelhos fofos e quase nojentos de tão doces.
Pelo jeito, você deve ser quem colocaram para ser meu parceiro no bloco cômico, né?
Bem-vindo à Cidade de Nitrato e ao _Dodô Pirado_, filho. Senta na cadeira aí de frente para seu espelho e tome um pouco desse xerez: não é do melhor, mas é bebida legítima. Nenhuma porcaria barata e batizada, misturada com querosene ou qualquer coisa bizarra nela. E nem vai fazer você decolar que nem um foguete como se você tomasse um trago do Velho Olho Vermelho. Aproveita e ouve um pouco sobre como as coisas são aqui.
Apesar dessa minha aparência, nem sempre fui um parente distante da Lebre do Campo. Entretanto, sempre fui um palhaço ou comediante, ou ao menos fui preparado para tal. Sempre vivi no meio do circo, comédia e _vaudeville_. Meu avô era um ator cômico da Inglaterra que emigrou para os Estados Unidos, e acabou entrando para o _vaudeville_, onde meu pai fez carreira. Minha avó era corista e dançarina, e minha mãe herdou isso dela ao entrar para a companhia _Jakes & McCallum Shows_, onde ambos se conheceram. Quando eu nasci, em Chicago, a companhia estava em sua rota anual nas _Dixie Lands_, indo para o Mississipi.
Aprendi todos os truques do _vaudeville_ desde a infância, começando tão logo eu comecei a andar e falar: enquanto outras crianças jogavam baseball, eu estava estudando como cantar _La Traviatta_ ou _Yankee Doodle_ para apresentações. Aplicar maquiagem no rosto se tornou uma segunda natureza, já que eu sempre fiz papéis cômicos: aparentando ser mais jovem e sendo um tanto "cheinho", para dizer o mínimo, isso ficou como parte da minha infância e adolescência. Desse modo, os palcos e as coxias dos mais diversos teatros ao redor dos Estados Unidos foram meus parquinhos e quintais, decorar textos e esquetes cômicas minhas brincadeiras.
Quando fiquei mais velho, comecei a ficar mais com o ar de "galã" que era necessário para certas atuações no _vaudeville_, e portanto nesse momento comecei a fazer certos papéis mais dramáticos, ainda que a comédia sempre fosse onde me sentia mais a vontade. E com isso logo tinha feito um nome.
Foi mais ou menos nessa época que uma família de músicos alemães entrou para a companhia, que incluiria a que bela dama que viria a ser minha amada Greta... Uma bela moça, de cabelos loiros com leves cachos que lhe davam um ar de inocência, lábios naturalmente vermelhos e bochechas coradas.
Obviamente, o fogo da paixão se abateu sobre mim, a flecha de Cupido atingindo o meu coração e atiçando o fogo da paixão. Infelizmente eu logo lembraria que paixão vem de _passio_, latim para "sofrimento".
Eu tinha apenas 17 anos quando começamos o romance, ela tendo apenas 22. Eu era jovem, e forte, e estava disposto a lhe oferecer uma vida digna da Rainha de Sabá no que tocasse ao conforto. Eu não era exatamente rico, mas tão jovem já recebia uma boa quantia pelo meus trabalhos no palco, o que certamente ofereceria a vida que ela, no meu entender, merecia. Logo nos noivamos e, pouco depois que completei 18 anos, jurei fidelidade eterna a ela...
... e ela me devolveu a mesma fidelidade em palavras vazias.
Não muito tempo depois, comecei a perceber que ela estava fria comigo, e que ela demorava a chegar em casa. Ela parecia distante, como se não mais desejasse ficar ao meu lado. Provia-lhe com o melhor que um jovem como eu, ainda que com a experiência do palco, podia prover. Nunca fui ciumento nem nada, mas ficava preocupado se realmente não a atendia.
Foi quando um amigo meu do _vaudeville_ me disse que ela estava me traindo com o homem forte da companhia. Eu quase fui às vias de fato com esse amigo, mas ele disse que tinha como provar. Ele me indicou um endereço, um certo bar no _downtown_ de Los Angeles, onde estávamos. Eu fui...
E vi eles se beijando, ela enamorada e enlouquecida de desejo, como ela fazia quando eu ainda a namorava, seus lábios unidos ao do homem forte, seus corpos se enroscando tal qual duas enguias! Não podia acreditar, mas isso ficaria ainda pior!
Pois vi eles indo ao hotel mais próximo e, sem se preocupar com nada, entrarem em um quarto no térreo, se abraçaram, começaram a se despir e...
...bem, acho que você entendeu. Uma noite de amor tórrido e intenso, como nunca ela tinha tido comigo, nem mesmo quando éramos dois pombinhos, dois jovens enamorados, pierrô e colombina nessa Commedia Dell'Arte que é a vida, para a qual eu achava que estava preparado. Mal percebi que na realidade eu era apenas um Arlecchino, pronto para ser chutado e golpeado quando não mais necessário.
E o pior de tudo é que, mesmo enojado, triste, revoltado e perdido após presenciar a traição, eu não pude deixar aquele local, ao menos não antes deles deixarem o mesmo. Não conseguia admitir, mas eu desejava tanto aquilo que não conseguia parar de tentar ao menos ouvir, aquela lascívia, maravilhosa de uma maneira pérfida e desejável de uma maneira ignóbil. O máximo que fiz foi me ocultar, não vendo, mas ouvindo os barulhos e gritos do amor e da lascívia, minha mente torturada e desejosa por tudo aquilo.
Foi demais para mim: eu era muito experiente no palco, mas não tinha crescido diante do mundo. Em minha inocência de um menino, não percebia a maldade do mundo e das pessoas. Nessa hora percebi que muitas das risadas no _vaudeville_ não eram _por mim_, mas sim _de mim_, de uma criança, um menino grande e tolo que achava que fazer pilhérias buscando a alegria e momentos de descontração para outros tinha algum significado nesse mundo torpe, quando na verdade eu servia apenas de bufão, para ser chutado para fora da sala sem cerimônias diretamente no traseiro tão logo meus serviços não fossem mais necessários, como ela aparentemente havia me chutado.
Eu estava abalado, perdido, minhas bases destroçadas. Tudo o que eu acreditava ser certo virou fumaça, uma fantasmagoria que se dissipou e mostrou um mundo sinistro, insano e pérfido. Eu não estava preparado para esse mundo hipócrita e sujo de pessoas que eram capaz de usar e abusar dos sentimentos umas das outras, como vampiros atrás do sangue quente dos vivos.
Decidi então deixar esse mundo, pois meu sangue e meu espírito voltariam para Deus e para a terra, não servindo de antepasto para tais tétricas criaturas. E o faria no palco: ao menos minha morte serviria de mensagem, de manifesto para as pessoas, uma denúncia para que elas não brincassem com o amor, que aparentemente virara facilmente mercadoria de troca, como tudo poderia ser segundo Adam Smith.
O meu rosto pintado para fazer os mesmos truques de sempre estava pronto, assim como as mesmas roupas largas e propositalmente rotas e amassadas, apenas uma bela dose de estricnina no copo que sempre bebia durante as apresentações indicava que eu estava pronto para partir para o Céu. Ou para o Inferno, já que dizem que Deus fecha as portas do Paraíso para os suicidas. Mas não me importava: antes uma eternidade de sofrimento protegendo o meu espírito, do que sofrer aqui e me tornar um demônio. Afinal de contas, de que valia obter o mundo e perder a alma, não é? Uma opção catarita, mas ainda assim seria minha.
Mas aparentemente Deus tem seu próprio senso de humor. E um senso de humor bem sarcástico, né? Pois eu não imaginava que essa minha última piada seria a primeira.
E esse é outro motivo para eu odiar tanto essa história do Palhaço Pagliacci.
Não lembro muito bem o que se passou entre eu beber o veneno e eu acordar em um beco sujo... Eu senti o calor do veneno me tomando, a bile voltando pela garganta, o calor do ácido do meu próprio estômago, intensificado pelos espasmos que meu corpo estava tendo, meus músculos ficando dolorasamente rijos. Lembro remotamente ouvir os gritos de pânico... Mas não lembro nem da escuridão e nem do tal túnel de luz que os _médiuns_ e as cartomantes e os mentalistas falavam que viríamos ao abandonar esse mundo.
Acho que demorei para entender que eles eram charlatões.
Lembro por alto de ver uma luz brilhante, como o clarão de magnésio do _flash_ de uma câmera fotográfica, e sentir o cheiro de substâncias que fazem a revelação de um filme, e algo como celofane ou tinta acrílica passando na minha pele, me envelopando tal qual uma placenta, como se estivesse em um útero estranho, o que chegou a ser doloroso, pois ela queimava, como se parte da minha pele estivesse recebendo algum tipo de maquiagem ou pintura definitiva e outra parte era arrancada como se fosse por depilação com cera.
Quando acordei, em posição fetal, não estava no Céu e nem no inferno: fui despertado pela chuva e pelos trovões que caiam com uma aparência esquisita, luxuriante, como se eu estivesse em um maldito filme de gangster, servindo de banho de um renascimento bizarro. Perdido, senti meu corpo todo errado, com proporções estranhas, como se fosse algum maldito monstro de Frankenstein tentando se ajustar a pedaços estranhos de corpos.
Logo percebi que algo estava estranho, e um espelho sujo me mostrou uma imagem estranha, como uma lebre que caminhava nas pontas das patas traseiras, o andar meio rebolado de quem possui nádegas que quase encostam nos calcanhares quando os joelhos se dobram prontos para pular. Levei alguns segundos para perceber que aquele reflexo monstruoso e distorcido... Era meu! Era EU aquele monstro, aquela lebre mutante saída de algum devaneio ensandecido!
Lembre-se que _monstros_ eram enviados pelos Deuses Gregos para demonstrar algum desvio que os humanos cometiam. E nem queira saber a origem do Minotauro: faria um show de burlesco parecer ser um conto da carochinha.
Não tive tempo de perceber mais nada, já que meus sentidos, agora novos e poderosos além do imaginável, despertaram de maneira completa e agonizante em poucos segundos: passei a ouvir barulhos terríveis de todos os lados enquanto minhas orelhas voltavam-se para todas as direções, movendo por si mesmas tentando localizar o barulho de alguma fera devoradora. O meu nariz, agora enorme e parte de um focinho de lebre, sentia cheiros terríveis e indescritíveis, com todo o tipo de novos e terríveis significados: predadores, sangue, morte...
Uma enorme quantidade de sensações novas e apavorantes! Eu era como um bebê que, da quente e confortável barriga da mãe cai em um mundo frio e hostil. A chuva servia de um batismo profano nessa nova vida estranha, como uma criatura bizarra de pesadelos torpes, com tais sensações colocando minha mente em um estado de alerta que não me permitia pensar, instintos novos quicando no fundo da minha mente, comandando-me a fugir, me ocultar, escavar uma toca e me abrigar nela e me esconder do mundo!
Fugir, fugir, fugir! Era tudo que minha mente mais primitiva gritava! Não mais um primata, mas uma voz lépora no fundo da minha mente! Então gritei como um bebê recém-nascido, um guincho léporo horrendo e primitivo, e corri, meu coração parecendo a bateria de um _jazzman_ em um _bebop_ extremamente acelerado, fugindo para todos os lados sem pensar, sem seguir uma lógica, fugindo de predadores que nem sabia se realmente existiam, saltando quando possível, correndo nas quatro patas quando necessário, até que encontrei um local debaixo de uma ponte onde descansei.
Foi necessário alguns dias até que minha mente humana pudesse reassumir o controle, onde ficava debaixo daquela ponte, encolhido em posição lapina, a respiração ao mesmo tempo tentando ser silenciosa e captar todos os cheiros. Não havia tempo para pensar: o pensamento era demorado, e a demora poderia significar ser a presa de um predador inominável. Sei, parece idiota dizer agora, mas minha mente mais primitiva ficava dizendo o tempo todo sobre os predadores ao meu redor. Talvez esse tenha sido o momento em que percebi como o ser humano é o predador supremo: os cheiros e barulhos estavam sempre mantendo-me preparado para fugir, para não morrer, para não ser o alimento de outrem.
Mas logo passou essa sensação, quando pude acalmar meu cérebro léporo e voltar ao normal, aos poucos acalmando a pequena e assustada lebre dentro de mim, que tentava sobreviver à sua infância para, quem sabe, deixar prole. Esse período de adaptação foi bastante duro: passei algumas semanas fuçando as latas de lixo próximas em busca de itens de sobrevivência, como roupas sujas e cobertas rotas para me vestir e me abrigar do frio inclemente, comendo os restos que as pessoas atiravam de cima de tal ponte ou que eram depositados nas lixeiras, bebendo sobras de _brandy_ ou xerez barato, batizado com só Deus sabe o que, de garrafas sujas arremessadas ao rio pelos bêbados, tomando água de poças que a chuva formava, lendo os jornais antigos e perdidos que o vento trazia, algumas vezes cheirando ao peixe que eles embalaram, tentando entender o que aconteceu comigo, enquanto me focava em controlar esses instintos loucos e primitivos que ameaçavam fazer minha mente estilhaçar, como se eles fossem os elefantes dançarinos de Fantasia e minha mente uma loja cheia da mais fina e frágil porcelana chinesa.
E percebi que não fui o único a mudar.
O misterioso evento que mudou Los Angeles na Cidade de Nitrato provocou todo tipo de mudanças, fazendo monstros surgirem, criaturas dos filmes B de terror aparecerem do nada, e as pessoas estavam surtando. E eu fui um dos que passaram por tal transformação: eu agora era uma Lebre de Desenho Animado, nada muito afastado do Pernalonga, algo vindo de algum País das Maravilhas insano, que mudou meu corpo e minha mente, alterando minha compreensão das coisas ao meu redor, me tornando algo como um parente distante e apenas levemente mais são da Lebre do Campo. Cada dia eu deveria comemorar como um Desaniversário, ou deveria tomar cuidado e sempre me explicar? Ou seria meu destino acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã?
Com o tempo, comecei a entender o que aconteceu: parece que Deus queria me dar alguma lição tirando-me minha humanidade e devolvendo-me como um palhaço a esse mundo insano, ou o Demônio decidira me torturar um pouquinho mais antes de me buscar, impingindo a mim a forma e os instintos de um animal, uma criatura primitiva e de instintos violentos que por vezes não me permitiam pensar, deixando-me quase louco, temendo a tudo e todos, vendo predadores, dor e morte no ar, na água, nos muros, nas sombras.
Aos poucos, porém, comecei a tomar maior controle sobre o animal que me tornei, controlando seus instintos mais sórdidos e primitivos. Foi bem difícil, pois tais instintos queriam me forçar a fazer coisas que o ser humano tem que renegar para que tenhamos algo melhor que a barbárie e insanidade total. Os piores instintos nem eram de fuga, mas os relacionados à procriação: quantas vezes não suportei dores tremendas em meu corpo e especialmente em minha mente para me controlar e não tomar à força mulheres quando o desejo do cio se tornou quase incontrolável, esses instintos me instigando a fornicar com elas tal qual uma Lebre do Campo, com qualquer uma que aparecesse no caminho, sem exceção, imagens sórdidas de uma necessidade tão natural quanto perversa de violá-las com o meu membro leporino formando-se nas partes mais primitivas da minha mente.
Alguns meses depois, já mais habituado a essa nova forma, comecei a lentamente sair e me encontrar com outras pessoas, me escondendo em roupas longas e pesadas que encontrei em meio ao lixo e que permitiam-me ocultar os detalhes mais bestiais de minha aparência para pedir comida no Exército da Salvação, ocultando minha face leporina para mendigar alguma comida e roupas mais limpas, ocasionalmente deixando que a água da chuva banhasse meu pelo quando eu ficava imundo e fedorento demais, normalmente à noite, quando eu não era percebido, a água servindo para me purificar dos instintos animais que me perseguiam.
Nas piores épocas, quando o animal dentro de mim me comandava a saciar algum desejo perverso, eu fugia, me escondendo, usando todo o meu conhecimento e vontade para reprimir ou saciar tais desejos proibidos de uma maneira a não comprometer outras pessoas. Já estava machucado demais. Não seria eu a fazer o mesmo a outros, mesmo que isso me causasse dor, estafa e paúra.
Foi quando eu cometi um vacilo e fui percebido. Algumas pessoas denunciaram minha toca (como chamava a parte de baixo da ponte onde ainda morava) e alguns policiais da Patrulha da Noite me capturaram, alegando que eu "atrapalhava a ordem pública" e que minha toca era um "perigo sanitário", como se aquela porcaria de rio ao lado não fosse, que tinha tanto esgoto e nojeira nele que não duvido que você conseguiria caminhar nele. Creia-me, até hoje sinto aquele cheiro familiar e nauseabundo no meu focinho.
Eles me pegaram e me levaram para os Groves, dizendo que ali era meu lugar, junto a outros desenhos. Chegando lá, percebi que não teria tempo fácil e fui comandado a trabalhar em alguns dos parques que lá existem. Devo admitir que foi um pouco melhor do que eu imaginava: meu conhecimento do _vaudeville_ permitiu que eu me saísse bem junto a outros que, como eu, tornaram-se criaturas dos quadrinhos e das animações e isso fez com que eu me fizesse necessário e parte de um lar, de uma comunidade.
Não posso negar que ocasionalmente ainda me passa a vontade de voltar para lá.
Foi um período de felicidade ilusória, devo admitir, onde deixei-me levar e aceitei, ao menos por um tempo, as perversidades que minha mente animal sussurrava em minha mente. Eu me sentia à vontade para fazer aquilo, atender aquelas demandas primais, necessárias e pervertidas: aqueles meus pares eram tão necessitados quanto eu de satisfazer tais desejos primais, e alguns não tão primais assim, e muitos sabiam como fazer isso de maneiras indescritíveis, em orgias tão maravilhosas em seus clamores quanto perversas em sua devassidão, capazes de fazer o Marquês de Sade corar de vergonha.
Mas eu ainda tinha alguns freios morais, o que a maioria ali tinha abandonado totalmente, chafurdando-se nos desejos e na insanidade. Decidi que queria sair de lá, ainda que os muros com as lâmpadas de sódio me faziam passar mal. Mas consegui sair, de certa forma: eu não tinha, até onde se sabe, violado nenhuma lei, e nunca ataquei nenhum "humano normal" (malditos porcos fascistas da Klan!), então ainda era considerado alguém a ser tratado como um "cidadão comum", ao menos até segunda ordem. E me foi dado autorização para sair dos Groves e voltar para a Cidade.
Nunca imaginei que chamaria um local tão cinza e brutalista de lar, ainda mais depois de ficar em um mundo colorido e idílico, ainda que artificial, mas a Cidade de Nitrato é meu lar, no fim das contas. Por mais feia e malcheirosa, com os barulhos mais terríveis que ainda hoje fazem coração acelerar e me faz querer fugir para a ilusão e a paz dos Groves, a Cidade de Nitrato é o meu lar.
Nesse momento, um outro desenho que conheci lá e que saiu dos Groves me indicou um certo bar no _downtown_, chamado _O Dodô Pirado_, onde alguns desenhos se uniram com humanos e outras aberrações e monstros para, fora dos Groves, se apresentar para pessoas interessadas em verem e vivenciarem um tanto dessa loucura em um ambiente controlado e onde a polícia podia agir sem receber uma tonelada de tijolos direto na cabeça. Um local onde haviam aberrações se apresentando para diversão de outros. Um burlesco, um _freak show_, mas com outro nome. De imediato, neguei: ainda tinha algum orgulho. Apesar de meu corpo de lebre de desenho animado, ainda sentia em mim um coração e sentimentos de um ser humano, e não me deixaria ser reduzido a uma atração bizarra de um zoológico para diversão de grã-finos hipócritas.
Mas chegou um momento em que as coisas apertaram de vez e até mesmo os Bons Samaritanos da cidade estavam ficando com o coração de pedra, as doações cada vez mais escassas, a mendicância difícil, e a perseguição por aqueles que não entendiam e nem queriam entender o que aconteceu tão intensa quanto possível. Então entendi que tinha que colocar o orgulho no armário e me sujeitar a ser um Augusto nesse grande circo insano onde os Palhaços Brancos na realidade não usavam maquiagem, mas ternos finos e bons relógios, ao menos se desejava sobreviver nesse mundo frio e hostil, minha única opção voltar para o idílio artificial que ocultava a devassidão e bestialidade dos Groves.
E não pretendia voltar para aquela insanidade generalizada que são os Groves se eu pudesse evitar. Não quero me pegar descendo para a insanidade e me chafurdando na ignomínia. Eu sei que a Polícia da cidade tem caçado desenhos para devolver-lhes para lá, e sei muito bem que eu e todos aqui no _Dodô Pirado_ estamos no fio da navalha: basta que alguém mije fora da bacia aqui, e todos vamos ser mandados para lá, onde seremos reduzidos a mais um bando de desenhos insanos que, se por um lado são bobinhos, por outros são um perigo imenso para aqueles que não se controlam e não se importam em dançar na espiral da loucura.
Desde então eu tenho trabalhado e vivido perto do _Dodô Pirado_: todos aqui sabem que não sou mais humano, mas uma aberração gerada pela Centelha no momento em que tentei me matar. De fato, muitos dos artistas e dos funcionários são aberrações como eu. Creia-me, você é a exceção e não a regra por aqui. Se teme monstros, talvez seu lugar não seja aqui, filho. Mas se não os temer, pode ter certeza que terá grandes amigos aqui, pois somos muito solidários uns com os outros, pois nossas aparências são estranhas uns aos outros, então temos que aprender a ver o importante, o que é invisível aos olhos mas não ao coração, como diz naquela coisa açucarada que aquele aviador francês escreveu.
De fato, com o tempo percebi que há aqueles que se compadecem e sentem simpatia por mim aqui, e decidi abrir meu coração para tal caridade: por mais doloroso que isso seja, ainda assim isso era muito melhor do que a opção de me abandonar para a solidão, trilhando a trilha para a insanidade. Cheguei até mesmo a ter relacionamentos amorosos, mas nada mais sério: algumas pessoas possuem desejos estranhos, e já que os instintos bestiais às vezes me pegam em situações péssimas, é sempre bom ter essa possibilidade de satisfazer os mesmos quando é consensual e entre adultos. Ainda é algo dentro da lei e melhor que as opções que vi nos Groves. Creia-me, você ficaria horrorizado.
Percebi então que fazia agora parte dessa nova companhia feita de humanos e aberrações cujos corações puros enfrentam a insanidade e perfídia que se abate nessa sociedade fria e hipócrita, moderada e carola na máscara, mas que na escuridão e no segredo desfigura-se em maldade, insanidade e devassidão. Nós somos o seu reverso: somos horrendos e aberrantes em nosso exterior, mas temos, ou ao menos tentamos alcançar, a mais alta instância em nossos valores, que defendemos com unhas e dentes, no meu caso quase de maneira verdadeira. Somos o reverso, o _yang_ do _yin_ formado pela _high society_ à qual satisfazemos como bufões e palhaços, sem deixar-lhes saber que a piada é sobre eles.
Bem... Todos somos atores nesse Teatro insano que é a vida, o Bardo dizia (com algum complemento meu), então eu continuaria sendo Arlecchino, procurando uma Colombina e passando a perna em Pantaleone, no Doutor e no Capitão. Entretanto, jamais serei Brighella, serviçal egoísta e vil, rasteiro em sua subserviência ao superior e ignóbil com seus pares e seus inferiores. Tampouco poderei voltar a ser Leandro, sonhador e inocente, inocência que o mundo arrancou de mim. Posso ocasionalmente ser Pierrot, um servo honesto, se isso se fizer adequado. Ainda assim, sinto falta da minha amada Greta, minha amada Colombina que me trocou por um Brighella.
Ainda não sei porque estou lhe contando isso, meu jovem. Deve ser porque vejo em você o meu eu antigo, o meu Leandro, amoroso e inocente e disposto a tudo por algo maior, e quero lhe mostrar como as coisas podem ser, para que você não tenha que, por erro ou inocência, vir parar na lama e na escuridão. Pode ser porque, secretamente, quero destruir tal inocência, dando satisfação ao lado Brighella em mim, patife e biltre servo que deseja o mal de seu senhor. Ou apenas pode ser porque já não sou tão jovem, e ficar segurando tal sofrimento dentro do meu coração pode ser a porta de entrada para o País das Maravilhas obscuras e pérfidas para o qual minha mente será arrastada se eu não mantiver tal porta fechada, me livrando desses desejos ao lembrar minha história.
Mas seja como for já vão nos chamar para ir para o palco... Deixe-me finalizar minha caracterização: afinal de contas, ainda tenho que comer e pagar a pocilga que chamo de toca, quase de maneira literal. Sem falar que cenoura, aipo, chicória e couve-flor frescos não são exatamente baratos, e comprar aquele chorume que vem congelado, pré-cortado e/ou enlatado, cheio de venenos e mais seco que o Deserto do Saara não desce bem e não fazem o serviço de impedir que meus incivisos cortem minha língua fora. Deixe-me então acabar de me aprontar para a apresentação terminando a minha maquiagem. Talvez você também deva fazer o mesmo garoto, ou o Chefe vai te puxar do palco e te meter o pé na bunda antes que você diga _"Pilhéria!"_
Afinal de contas, o show deve continuar.
<!-- LocalWords: City Character Harold The Hare Harrington Shave
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<!-- LocalWords: and Haircut Dodô lapino Pagliacci Anchorage Jakes
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<!-- LocalWords: cheinho downtown Commedia Dell'Arte Arlecchino
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