# Serviços domésticos e a falta de protagonismo das mulheres nas Redes Comunitárias
## Um relato sobre as experiências vividas na comunidade de Marrecas
*De uma perspectiva de gênero, relato a minha vivência inicial com a tecnologia e as redes comunitárias na comunidade tradicional de Marrecas e no seu entorno. Os relatos indicam que há um grande potencial e interesse por parte das comunidades em ter autonomia nas comunicações e facilidades obtidas pelo acesso de qualidade a internet. Apresento uma abordagem das condições de vida e trabalho das mulheres que encontram nos serviços domésticos e de cuidados um obstáculo para terem protagonismo, tempo e energia para se dedicarem a Rede Comunitária e no desenvolvimento pessoal.*
## Conhecendo a Comunidade de Marrecas
Conheci o conceito de Redes Comunitárias em 2019 e colaborei junto ao IBEBrasil no projeto de expansão dos pontos de acessos à internet na comunidade de Marrecas.
Marrecas um distrito rural, próximo ao litoral em Campos dos Goyatacazes Rio de Janeiro. São 733,10 KM distância de São Paulo, onde vivo.
Uma Comunidade marcada pelo escravagismo nas fazendas de cana de açúcar e de usinas Agroaçucareiras que encerraram as atividades por causa da extração do petróleo na Bacia de Campos, deixando um legado de trabalhadores rurais desassistidos. Sem capacitação profissional para trabalharem nas plataformas de extração ocorreu a migração de mão de obra especializada da capital do Rio de Janeiro, para os distritos vizinhos, como por exemplo o de Farol de São Tomé onde se instalou o heliporto com acesso à plataforma de extração. Já em Açu, outro distrito vizinho, se instalou o maior Porto Industrial da América Latina, causando diversos impactos ambientais e sociais em todos o distritos da região litoranea.
Com um elevado grau de analfabetismo, alguns poucos moradores trabalham no Porto Industrial como tercerizados e salário baixos, outros nos serviços públicos com indicação de políticos e sem seus direitos trabalhistas.
Marrecas não possuí infraestrutura a água é de poço, e o esgoto são fossas, o transporte público é escasso. A edução é garantida por uma única escola para todas as idades.
## A pandemia da Covid-19
A pandemia da Covid-19 trouxe mais isolamento para Marrecas. Na questão de contágio não fomos notificados com nenhum caso fatal. Porém as dificuldades financeiras se agravaram. Os produtores de hortaliças e frutas da região dispensaram os poucos trabalhadores rurais. Os autônomos, como vendedores ambulantes, pedreiros, diaristas, foram obrigados a se deslocarem para os centros, expondo-se ao contágio em trabalhos informais e mal remunerados.
A assistência emergencial do governo não incluiu a comunidade, que, por trabalhar na informalidade, não foi incluída nos registros do governo. Diante do desafio de manter o sustendo do lar, agravado pela Covid-19, temos as mulheres que realizam o trabalho do cuidado. Esse cuidado que fornece toda a estrutura para que o trabalho remunerado entre os familiares seja possível, roupas limpas, criação de filhos, comida pronta, casa arrumada.
O cenário de Marrecas reflete o machismos estrutural no Brasil. Segundo a pesquisa do [Instituto brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada Ipea¹ ](https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34450
) realizada no ano de 2018, as mulheres dedicam ao lar 10 horas a mais por semana que os homens. Seja no artesanato, como diaristas, empregadas domésticas, cuidando da horta, esse dado reforça outra realidade para as mulheres, a dupla jornada de trabalho. O artesanato que era o momento para as conversas, trocas de saberes e conhecimentos se tornou uma questão de complementação da renda familiar.
As barreiras sanitárias impediram de viajarmos para Marrecas para dar continuidade nos trabalhos da Rede Comunitária, apenas os serviços de manutenção e emergência estão funcionando. Com a distância e como não houve tempo de termos criados laços fortes os contatos que mantinhamos foi enfraquecendo. As mulheres estavam extremamente atarefadas e não dispunham de energia e conhecimentos técnicos para encontros remotos. A cada tentativa de contato percebemos que era como estivéssemos dandos ordens ou importunando. Optamos para realizar as reunião de forma presencial, quando houver o fim do isolamento social e das barreiras sanitárias.
## Algumas histórias
No final do ano de 2019 eu e meu companheiro compramos uma casa em Marrecas os muros baixos, as árvores frutíferas por toda a comunidade, crianças na rua, as hortas caseiras, nos trouxeram uma resignifição de qualidade de vida em relação a vida urbana da Capital São Paulo.
Houve uma situação em que uma das jovens alegava nunca ter sofrido machismo. Quando ela se inscreveu para uma das oficinas não compareceu fomos verificar o que houve. Chegando em sua casa ela nos avisou que primeiro teria que fazer as obrigações domésticas e depois iria para a oficina, e que o serviço havia dobrado por conta que haviam recebido visitas dos primos . Os irmãos e primos, foram para a oficina.
Em um período anterior a compra da casa, eu e o meu companheiro ficamos como hospedes de uma família composta por uma casal que trabalha fora, e uma filha em ano escolar. Pela manhã realizávamos as tarefas domésticas e à tarde os trabalhos referentes a rede comunitária. Decidimos preparar o jantar e quando a mulher que nos hospedou nos viu na cozinha ficou muito espantada por meu companheiro está realizando tarefas domésticas e declarou que isso era impossível no caso dela e que nunca o marido realizou nenhuma tarefa nem ao menos juntos.
Nas oficinas de rede comunitária a participação feminia sempre foi muito baixa, as mulheres só eram maioria quando haviam festas, isso porque eram as mesmas que preparavam as refeições, decoração e a limpeza no final. A cada encontro eu, como mulher, coloco-me no lugar daquelas mulheres que desconhecem as potencialidades que têm e que vão muito além das domésticas por falta de disponibilidade. Eu como mulher fui educada e condicionada a ter como prioridade as tarefas domésticas diferente dos meus irmãos homens. Os dados da [Pnad Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios²](https://www.ovale.com.br/_conteudo/brasil/2020/06/105781-aumenta-diferenca-na-carga-de-trabalho-domestico-entre-homens-e-mulheres.html)
confirmam a perpetuação desse padrão que não é decrescente. Enquanto apenas 62% dos homens cozinham e lavam pratos, 93,5% das mulheres fazem o trabalho. No cuidado com as roupas 91,2% são mulheres enquanto apenas 54,6% são homens.
Outras várias situações semelhantes até mesmo quando fomos vistos limpando, lavando roupas juntos foi algo que repercutiu muito. Alguns diziam que isso era privilégio das pessoas da cidade grande mas que ali essa modernidade não havia chegado.
## O Cuidado como trabalho de mulher
A execução de trabalhos não remunerados e sem visibilidade, foram imprescindíveis para o desenvolvimento do capitalismo. Considerando-se o cuidado como trabalho e não apenas pela ótica de ser mal remunerado mas também a partir das configurações de classe e raça para uma maior compreensão da [Ética do Cuidado³](https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/etica-do-cuidado/).
Podemos notar essa contradição nas narrativas impostas pelo capitalismo. Ao mesmo tempo que nos últimos anos o mercado de trabalho tem criado uma abertura maior para a participação das mulheres, ainda recai sobre nós as cobranças pela exclusiva função de cuidados do lar e filhos. "Se minha esposa trabalhar, quem vai limpar a casa e fazer o meu jantar?". A mulher carrega a estigma de quem cuidará dos seus filhos quando você vier trabalha? Essas perguntas nunca são feitas aos homens. Segundo estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), [o salário médio de uma mulher brasileira⁴](https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-03/mulheres-lutam-por-igualdade-mas-problemas-historicos-persistem
) com educação superior representa 62% do de um homem com a mesma escolaridade. Ainda assim, as funções normalmente atribuídas as mulheres no mercado de trabalho continuam sendo as de cuidados, longe das funções de liderança, que quando conseguem alcançar, se deparam com salários inferiores aos dos homens com a mesma função.
Um dos agravantes sociais é que vemos com naturalidade o ato dos homens que não assumem a paternidade em detrimento ao abandono maternal. Segundo levantamento da [Central Nacional de Informações do Registro Civil brasileiro⁵](
https://www.metropoles.com/brasil/dia-dos-pais-pra-quem-com-80-mil-criancas-sem-pai-abandono-afetivo-cresce#:~:text=Segundo%20o%20IBGE%2C%20cerca%20de,de%20m%C3%A3es%20chefiam%20lares%20sozinhas.&text=Essa%20taxa%20de%206%2C31,enfrentam%20a%20tripla%20jornada%20diariamente) (CRC), 80.904 das crianças registradas nos cartórios do Brasil em 2020 têm apenas o nome das mães nas certidões de nascimento, de um total de 1.280.514 nascituros.
## A importância da comunicação
O resgate das origens das mulheres precisam urgentemente ser considerado em todo tempo e espaços possíveis.
A comunicação entre as suas necessidades, expectativas e desejos precisam ser debatidos e apresentados muito além das discussões propostas pela grande mídia, que afirmam que o local natural da mulher é em casa, cuidando da família e do lar, e não no mercado de trabalho, na política, estudando ou empreendendo.
As politicas públicas pouco fazem para amenizar os desafios impostos para as mulheres, principalmente para as que são chefes de família. Neste sentido, existiram duas propostas no [Senado do Brasil⁶](https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/divisao-de-tarefas-domesticas-ainda-e-desigual-no-brasil/divisao-de-tarefas-domesticas-ainda-e-desigual-no-brasil) propondo que o trabalho doméstico e do cuidado sejam inclusos no PIB Brasileiro, proposto por uma mulher Deputada onde houveram debates sobre a abrangência do termo cuidado. E a proposta de uma mulher Senadora para que as empresas com mais de cem funcionários disponibilizassem creches. Nenhum desses projetos foram aprovados ou devidamente apreciados.
No contexto das redes comunitárias, é importante promover espaços colaborativos e exclusivos para mulheres onde possam compartilhar com privacidade e segurança suas dores, aflições, saberes, alegrias e conquistas, para que juntas possam se fortalecerem. Para isso é fundamental a aplicação dos princípios de [Comunicação Colaborativa⁷](http://www.uel.br/grupo-estudo/gefacescom/images/Congresso_26_EAIC_2013.pdf) nesses espaços, para que todas possam se sentir acolhidas e pertencentes a comunidade.
> "Organizações verdadeiramente sustentáveis possuem membros que apoiam, compreendem a significação de sustentabilidade e a vivenciam, e estas significações são construídas através da palavra falada, portanto o diálogo é imprescindível para que ocorra a comunicação colaborativa" - Ana Alves.
Há diversas metodologias ativias para alcançar a comunicação colaborativa, mas entre as práticas presentes nas comunidades, que na maioria das vezes surgem de forma orgânica e intuitiva, estão as rodas de conversas entre mulheres. É onde podemos ouvir e captar as dores, as alegrias e criar juntas soluções para os problemas que enfrentamos para alcançarmos o protagonismo nas redes comunitárias. As rodas de conversa são práticas sem hierarquias, com facilitadoras que viabelizam os diálogos para propostas práticas e com a colaboração de todas, construindo algo novo e que contemplem os anseios de todas.
## Redes comunitárias conectando mulheres urbanas e rurais
As experiências por mim vividas na Comunidade de Marrecas e entorno declaram a importância dos diálogos com culturas diferentes e são os pontos focais para se desenvolverem.
A comunicação colaborativa, proporciona os momentos de escuta e da construção das novas formas de se relacionar diante de temas sensíveis, para as mulheres, e que exigem um olhar feminista que traz à equidade de gênero. Os métodos, atividades e práticas que trazem proximidade com o contexto de protagonismo de mulheres nas redes comunitárias, e que vão muito além das comunicações e conhecimentos técnicos mas uma naturalidade em exercer qualquer atividade que lhe causem interesse.
A Ética do Cuidado apresenta que não há uma distinção entre os gêneros na forma de se ver e viver o cuidado, mas que de forma desigual e tradicional vem se perpetuando mesmo diante das mudanças sociais.
O trabalho reprodutivo, gravidez, parto e lactancia, assim como o conjunto de atenções e cuidados necessários para o sustendo da vida e a sobrevivência humana, devem ser reconhecidos economica e socialmente para que haja uma mudança estrutural, como bem colocado por Silvia Federici em sua entrevista "[Capitalismo, reprodução e quarentena⁸](https://www.editoraelefante.com.br/capitalismo-reproducao-e-quarentena/)":
> "Uma luta que conecta mulheres em áreas urbanas com áreas rurais para criar novas estruturas, novos laços de solidariedade, novas formas de reprodução. Sempre inspirado no conceito de que a reprodução da vida, a finalidade da sociedade, deve ser o bem-estar, o bem viver — e não lucro privado."
As redes comunitárias, mais que uma infraestrutura para compartilhamento da internet, é acima de tudo uma rede de pessoas, que promove a autonomia da comunidade e seus individuos, lhes garantindo o direito a comunicação e a liberdade de expressão. No entanto, para fomentar o bem-estar e bem-viver, são necessários o respeito dos saberes e da cultural local, sem deixar de assegurar o respeito a diversidade e a igualdade de todas e todos.
### Referências:
1. Mulheres dedicam muito mais tempo ao trabalho doméstico
https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34450
2. Aumenta diferença na carga de trabalho doméstico entre homens e mulheres
https://www.ovale.com.br/_conteudo/brasil/2020/06/105781-aumenta-diferenca-na-carga-de-trabalho-domestico-entre-homens-e-mulheres.html
3. Ética do cuidado
https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/etica-do-cuidado/
4. Mulheres lutam por igualdade, mas problemas históricos persistem
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-03/mulheres-lutam-por-igualdade-mas-problemas-historicos-persistem
5. Dia dos Pais pra quem? Com 80 mil crianças sem pai, abandono afetivo cresce
https://www.metropoles.com/brasil/dia-dos-pais-pra-quem-com-80-mil-criancas-sem-pai-abandono-afetivo-cresce#:~:text=Segundo%20o%20IBGE%2C%20cerca%20de,de%20m%C3%A3es%20chefiam%20lares%20sozinhas.&text=Essa%20taxa%20de%206%2C31,enfrentam%20a%20tripla%20jornada%20diariamente.
6. Divisão de tarefas domésticas ainda é deseigual no Brasil
https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/divisao-de-tarefas-domesticas-ainda-e-desigual-no-brasil/divisao-de-tarefas-domesticas-ainda-e-desigual-no-brasil
7. A Comunicação Colaborativa como possibilitadora da construção da sustentabilidade em uma organização do terceiro setor
http://www.uel.br/grupo-estudo/gefacescom/images/Congresso_26_EAIC_2013.pdf
8. Capitalismo, reprodução e quarentena
https://www.editoraelefante.com.br/capitalismo-reproducao-e-quarentena/