**Cemitérios italianos no Sudoeste de Minas Gerais: Prévio reconhecimento para sua preservação e restauro** **Antonio Carlos Rodrigues Lorette** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais *lorettearquitetos@gmail.com* ## Resumo Um conjunto de 12 municípios do Sudoeste do Estado de Minas Gerais, ligados por uma mesma estrada de rodagem, tem em comum a presença cultural da imigração italiana, desde o final do século XIX, e que está bem representada em seus cemitérios. Destes, selecionamos quatro exemplares sequenciais, os cemitérios de Guaranésia, Guaxupé, Muzambinho e Cabo Verde, apresentando breve histórico e descrição de seus elementos compositivos. Em seguida, analisamos as tipologias constantes e o estado de conservação, sugerindo procedimentos preliminares para sua preservação. ## Abstract A group of 12 municipalities in the Southwest of the State of Minas Gerais, connected by the same road, has in common the cultural presence of Italian immigration, since the end of the 19th century, which is well represented in its cemeteries. Of these, we selected four sequential specimens, the cemeteries of Guaranésia, Guaxupé, Muzambinho and Cabo Verde, presenting a brief history and description of their compositional elements. Then, we analyze the constant typologies and the state of conservation, suggesting preliminary procedures for their preservation. ## Introdução O Estado de Minas Gerais é um território complexo em sua formação histórica, política e administrativa. Boa parte de seus municípios se concentra no ala sudoeste, na fronteira com o Estado de São Paulo, através de extensa cordilheira. A ocupação territorial se consolidou na Primeira República, a partir de 1889, com a expansão das lavouras de café e da malha ferroviária. Para cobrir a demanda de mão-de-obra, após a abolição da escravatura (1888), fazendeiros paulistas incentivaram a imigração em massa de colonos italianos neste território. Minas Gerais pouco se mobilizou, apenas promovendo a imigração no Sul e na Borda da Mata. Como a fronteira não limitava investimentos particulares, a imigração italiana encontrou do lado sudoeste mineiro melhores opções de trabalho e possibilidade de compra de terras. Entre os colonos italianos, encontravam-se profissionais liberais, artesãos, serralheiros, marceneiros, mestres-de-obras, pintores e escultores. Ao liquidar a dívida da viagem, muitos partiram do rural para o núcleo urbano, qualificando seu comércio e construções civis. O mais simbólico patrimônio produzido por esses imigrantes italianos são os cemitérios, onde convergem o ideal da escultura clássica e espelham, respeitando as escalas, os famosos cemitérios monumentais italianos, como Campo de Verano (Roma), Staglieno (Gênova) e Cemitério de Milão. Nosso estudo está concentrado nos tradicionais cemitérios do Sudoeste de Minas Gerais, documentando e levantando a produção da arte funerária, e investigando questões socioculturais em sua concepção e construção. Selecionamos 12 cemitérios públicos, nos seguintes municípios: Arceburgo, Guaranésia, Guaxupé, Muzambinho, Cabo Verde, Botelhos, Poços de Caldas, Andradas, Jacutinga, Ouro Fino, Monte Sião e Albertina. Interligados pela rodovia BR 146 e em pequeno trecho da BR 491, o epicentro corresponde a Poços de Caldas, atualmente o mais populoso município. Para este artigo, trataremos de quatro cemitérios entre os selecionados – Guaranésia, Guaxupé, Muzambinho e Cabo Verde –, interligados pela mesma estrada, com breve histórico e descrição de seus elementos compositivos. Todos estes cemitérios foram construídos a partir do final do século XIX, alguns trasladados do centro urbano por medidas sanitaristas, assentados em contra vertentes e morros opostos, afastados dos “vivos” até um quilômetro de distância. Os sepultamentos não são de maioria italiana, porém, os monumentos – túmulos, jazigos, capelas e pórticos – são projetados e construídos por duas ou mais gerações de descendentes italianos. As obras vão de esculturas em mármore Carrara a peças fundidas em bronze, sobre estruturas de granito brasileiro. Filhos de italianos foram enviados para Pietrasanta, com o objetivo de se aperfeiçoarem na arte da escultura. Entre os principais nomes, estão: Fernando Furlanetto, Lélio Coluccini, Amadeu Martinelli, A. Novelli, A. Fazzi, M. Tavolaro, Eugenio Pratti, Nardini, Franceschini Grocera, e Aldo Puccetti. Curiosamente, todos atendiam as inúmeras encomendas em cemitérios mineiros, apesar de suas empresas situarem no lado do Estado de São Paulo, como Amparo, Espírito Santo do Pinhal, São João da Boa Vista, São José do Rio Pardo, Mococa e Ribeirão Preto. ![](img/01.jpg =50%) *Cemitério de Poços de Caldas, nos anos 1940. Nos fundos, encostados nos muros, os túmulos trasladados do antigo cemitério do centro, em 1905. Foto: Acervo do Autor* ## Guaranésia Antiga Santa Bárbara das Canoas, Guaranésia originou-se de uma capela construída em 1820 e curada em 1855. Elevada à freguesia em 1873, tornou-se vila em 1901 e cidade em 1915 (Barbosa, 1971, p. 208; Ferreira, 1959, v. XXV, p. 178). O velho cemitério, um pequeno cercado de madeira, localizava-se em frente à Igreja Matriz de Santa Bárbara, atual Praça Coronel Paula Ribeiro. Em 1875, o cemitério paroquial foi lacrado e transferido para a antiga Praça Getúlio Vargas, delimitado, então, por muros de pedras (Veiga, 1874, p. 362; Veiga, 1884, p. 358). No final do século XIX, foi realizada nova transferência para local onde se encontra atualmente, a mais de um quilômetro de distância do Igreja Matriz. Em formato retangular, o cemitério se dividia em duas alas: à direita de quem entra, com sepulturas gerais e infantis, e, à esquerda, as sepulturas perpétuas. O cemitério foi ampliado em 1954, em suas laterais e aos fundos, construindo um pórtico neocolonial para acomodação da administração e sanitários. A rua principal é ladeada por vários túmulos tipo pináculo e soco, revestidos em mármore branco Carrara, datados a partir de 1900. Com várias esculturas de anjos e retratos de falecidos, esta antiga alameda terminava na capela funerária do Cel. José Gabriel Pinheiro, em sua lateral direita. Dos túmulos e jazigos em destaque, poucos são os sobrenomes italianos dos falecidos, estes estão reservados aos produtores dos monumentos, como Fazzi, Grosera & Belloni, de Ribeirão Preto, e do escultor Aldo Puccetti, estabelecido em São José do Rio Pardo e Campinas. ![](img/02.jpg =50%)*Ala infantil do Cemitério de Guaranésia. Túmulos em miniaturas, cercados por grades e encimados por anjinhos de mármore Carrara. Foto do Autor.* ## Guaxupé A doação de 24 alqueires de terra da Fazenda Nova Floresta, em 1837, para a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores, deu origem ao Arraial de Guaxupé. A primitiva capela foi concluída em 1839 na atual Avenida Conde Ribeiro do Valle, porém, com a criação da paróquia em 1856, decidiu-se pela transferência da igreja matriz para um ponto mais elevado, inaugurada em 1864. O município de Guaxupé foi instalado em 1912 e a criação do bispado, em 1916 (Barbosa, 1971, p. 210-1; Ferreira, 1959, 192; Ribeiro do Valle, 1984, p. 3). Há relatos da existência de um primitivo cemitério na localidade, antes de 1853, que ficava a quase quatro quilômetros de distância da povoação, nas proximidades da Estação do Japy, que deveria servir aos “cativos de nação” e aos falecidos de doenças contagiosas (Barbosa, 1971, p. 210). Com a construção da Capela de Nossa Senhora das Dores, em 1839, o cemitério funcionou nas proximidades do templo e em seu interior. Após a inauguração da Igreja Matriz, em 1864, um novo cemitério foi instalado na quadra lateral do seu adro, onde hoje se encontra o Parque Infantil. Este cemitério foi totalmente reconstruído no início dos anos 1880, a partir da iniciativa de Manoel Joaquim Ribeiro do Valle, Barão das Dores de Guaxupé (Veiga, 1884, p. 362; Ribeiro do Valle, 1984, p. 3). O atual cemitério de Guaxupé foi construído, inaugurado e bento em 1896, a quinhentos metros de distância da matriz, seguindo rigorosamente os preceitos higienistas da época. Segundo o cronista Luiz Antonio Dias, em relato de 1900, este cemitério “é grande, quadrado, bem murado, com um grande portão de ferro e ocupando um bonito e vistoso lugar, no alto e já contra vertente da Freguesia, ficando a população isenta das exalações sepulcrais”. E diz mais, que lá já havia “suntuosos mausoléus” (Ribeiro do Valle, 1984, p. 39) Nomeado de “Luiz Smargiassi”, pela Câmara Municipal de 1989, o cemitério público de Guaxupé é precedido por um grande logradouro arborizado, a Praça da Saudade, em frente à movimentada Avenida Dona Floriana. A entrada se faz por um portal na ordem dórica, projetado e construído nos anos 1920, pelo arquiteto italiano Luiz Puntel. Possui ornamentos em relevo, com coroas e tochas acesas, além do dístico escatológico sobre o arco de passagem: EU FUI O QUE TU ÉS E TU SERÁS O QUE EU SOU. Em formato retangular, o cemitério original foi ampliado nos fundos e numa das laterais, chegando ao seu limite por se encontrar envolvido pela malha urbana. Como o cemitério de Guaranésia, que provavelmente seguiu seu modelo, se divide em duas alas – sepulturas gerais, à direita de quem entra, e perpétuas, à esquerda –, esta última, lotada de túmulos pináculos em mármore Carrara e capelas funerárias suntuosas. A rua principal, que divide o cemitério, é notável em quantidade de túmulos da transição dos séculos 19 e 20, culminando na capela funerária do Barão de Guaxupé, neogótica com colunas manuelinas. Algumas famílias italianas se destacam em jazigos produzidos a partir dos anos 1920. Já a produção dos monumentos é credenciada principalmente aos importados da Itália pela empresa local de Luiz Puntel e a vários outros escultores e marmoristas da região paulista, como J. Bonetti, de Casa Branca; V. Orlandi, de Mococa; e Valentim Viezzi, de São José do Rio Pardo. ![](img/03.jpg =50%) *Rua principal do Cemitério de Guaxupé. Túmulos e jazigos do século XIX concorrem com os troncos das árvores. Foto do Autor* ## Muzambinho Muzambinho foi fundado em 1857, quando Pedro de Alcântara Magalhães escolheu um topo de sua propriedade e construiu uma capela. Seu adro foi cercado por residências de famílias de outras localidades. O povoado foi batizado de São José da Boa Vista de Cabo Verde e logo foi elevado a Distrito de Paz, em 1860, à Paróquia, em 1861, e à Vila, em 1878, com a denominação trocada para Muzambinho (Ferreira, 1959, v. XXVI, 1959, p. 168; Barbosa, 1971, p. 305) O rápido desenvolvimento foi devido, principalmente, à economia agrícola do café, pelo solo fértil e clima adequado do município. O fundador Pedro de Alcântara Magalhães não viveu para ver o povoado transformado em cidade. Morreu em 1877, aos 78 anos, sepultado dentro da capela que havia construído (Falcucci, 2010, p. 244.) O primeiro cemitério de Muzambinho ficava atrás da Igreja Matriz, em extensão ao seu grande adro. Em 1874, reclamavam a necessidade da fatura de um novo cemitério, mais distante do centro. Alguns anos depois, iniciadas as obras do novo, demorou a sua conclusão, encontrando-se abandonado em 1884 (Veiga, 1874, p. 39; Veiga, 1884, p. 352). Os corpos sepultados na matriz foram exumados e trasladados para o novo e atual cemitério público a partir de 1897, inclusive os restos mortais do fundador Pedro de Alcântara Magalhães. O cemitério de Muzambinho foi assentado no “Alto do Anjo”, o morro mais elevado do município, a distância aproximada de um quilômetro da Igreja Matriz. Por entre os túmulos antigos se tem uma vista espetacular do centro da cidade e do crepúsculo do pôr do sol. Seu formato original é quadrangular, se acomodando à topografia disponível, levemente inclinada. Houve expansão para a lateral esquerda de quem entra, do lado das sepulturas perpétuas, e aos fundos, pois a ala das sepulturas gerais e infantil ficou limitada pela antiga estrada vicinal para Cabo Verde. Tal como sua capela central, o pórtico de entrada foi reconstruído e ampliado em 1983, para acomodar a administração, o depósito e os sanitários. Os túmulos e jazigos mais antigos se concentram na ala perpétua, não voltados para a rua principal, e, sim, com vistas para o centro de Muzambinho. Junto aos restos mortais das famílias mais importantes de Muzambinho, vieram também as lápides de mármore Carrara, que foram adaptadas verticalmente em pináculos de alvenaria. A produção dos monumentos e capelas funerárias, estátuas de mármore e bronze, é quase toda por marmorarias e escultores de sobrenome italiano do território paulista, como os Irmãos Coluccini, de Campinas; Valentim Viezzi, de São José do Rio Pardo; e Fazzi, Franceschini Grosera e Belloni, de Ribeirão Preto. ![](img/04.jpg =50%) *Vista parcial das sepulturas perpétuas do Cemitério de Muzambinho. No “Alto do Anjo”, a visão panorâmica da cidade através dos túmulos. Foto do Autor* ## Cabo Verde Cabo Verde tem sua origem na mineração do ouro de faisqueira. Veríssimo João de Carvalho descobriu o minério no riacho da Assunção, em 1762, transferindo sua família para a localidade. A notícia se espalhou rapidamente e a população de mineradores aumentou progressivamente, a ponto de criar uma nova paróquia no Arraial de Nossa Senhora da Assunção do Cabo Verde, em 1764. Na ocasião, o Bispo de São Paulo autorizou a construção de um cemitério no adro da capela do arraial. A freguesia foi criada em 1839, ano em que a capela foi reformada e ampliada para se tornar Igreja Matriz. Além deste templo, Cabo Verde também teve a capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, erguida a partir da provisão do bispo de 1766. Atrás desta capela, constituiu-se o segundo cemitério de Cabo Verde, descrito nos antigos livros de óbitos como “Cemitério do Rosário” (Carvalho, 1988, p. 213). O município de Cabo Verde foi criado em 1846, título restaurado em 1866, após transferência para Caldas. Recebeu foro de cidade ainda no Império, em 1877 (Barbosa, 1971, p. 89). Por estar fora da capela e devidamente murado, o cemitério do Rosário permaneceu em funcionamento até meados do século XIX. Quanto ao cemitério da capela da Assunção, não comportando mais sepultamentos em seu interior e adro, deveria ser desativado e transladado para fora da povoação. Nos anos 1830, o arraial recebeu a provisão do Bispado de São Paulo para a “construção do cemitério da irmandade”, no alto do morro que existia em frente ao Largo da Matriz. Após a construção do “Cemitério do Morro”, o hábito de sepultamento no interior da Matriz continuou até 1879, entre os poderosos e ricos, quando foi contestado pela Câmara Municipal, com pesada multa. Em 1878, a Câmara providenciou a construção do atual Cemitério Municipal, desativando os cemitérios do Rosário e do Morro (Carvalho, 1988, p. 213). A partir de 1910, o Agente Executivo (Prefeito) Oscar Ornelas promoveu o desaterro do morro do velho cemitério, que limitava a Praça da Matriz, em frente o atual Colégio Pedro Saturnino. A terra tirada deste morro serviu para formar o grande aterro da extensão desta praça, além da correção da velha Praça Major Pedro de Melo e do caminho do Cemitério Municipal (Carvalho, 1988, p. 227) A topografia acidentada de Cabo Verde, de origem mineradora, dificultou em muito a escolha de um terreno adequado ao novo cemitério, distanciando-o a cerca de um quilômetro de distância da Matriz e tendo que investir no aplainamento de sua principal via de acesso. Seu formato não difere de outras cidades aqui analisadas, retangular e longo, a escalar o topo do morro mais alto que a cidade. De seu largo frontal, descortina a vista panorâmica de todo o centro urbano e mais o campo circundante. O pórtico de entrada, acoplado ao muro e ao portão de ferro forjado, foi construído nos anos 1950, no estilo neocolonial, sem ornamentos, abrigando a administração, o depósito e os sanitários. Sobe-se pela rua principal, que divide em duas alas: à esquerda de quem entra, das sepulturas gerais e infantis, e à direita, das sepulturas perpétuas, com vários monumentos funerários desde o final do século XIX. Entre estes, destacam-se os grandes túmulos tipo pináculo, com lápides de mármore Carrara embutidas em alvenaria de tijolos, provindas dos extintos cemitérios do Rosário e do Morro. Pela concentração de peso e falta de fundações, estes monumentos estão inclinando, a ponto de desmoronamento. Jazigos artísticos, ao gosto art nouveau, entremeiam os pináculos, com revestimentos de mármore e granito e grandes esculturas de anjos, quase todos realizados por marmoristas e escultores de sobrenome italiano, provenientes do lado paulista. Entre os túmulos, muitas árvores de diversas espécies e idades, plantadas sem planejamento, tornam este cemitério num local sombreado e pitoresco. A ampliação de seu território é contínua, desde os anos 1950, estendendo-se aos fundos em formato trapezoidal, desapropriando trechos de propriedades rurais. Nesta ala, não há nenhum cuidado na disposição dos jazigos e seus acessos, diferenciando em muito da ala antiga. ![](img/05.jpg =50%) *Vista parcial das sepulturas perpétuas do Cemitério de Cabo Verde. Capelas e túmulos pináculos concorrem com a diversidade arbórea. Foto do Autor* ## Sobre os cemitérios Nos cemitérios aqui tratados, percebe-se a semelhança tipológica do formato retangular, dividindo duas alas específicas para o sepultamentos, as quadras perpétuas, destinadas à construção de jazigos sólidos e permanentes, e as gerais, com tempo menor de exumação, de cinco à dez anos, revezamento necessário, caso ocorresse crises epidêmicas na localidade. Estas providências sanitaristas vêm, principalmente, com as recomendações e legislações do governo republicano pós 1889. No centro das quadras gerais, para marcar as sepulturas, os familiares instalavam cercaduras em madeira ou grades de ferro forjado e fundido, com cruz em mesma técnica e material na cabeceira. Serviam para proteger um pequeno canteiro de flores e trepadeiras de algum animal que por ventura entrasse no cemitério e seria de fácil retirada. Poucas destas grades resistiram no cemitério, já que quase todas as sepulturas gerais foram transformadas em perpétuas. Também nas quadras gerais, ladeando a rua principal do cemitério, ficavam os túmulos infantis, numa época em que morriam muitas crianças em tenra idade, principalmente do “mal de sete dias”. A construção destes pequeninos túmulos, em formato de soco, recebia em sua cabeceira esculturas de anjinhos em diversas posições, povoando esta ala de seres alados. Até os anos 1920, estas esculturas foram importadas de Pietrasanta, Itália, próximo às jazidas de Carrara, por marmoristas italianos instalados nos municípios paulistas. Aumentando as encomendas, decidiram enviar seus descendentes para aprender o ofício da escultura e economizar os custos de importação. A distância destes cemitérios públicos ao núcleo habitacional é reclamada desde o período imperial, além da exigência dos cuidados municipais no asseio e beleza do espaço, lembrando das visitas constantes dos “vivos” aos seus entes queridos. Como relatava o Almanak Sul Mineiro em 1884, que existiam em todas as povoações, cemitérios “em estado mais ou menos regular, e em geral pouco conservados ou zelados”. Poucas eram as “freguesias que os não possuem, bem aquelas que o tem em condições de precisarem de urgentes reparos”. Na República, os cuidados com o cemitério era obrigação de uma boa administração pública, lembrando também que a imigração europeia, principalmente a Italiana, tinha nestes espaços a sua melhor referência cultural e tradicional. Todos os cemitérios do estudo são cercados por muros de alvenaria de tijolos, rebocados e caiados, tendo um portão principal de entrada, com grade cuidadosamente trabalhada. Dos quatro exemplos aqui tratados, alguns portões resistiram ao tempo e foram adaptados ao futuro pórtico construído com telhados, destinados ao abrigo da administração do cemitério, depósitos gerais e sanitários. Anteriormente, até os anos 1940, o coveiro municipal morava em casebre nas proximidades do cemitério, como o exemplar ainda existente em Poços de Caldas. A qualidade dos pórticos também varia de cidade para cidade, dependendo da época em que são construídos, podendo citar como mais belos e simbólicos o de Guaxupé, de Jacutinga e de Ouro Fino, realizados por capomastri italianos. De todos os cemitérios estudados, não encontramos arborização ordenada e harmônica, lembrando que os usuários ficavam expostos a forte insolação até os anos 1950. A partir de então, a municipalidade começou a plantar espécies de arborização pública, de rápido crescimento e inapropriados ao cemitério, como a sibipiruna e a espatódea, que acabam estourando os túmulos com suas raízes e quebrando as esculturas com a queda de seus galhos. Os cemitérios mais caóticos, neste caso, são o de Poços de Caldas, Cabo Verde e Botelhos. Quanto à preservação dos monumentos funerários – túmulos, jazigos, capelas, grades –, fica à mercê dos familiares e particulares, sem qualquer controle do poder público, o que seria de fundamental importância. Em primeiro momento, se faz necessário o reconhecimento deste patrimônio, através de inventário contínuo, para detectar emergências e evitar o desaparecimento destes bens. Em paralelo, o poder público deve exigir a preservação e conservação pelo particular, e se não houver mais o responsável, assumir o papel de zelador e conservador. Muitos túmulos infantis estão desaparecendo de nossos cemitérios, pois não havendo descendência dos mesmos, são desapropriados, concedidos a outros e, consequentemente, demolidos, espalhando as esculturas de anjinhos pelo mercado de antiguidade. Outra questão gravíssima é o desconhecimento das técnicas de limpeza e conservação das pedras utilizadas nos monumentos funerários, que são lentamente destruídas pela ação de ácidos e solventes. Neste caso, e como em todos os outros aqui citados, é necessária a conscientização através de processos educativos patrimoniais, das escolas públicas aos usuários e trabalhadores dos cemitérios. A segurança destes espaços é de fundamental importância para sua preservação, pois as esculturas e ornamentos são objetos de furtos constantes, além da depredação gratuita e inconsequente. Nos cemitérios estudados, alguns já contam com sistema de segurança mínima, monitorados com câmeras, ao menos na rua principal. ## Considerações Finais Os cemitérios são espaços privilegiados da memória de uma comunidade, pois representam um resumo de sua história e tradições, garantindo, naturalmente, o fortalecimento e a permanência de seus valores afetivos. No Sudoeste de Minas Gerais, fronteira com o Estado de São Paulo, os cemitérios têm um significado ainda maior, pois tornaram-se belos pela somatória de obras-de-arte em mármore, granito e bronze, situação promovida pela riqueza do café e pela mão-de-obra imigrante italiana. O imaginário do cemitero monumentale tornou-se referência universal, sem fronteiras territoriais, transformando num patrimônio conciso e representativo de todas estas comunidades mineiras. Devemos reconhecer este patrimônio, urgentemente, inventariar seus elementos de composição, detectar as situações de risco e deteriorantes, conscientizar seus agentes e usuários, e promover a sua restauração e conservação. ![](img/06.jpg =50%) *Cemitério de Guaxupé. É comum a sequência de esculturas, geralmente produzidas por artistas italianos. Na imagem, o mesmo motivo se repete em três túmulos da mesma família de fazendeiros* ## Referências Bibliográficas [1] Barbosa, W.A. Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Saterb, 1971. 552 p. [2] Campos, S. R. Andradas e sua trajetória luminosa. Andradas: Caseli & Ribeiro Gráfica e Editora, 1996. 212 p. [3] Falcucci, G. V. Caminhos de Muzambinho. Poços de Caldas: Sulminas Gráfica e Editora, 2010. 244 p. [4] Carvalho, A. A freguesia de Nossa Senhora da Assumpção do Cabo Verde e sua história: das minas de ouro aos cafezais. Cabo Verde: Ed. do Autor, 1998. 393 p. [5] Ferreira, J.P. 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